Mulheres querem mais e melhores informações sobre a zika, diz pesquisa

Mulheres querem mais e melhores informações sobre a zika, diz pesquisa

As opiniões são de grávidas das classes C e D entrevistadas em São Paulo, Recife e João Pessoa

Em meio a uma epidemia de zika no país, doença que provoca má formação fetal e problemas de desenvolvimento em bebês, mulheres e gestantes reclamam da falta de informação no sistema de saúde, público ou privado, e na imprensa. Para elas, que querem também políticas públicas para exterminar o vetor da doença, o mosquito Aedes aegypiti, e apoiá-las no tratamento, a mídia e os profissionais de saúde acabam gerando angústias ao difundir “sofrimento” e em não dar orientações relevantes.

As opiniões são de grávidas das classes C e D entrevistadas em São Paulo, Recife e João Pessoa, em abril, reunidas em pesquisa do Instituto Patrícia Galvão – Mídia e Direitos, em parceria com o Data Popular e apoio da ONU Mulheres, divulgada hoje (2), no Rio de Janeiro.

Poucas informações

Presquisa informa que as mulheres conhecem as formas de erradicar o mosquito transmissor da zika e de outras doençasArquivo/Agência Brasil
Presquisa informa que as mulheres conhecem as formas de erradicar o mosquito transmissor da zika e de outras doençasArquivo/Agência Brasil

Segundo a pesquisa, mulheres buscam informações sobre a síndrome da zika congênita, que passa da mãe ao bebê, na barriga, mas mesmo nas unidades de saúde, três em cada dez não encontram. “[A consulta] é muito rápida, a maioria nem olha para sua barriga”, disse uma delas.

Muitas saem com dúvidas dos consultórios, sem saber, por exemplo, que podem pegar a doença durante toda a gestação e não apenas nos três primeiros meses – hipótese que chegou a ser cogitada cientificamente, mas já foi afastada – e que devem usar camisinha para evitar o contágio em relações sexuais, mesmo com o próprio parceiro – que pode ter sido picado pelo Aedes aegypti. Falta esclarecer também que a amamentação e vacinas não transmitem o vírus da zika.

Discriminação no atendimento

Na avaliação da médica e pesquisadora Jurema Werneck, da organização não governamental Criola, que foi consultora da ONU Mulheres, é preciso investigar mais por que as mulheres saem das consultas com dúvidas e sugere que há discriminação no atendimento.

“A pesquisa não diz isso claramente, mas cabe levantar, além dos problemas de baixa qualidade ética e humana de muitos profissionais [de saúde], no sentido da relação entre pessoas, no sistema público, privado ou conveniado, cabe ver o que influencia essa baixa qualidade de atendimento”, disse Jurema. “Algumas pesquisas já apontam que, por trás disso está o racismo, a questão geracional – boa parte das grávidas são jovens – e a questão de classe”.

As entrevistadas também confessaram que se sentem sozinhas e angustiadas por terem de se proteger da zika. Elas comentaram sobre a dificuldade de usar o repelente, que é caro e, muitas vezes, causa enjoo, roupas de mangas cumpridas, apesar do calor em algumas regiões, além de terem citado a dificuldade de convencer parceiros a usar preservativos.

Saneamento

Mesmo que faltem informações sobre a doença em si, a pesquisa confirma que as mulheres têm clareza sobre a origem da zika e as formas de erradicar o mosquito transmissor, vetor de outras doenças, como a dengue.

Mais do que campanhas de cuidados domésticos, elas querem, segundo a pesquisa, saneamento básico, água potável e coleta de lixo das prefeituras dos municípios onde habitam. Elas já constataram que as áreas com mais pessoas infectadas são aquelas mais pobres em suas cidades.

“As mulheres têm clareza que essa é uma epidemia que tem a ver com os determinantes sociais e de saúde, com responsabilidade dos governos municipais, que tem de fazer algo [para resolver os problemas da falta] de água, de saneamento [de coleta] de lixo”, disse a representante do Escritório da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, ao cobrar também mudanças na abordagem de saúde. “Dá para ver que há problemas de distanciamento [no atendimento]”.

Jornalismo no combate à zika

Para apontar caminhos, as entrevistadas cobram uma mudança de viés na cobertura jornalística da doença. Querem menos “sofrimento” das famílias nas telas, jornais, programas de rádios e sites de notícias e mais informações sobre como evitar e lidar com a doença.

“Eles [as mídias] mostram uma parte muito feia, expõem as crianças. Eu boto aquilo na cabeça e fico triste, angustiada. A gente se coloca no lugar das pessoas, daquela mãe, e dá um desespero”, desabafou uma delas.

Fonte: Agência Brasil

Consumidor quer código de barras como fonte de informação adicional sobre produtos

Consumidor quer código de barras como fonte de informação adicional sobre produtos

Segundo estudo da GS1 Brasil, empresas entendem esse desejo e estão constantemente se adaptando para ficar em linha

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Há 33 anos, o código de barras marca presença em produtos vendidos no Brasil, levando uma série de benefícios para consumidores e empresas. Sua massificação, no entanto, aconteceu somente nos últimos 20 anos. Mas ainda há muitas aplicações almejadas pelo consumidor para o recurso. Uma delas como fonte de informação adicional. Esse é um dos resultados apresentados pela Associação Brasileira de Automação – GS1 Brasil na terceira edição de sua pesquisa semestral intitulada “Consumidores e Empresas: tendências e comportamento no mercado nacional”.

Para chegar a essa conclusão, a entidade ouviu 425 consumidores, sendo 46% mulheres e 54% homens maiores de 18 anos de todo o Brasil e de todas as classes sociais. A GS1 Brasil também ouviu empresas em todo o País para entender como elas enxergam essa e outras tendências. Por parte das corporações, foram consultadas 550 pessoas dos setores de alimentos, indústria e saúde.

João Carlos de Oliveira, presidente da GS1 Brasil, aponta que o consumidor demonstra que o código de barra pode ser fonte de entrada de informações, item citado por 76% dos respondentes do estudo. “99% dos consumidores buscam dados do produto antes da compra e o código de barras permite não só isso, mas rastreabilidade, agregando valor aos produtos. Além disso, 44% dos entrevistados entendem que o código de barras pode ajudar no combate à falsificação”, afirma o executivo.

No futuro, releva o levantamento, o código de barras pode se tornar referência para informações gravadas nos dispositivos móveis, que é, hoje, o principal sistema de armazenamento de dados das pessoas.

De acordo com o levantamento, o consumidor espera que o código de barras nos próximos anos sirva para acompanhar ainda exames médicos, item citado por 77% dos entrevistados; identificação em loja (76%); internação em clínicas e hospitais (74%); identificação pessoal (72%); e rastrear o que é consumido individualmente (71%).

Indústria avança

Segundo o estudo, as empresas estão cientes de que seus consumidores buscam mais informações e 75% delas apontam que o site é a origem de informações dos produtos. As redes sociais também desempenham papel relevante, com 68% das companhias usando o canal para informar o público.

No futuro, revela a pesquisa, os pontos de contato do consumidor deverão crescer na busca por informações. Destaque para o crescimento do uso de aplicativos. E, apesar do cenário econômico atual, 87% das organizações querem investir em tecnologia no próximo ano.

Das empresas de alimentos ouvidas, 40% afirmaram que vão apostar em inovação em códigos lineares com mais informações, outras 25% em eventos de rastreabilidade. Em saúde, o investimento tecnológico vai para códigos de barras 2D e atualização automática de dados cadastrais das empresas e produtos, comportamento semelhante ao que será adotado pela indústria.

Automação em tempos de crise

Na visão de Oliveira, em tempos de crise, a automação é forte aliada das empresas e por isso companhias devem apostar na iniciativa. “Talvez ela seja até mais importante do que em época de ‘vacas gordas’. Porque é por meio da automação que se consegue redução de custos, especialmente em razão da eficiência, produtividade e redução de custos que ela promove”, destaca.

Ele observa que corrobora o fato de que 72% dos consumidores estão tomando decisão de compra baseada na razão. “Sabemos que emoção, especialmente, em estabelecimentos comerciais self-service, ainda tem fator positivo no ato da compra, mas neste momento de crise, 72% dizem que a compra não é emocional e sim racional e apenas 1% diz que está comprando produtos supérfluos”, completa.

Um mundo de código de barras

Oliveira aponta que o consumidor mostra o claro desejo de automatizar a sua vida por meio do celular. Nesse cenário, seria possível vivermos em um mundo de código de barras, como já acontece em alguns locais da Coreia do Sul, que mostra displays de produtos no metrô que podem ser comprados pelo celular a partir de um código de barras e entregues em casa?

Quem responde é Ana Paula Maniero, gerente de Negócios da GS1. “O código de barras do produto hoje já torna possível esse cenário”, afirma. A executiva, inclusive, aponta que a GS1 Brasil já tem uma solução nesse sentido pronta para associados. Trata-se do O InBar, aplicativo para leitura de códigos de barras lineares e bidimensionais por meio da câmera do dispositivo ou da digitação do código numérico do item comercial.

O presidente da entidade reconhece que essa é uma tendência que a GS1 está de olho, uma vez que busca manter sempre seus associados na vanguarda tecnológica para beneficiar não só empresas como seus clientes.

Fonte: It Fórum

Jornalismo de soluções: O ofício de informar sobre iniciativas de sucesso

Jornalismo de soluções: O ofício de informar sobre iniciativas de sucesso

O jornalismo de soluções está ganhando força em todo o mundo, mas ainda é um desafio convencer jornalistas que trabalham em meios de comunicação tradicionais a aceitar esta nova abordagem.

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Houve uma época em que os editores de jornais realmente não acreditavam em jornalismo de soluções, um tipo de jornalismo que escolhe cobrir respostas eficazes e bem sucedidas para problemas sociais atuais em vez de notícias sobres fracassos e tragédias. Eles pensavam que os leitores não estariam interessados.

Mas em 2008, o Libération, um importante jornal francês, concordou em deixar Christian de Boisredon experimentar com esse formato. Christian teve a oportunidade de conduzir uma edição especial sobre soluções de problemas em 26 de dezembro — tradicionalmente o pior dia de vendas de jornais. Jornalistas do Libération se recusaram a participar da iniciativa, então Christian pediu a alguns freelancers para escreverem para o projeto.

O resultado foi a edição mais vendida do ano.

“Os jornalistas do Libération esperavam temas superficiais e ingênuos”, disse Christian. No entanto, ele conseguiu convencer um jornal tradicional e poderoso que o jornalismo de soluções era uma nova abordagem que não poderiam e não deveriam ignorar.

Quatro anos mais tarde, Christian criou Sparknews, uma startup social que visa promover jornalismo de soluções dentro de meios de comunicação tradicionais. A cada ano, realiza um dia especial chamado “Impact Journalism Day” — o evento deste ano foi em 25 de junho. Para a ocasião, 55 meios de comunicação em mais de 50 países — do USA Today ao El Pais na Espanha — publicaram várias matérias internacionais projetadas para focar em soluções para os problemas sociais de hoje.

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Christian não é o único convencido dos efeitos do jornalismo de soluções. Calum Macdonald, ex-editor digital do Herald Times Group, um grande grupo de mídia britânico, decidiu dar um passo além e começar um novo canal baseado em jornalismo de soluções. Assim nasceu o site Positively Scottish.

De acordo com Calum, Positively Scottish quer “encontrar e contar histórias que, receio, estão sendo perdidas enquanto nossa mídia tradicional se retrai rapidamente.”

A matéria do site sobre o abuso de uma jovem LGBT e sua parceira em um trem na Escócia exemplifica sua abordagem diferente. O Positively Scottish decidiu cobrir as consequências do abuso e como a mulher decidiu criar um evento de orgulho para celebrar a igualdade.

“Sem querer soar messiânico, [quero] trazer um pouco mais de positividade para a superfície”, Calum disse à IJNet. “Sim, há problemas reais lá fora, mas há também soluções eficazes supreendentes.”

Fazendo a mídia tradicional seguir

O jornalismo de soluções está ganhando força em todo o mundo, mas ainda é um desafio convencer jornalistas que trabalham em meios de comunicação tradicionais a aceitar esta nova abordagem.

Christian contou sobre o jornal  El Watan da Argélia. No primeiro ano que participaram do Impact Journalism Day, editores tiveram problemas para encontrar jornalistas dispostos a escrever um artigo adicional sobre soluções. Mas no segundo ano, todos eles queriam escrever um artigo porque acharam a iniciativa incrível, disse Christian. Eles ainda tiveram que ter um concurso informal na redação para escolher a pessoa que iria escrever o artigo.

Jornalismo de soluções não trata apenas de propor respostas, mas também de se aprofundar nos problemas.

“Essas matérias não são boas notícias e histórias para fazer você ‘se sentir bem'”, explicou Christian. Ele concordou que podem fazer os leitores se sentirem melhor, mas que não é por isso que são escritas. O jornalismo de soluções não é uma abordagem mais superficial ao jornalismo, disse ele.

“Pare e pense, e não descarte o jornalismo de soluções como algo ‘fofo’ e não jornalismo ‘real'”, sugeriu Calum.

Uma resposta para os problemas da mídia?

Jornalismo de soluções seja talvez em si mesmo uma solução para os inúmeros problemas que o mundo da mídia enfrenta.

Nos últimos seis anos, Sparknews reuniu e discutiu com editores de diferentes meios de comunicação sobre o impacto das matérias de jornalismo de soluções. O jornal suíço Tages Anzeiger recebeu feedback positivo de leitores. Seus editores estão agora se perguntando se o jornalismo de soluções poderia ser a chave para aumentar sua audiência. O Asahi Shimbun, um dos principais jornais japoneses, notou um aumento de jovens leitores no Impact Journalism Day. Outros meios de comunicação observaram que anúncios podem ser vendidos por valores até cinco vezes maiores. Agências de publicidade preferem ver os seus produtos junto a artigos propondo soluções para a sociedade, em vez de focando exclusivamente em problemas.

Com leitores e audiência das notícias tradicionais em declínio em todos os lugares, Calum está em dúvida sobre o futuro — mas disse que não vai fazer mal buscar o jornalismo de soluções como uma tática de sobrevivência.

“Podemos realmente dizer que a forma tradicional ainda está funcionando quando a indústria está indo tão mal em todo o mundo?”, disse ele. “Talvez valha a pena tentar uma alternativa.”

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Evgeniy Isaev. Imagem secundária cortesia do Libération.

Fonte: IJ Net

Livro gera polêmica ao propor imprensa sem fins lucrativos

Livro gera polêmica ao propor imprensa sem fins lucrativos

Com muitos veículos jornalísticos atualmente atolados na crise, tornou-se imperativo pensar em novos modelos para a mídia

Nunca existiram tantos produtores de informação quanto hoje. Paradoxalmente, a mídia nunca esteve em situação tão difícil. Alguns observadores afirmam que os próprios meios de comunicação são responsáveis pela situação preocupante em que se encontram devido a seus inúmeros erros e à incapacidade de se adaptarem ao novo mundo. Meu diagnóstico é relativamente diferente: a mídia não conseguiu o modelo econômico adequado porque foi incapaz de compreender a natureza da crise e, consequentemente, continuou a reagir com reflexos desatualizados. A maior parte do debate se dá em torno da “morte do impresso”, mas o que importa não é o meio, e sim, a mensagem. As questões mais importantes – a qualidade do conteúdo e a estrutura organizacional – foram omitidas.

Resumindo: a questão não é se a mídia deveria ser subsidiada, e sim, se lhe deveria ou não ser concedido um status Livro-Saving-the-Media-246x300favorável, em termos legais e de tributação, em reconhecimento à sua contribuição à democracia – um status comparável àquele de que gozam, há muito tempo, muitos outros participantes na economia do conhecimento. Alguns observadores veem o interesse de investidores bilionários – como Jeff Bezos, Pierre Omidyar e John Henry – como o prenúncio de uma nova idade do ouro: os jornais voltariam a contar com recursos e funcionários.

Mas se a mídia do futuro depender de investidores ricos para seu financiamento, há muitos perigos pela frente. Em parte, foi o acordo de propriedade do publisher italiano Carlo Caracciolo que mergulhou o jornalLibération na crise em que se encontra hoje. Por isso é que é preferível que as empresas jornalísticas se organizem como fundações, e não como sociedades anônimas: numa fundação, os herdeiros não podem dispor como quiserem do capital herdado. O investimento é irrevogável e, portanto, permanente.

Com muitos veículos jornalísticos atualmente atolados na crise, tornou-se imperativo pensar em novos modelos para a mídia. Aquele que proponho baseia-se em financiamento coletivo [crowdfunding] e poder compartilhado [power-sharing]. Espero que possa servir como um novo gabarito econômico e legal para a mídia do século 21 – um modelo que combina alguns aspectos de sociedades anônimas com os de fundações. Chamemos a essa nova entidade uma organização de mídia sem fins lucrativos [nonprofit media organization – NMO].

Deveria o poder ser proporcional às ações de capital?

Para começar, é útil relembrar alguns erros do passado, como a experiência de jornais que se tornaram empresas públicas. Tornar-se público provou ser um erro tanto para os jornais quanto para a democracia. Nos primeiros cinco anos depois que o Chicago Tribune se tornou uma empresa pública, os lucros aumentaram 23% ao ano, enquanto a receita bruta tinha um aumento de apenas 9%; esse desempenho foi conseguido cortando as despesas drasticamente. A busca de maiores lucros não afetou apenas jornais, mas também veículos de rádio e televisão (algumas emissoras de televisão têm margens operacionais de 50%) e a obrigação de produzir informação local de qualidade caiu consideravelmente.

Para falar francamente, ações de empresas jornalísticas não deveriam ser negociadas publicamente. Isso é particularmente verdadeiro em se tratando dos Estados Unidos, onde as empresas públicas têm responsabilidade fiduciária para com seus acionistas, para maximizar os lucros. Essa obrigação legal entra em conflito com a responsabilidade moral de “servir o bem-estar geral” (como consta da Declaração de princípios da Sociedade Americana de Editores de Jornais). De forma semelhante, pois as universidades têm uma responsabilidade moral de ensinar e envolver em pesquisa, é difícil imaginá-las como empresas publicamente negociáveis visando a maximizar os lucros.

Nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Irlanda e na Alemanha as empresas jornalísticas vêm experimentando uma porção de fórmulas inovadoras há muitos anos. Surgiram muitas organizações jornalísticas sem fins lucrativos. O maior conglomerado de mídia da Alemanha, a Bertelsmann – maior da Europa e uma das maiores empresas de mídia do mundo –, é propriedade da Fundação Bertelsmann. Essa estrutura não impediu, de forma alguma, o crescimento da Bertelsmann. Com 110 mil funcionários, a Bertelsmann ocupa um espaço significativo na França, na Europa e nos Estados Unidos, onde é a acionista majoritária da Penguin Random House, a maior editora do mundo.

O status de fundação não determina, por si só, como as empresas de mídia são administradas. Deveria o poder ser estritamente proporcional às ações de capital? Se assim fosse, que poderes compensatórios poderiam existir? Numa sociedade anônima típica, quem detém a maioria das ações também tem a parte do leão das ações com direito a voto. Isso é um problema porque um acionista dominante pode pôr a empresa a serviço de seus interesses econômicos ou políticos, e não do interesse público.

Limitações devem-se a uma capitalização inadequada

Examinemos alguns modelos existentes de organizações jornalísticas sem fins lucrativos para ter uma ideia mais clara de suas vantagens e limitações. Um dos mais antigos jornais independentes possuídos por uma fundação é o Guardian, um pilar da imprensa britânica. The Guardian é propriedade do Guardian Media Group que, por sua vez, é controlado pela Scott Trust, uma fundação sem fins lucrativos cuja missão, desde 1936, tem sido a de garantir a independência do jornal. Na França, o Ouest-France, principal jornal em termos de circulação, é propriedade de uma organização sem fins lucrativos desde o início da década de 90. Com esse status legal, o jornal conseguiu evitar qualquer tentativa hostil de assumir seu controle.

Entretanto, é nos Estados Unidos, onde a filantropia é a regra, que encontramos o maior número de organizações jornalísticas sem fins lucrativos. Uma das mais conhecidas é a ProPublica, que Herbert e Marion Sandler criaram em 2008 com a doação de vários milhões de dólares. O site, de jornalismo investigativo, já ganhou dois prêmios Pulitzer. Entre os empreendimentos mais bem-sucedidos encontramos o Tampa Bay Times, que pertence ao Instituto Poynter, uma entidade sem fins lucrativos, o Texas Tribune, o Christian Science Monitor e, naturalmente, a Associated Press, uma das principais agências de notícias do mundo e a mais antiga cooperativa.

Poderia ser dito que as entidades sem fins lucrativos seriam uma solução para a atual crise da mídia? Apesar dos casos excepcionais acima citados, a maioria das empresas jornalísticas sem fins lucrativos é muito pequena. A maioria dessas organizações se envolve num tipo de jornalismo segmentado, especializando-se em áreas de assuntos estritamente definidos.

Embora esse tipo de publicações traga uma lufada de ar fresco bem-vindo ao debate democrático e, até certo ponto, preencha a lacuna deixada pelos cortes de custos na mídia tradicional, elas não parecem capazes de substituir os atuais jornais, principalmente porque a maioria delas é de sites na internet, que sofrem das mesmas limitações dos websites dos jornais. Em média, a visita ao website de uma publicação sem fins lucrativos dura menos de dois minutos, metade do tempo, em média, de uma visita a um jornal tradicional norte-americano e muito menos do que o tempo gasto para ler um jornal impresso tradicional. Essas limitações não estão intrinsecamente vinculadas ao status de fundação das organizações em questão, mas devem-se, em grande parte, a uma capitalização inadequada.

Ampliação da redução de impostos seria um passo em frente

As fundações merecem crédito por terem colocado os leitores novamente no centro do quadro… No entanto, não foram capazes de envolver os leitores em seu financiamento. Com exceção doVoice of San Diego, que lançou uma das maiores campanhas de financiamento coletivo conhecidas até hoje (a Bigger Voice Fund), as empresas jornalísticas levantaram pouco dinheiro dessa maneira. Em geral, as fundações dão preferência a grandes doações por parte de pessoas ricas, empresas ou outras fundações – e não a pequenas contribuições individuais. Isso cria dois tipos de problema. Em primeiro lugar, tornam-se vulneráveis à excessiva influência de um pequeno número de pessoas, criando um risco para a democracia. E em segundo lugar, tornam-se igualmente vulneráveis a uma recessão econômica e, portanto, financeiramente frágeis.

Um outro ponto merece ser enfatizado: as leis tributárias que dizem respeito às fundações são extremamente complexas nos Estados Unidos e na França e isso coloca limites rigorosos para o desenvolvimento de mídias alternativas com base em fundações. Para uma operação jornalística sem fins lucrativos, é muito difícil, nos Estados Unidos, atender aos critérios da Seção 501(c)3  do código tributário (1) , que deve ser atendido por qualquer organização que procure a isenção de impostos e evitar o pagamento do imposto de renda empresarial.

Atualmente, as autoridades francesas estão avaliando a possibilidade de ampliar o status de fundação para as organizações jornalísticas e espera-se que isso seja aprovado. Uma possibilidade seria declarar a manutenção do pluralismo da imprensa como missão no interesse público. De qualquer maneira, é extremamente importante que comecemos a pensar na mídia como parte de um ecossistema muito maior, o setor da economia que produz conhecimento.

Meu objetivo não é propor melhoramentos específicos na legislação francesa ou norte-americana. Ao invés disso, é argumentar que a ampliação da redução de impostos concedida aos fundos para doações na França e às organizações enquadradas na Seção 501(c)3 do código tributário norte-americano significaria um importante passo em frente. A simplificação do atual sistema de contribuições para a mídia incentivaria doações privadas e tornaria a assistência do Estado mais eficiente. Mais importante ainda, a reorganização das empresas jornalísticas como fundações tornaria possível estabelecer doações de capital permanentes. As doações a fundações são irrevogáveis e o sistema de investimentos irrevogáveis tornaria possível garantir a independência das empresas jornalísticas no longo prazo.

Alívio de impostos e democratização de capital

O tipo de organização jornalística sem fins lucrativos que estou propondo combina as virtudes de vários tipos legais. Goza das vantagens de uma fundação (estabilidade de financiamento e capacidade de ter como objetivo a informação como bem público, e não como maximização do lucro às custas da qualidade) e das de uma sociedade anônima (propriedade diversificada, reposição da categoria das lideranças e tomada de decisões democrática, desde que o poder dos maiores acionistas seja adequadamente restrito). A organização de mídia sem fins lucrativos que estou propondo é um modelo híbrido. Em parte, é inspirado no modelo das grandes universidades internacionais, que combinam atividades comerciais e não comerciais.

O modelo de organização de mídia sem fins lucrativos encaixa-se entre os dois extremos de uma fundação e uma sociedade anônima. Assim como uma fundação, pode aceitar doações ilimitadas. Em meu modelo, essas doações deverão ser isentas de impostos, como são atualmente as doações às fundações. Mas também deverão ser compensadas pelo direito de voto numa empresa: uma doação a uma organização de mídia sem fins lucrativos é uma contribuição ao seu capital e, portanto, traz direitos “políticos”, como qualquer outro investimento.

Em países como os Estados Unidos, onde os subsídios à mídia são insuficientes, o modelo da organização de mídia sem fins lucrativos também poderia fornecer uma maneira nova e extremamente eficiente para o governo aumentar sua contribuição para a saúde da mídia. O modelo da organização de mídia sem fins lucrativos oferece inúmeras vantagens. Combina os benefícios do modelo sem fins lucrativos com a governança democrática, trazendo um maior número de pequenos acionistas e permitindo os grandes investimentos muitas vezes necessários. Os grandes investidores abrem mão de seu poder de tomar decisões, mas em contrapartida recebem milhões em reduções de impostos.

Alívio de impostos em troca de democratização e estabilização de capital: este sistema resolve as contradições inerentes envolvidas em conceder subsídios aos meios de comunicação de propriedade de empresas altamente lucrativas ou em permitir que a imprensa seja controlada por pessoas ricas.

Capitalismo, crowdfunding e democracia

A solução que estou propondo pode parecer radical. Mas esta nova entidade legal – a organização de mídia sem fins lucrativos – é tudo ou nada. Uma simplificação drástica do atual sistema de subsídios à imprensa na França, uma estrutura legal e fiscal mais acomodada para a mídia nos Estados Unidos, uma ampliação do valor agregado da redução de impostos para jornais online na Europa (onde atualmente a redação de impostos só é disponível para jornais impressos) e, de uma maneira mais geral, uma concessão às empr3esas jornalísticas do mundo inteiro de um acesso mais fácil ao status de fundação e aos benefícios das contribuições privadas – todas essas medidas ajudariam.

O que deve ser reconhecido é que a mídia jornalística fornece um bem público, assim como o fazem as universidades e outros contribuintes à economia do conhecimento do século 21. Por esse motivo, ela merece um tratamento especial por parte do governo. Pouco a pouco, os governos avançaram no sentido de permitir que as empresas jornalísticas funcionassem como entidades não lucrativas e, consequentemente, pudessem solicitar doações. Ao mesmo tempo, tornaram mais difícil adquirir o status de entidades não lucrativas porque ainda não adotaram completamente a ideia da informação como um bem público.

No atual panorama da mídia não é difícil encontrar um bom número de organizações em dificuldade que poderiam ser salvas se adotassem o modelo da organização de mídia sem fins lucrativos. Na França, por exemplo, o modelo da organização de mídia sem fins lucrativos poderia ter permitido que os funcionários do diário regional Nice Matin (então sob administração judicial) comprassem o jornal sem ter que ceder os direitos de propriedade ao Corse-Matin ou delegar a administração do jornal a outras pessoas (o que foi feito por ordem do tribunal em novembro de 2014).

Se o jornal nacional Libération fosse uma organização sem fins lucrativos, uma terça parte dos funcionários não teria que ter saído em 2015 devido a problemas vinculados às propriedades do barão de imprensa Carlo Caracciolo. Uma vez que os investimentos numa organização de mídia sem fins lucrativos são irrevogáveis, os herdeiros de Caracciolo não teriam podido vender suas ações e, dessa forma, pôr em perigo todo o sistema, ao transferirem o controle para investidores externos, com pouco interesse em informação de qualidade.

Nos Estados Unidos, quantas demissões de jornalistas poderiam ter sido evitadas se seus empregadores tivessem sido uma organização de mídia sem fins lucrativos do tipo daquela que estou propondo? Quantos jornais poderiam ter sido comprados, ao invés de terem sido obrigados a fechar as portas? O jornal Sentinel, de Milwaukee, que até o ano 2000 era propriedade de seus empregados, poderia ter optado por ser uma organização de mídia sem fins lucrativos, ao invés de se ter tornado público. Poderia ter atraído junto a seus leitores – dedicados à qualidade amplamente reconhecida de seu jornalismo investigativo – o apoio financeiro necessário, assim como junto a seus empregados, que poderiam ter recebido reduções de impostos em contrapartida a seus investimentos, ao invés de terem sido obrigados a ver suas ações despencarem na Bolsa de Valores. E.W. Scripps, que comprou o jornal em 2015, já fechou outros jornais que também comprou, como o Cincinnati Post, The Albuquerque Tribune e o Rocky Mountain News.

O modelo da organização de mídia sem fins lucrativos também incentivaria a criação de jornais e de sites de notícias online. Sob o novo modelo, seria mais fácil para eles levantar financiamentos junto a seus leitores, ao mesmo tempo que pediriam investimentos de investidores externos sem medo de perder o controle (porque o direito de voto desses grandes investidores externos seria limitado). Os veículos jornalísticos sem fins lucrativos já existentes também poderiam ser ampliados.

As dificuldades que a mídia enfrenta são tão grandes que não há tempo para esperar. Uma opção tem que ser feita. Novas tecnologias, como a internet, abriram o caminho para a democratização do capitalismo – da qual, o financiamento coletivo [crowdfunding] é um indício. Mas meras doações não bastam: os contribuintes deveriam receber direitos de voto e poder político como incentivos ao investimento e como meio de reafirmar o controle sobre o nosso destino coletivo. Capitalismo, crowdfunding e democracia: essas são as palavras de ordem para o futuro.

(1) Os interessados em detalhes dos critérios da legislação norte-americana relativa a instituições sem fins lucrativos podem obtê-los aqui

Fonte: Observatório da Imprensa

 

Por favor, onde posso me informar sobre a crise?

Por favor, onde posso me informar sobre a crise?

A crise política funcionou como agravante de uma situação que as pessoas já vinham sentindo quando entravam em alguma rede social e percebiam a avalanche de novos dados

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Esta é a pergunta que mais tenho escutado nos últimos dias durante conversas pela internet e em debates públicos ou de botequim. Impressiona a quantidade de brasileiros confusos e desorientados diante de uma batalha informativa que aumenta de intensidade a cada dia e cujo desfecho não é possível vislumbrar. É o drama vivido por pessoas que não vestiram nenhuma camiseta partidária e que sofrem as consequências de um turbilhão de versões e contra- versões difundidas freneticamente por uma imprensa que perdeu o senso de isenção.

Para tentar dar uma resposta aos milhares de leitores perplexos é necessário primeiro entender por que as pessoas estão vivendo este tipo de preocupação hoje . A desorientação informativa tem duas causas principais: uma estrutural, a mudança nos hábitos, comportamentos e valores informativos provocada pela internet, redes sociais, blogs e outros sistemas que dão às pessoas o poder de publicar suas opiniões e informações; e uma causa conjuntural, provocada pela crise político/partidária que estamos vivendo no Brasil e que gerou uma polarização ideológica nos veículos de comunicação do país.

A crise política funcionou como agravante de uma situação que as pessoas já vinham sentindo quando entravam em alguma rede social e percebiam a avalanche de novos dados, fatos e eventos que desafiam a capacidade de compreensão e contextualização, ou seja, de transformá-los em informações capazes de orientar nossos comportamentos.

O tsunami noticioso

A guerra de versões e contra-versões já existia em crises anteriores, como o golpe de 1964 e o impeachment de Collor, mas os protagonistas da guerra informativa se resumiam a uns poucos jornais, uma dúzia de emissoras de rádio e não mais de três redes de televisão. Agora há quase 100 milhões de brasileiros com acesso à rede social Facebook, onde se informam e opinam sobre os fatos de atualidade. Cerca de 25 milhões dos internautas tupiniquins visitam diariamente blogs noticiosos, um número muito maior do que a soma de todos os leitores de todos os jornais e revistas publicados no país. O resultado inevitável é uma mega cacofonia informativa.

A busca de resposta para a pergunta do título implica num mergulho em um dos mais complexos dilemas da nova era informativa que estamos vivendo. As pessoas estão procurando uma referência, uma espécie de oráculo informativo no qual possam confiar integralmente. Mas a dura realidade é que este oráculo não existe, o que nos leva a ser contaminados pela sensação de que vivemos no meio de um caos informativo. As pessoas procuram certezas mas só encontram dúvidas.

Fomos, em grande parte, educados na tradição cristã de que há uma verdade absoluta. Os antigos acreditavam que ela emanava de divindades. Hoje, a cultura ocidental tende a transferir a certeza informativa para empresas, como jornais, e instituições como os tribunais, juízes e cortes supremas. No entanto, depois da revolução nas tecnologias de informação provocada pela internet, até esta certeza começou a ser posta em dúvida graças à divulgação massiva de dados, fatos, eventos e processos antes ocultos sob o manto do sigilo e da omissão noticiosa.

A ilusão da verdade absoluta

O certo é que perdemos o conforto de depositar em alguém ou em alguma instituição a tarefa de nos dizer o que é certo ou errado, justo ou injusto, necessário ou supérfluo. E na atual conjuntura de crise nacional, não temos nem um jornal plenamente confiável e nem uma televisão acima de qualquer suspeita. Não podemos nem mais acreditar no que dizem governantes, políticos, magistrados, pesquisadores e líderes religiosos. Suas declarações e ações respondem a interesses ou estratégias partidárias e nos faltam elementos para identificá-los e compreendê-los.

As pessoas comuns sentem os efeitos da insegurança informativa de forma diferente. Quem vestiu a camiseta partidária tem menos preocupações porque de certa forma transferiu suas dúvidas para uma instituição ou liderança. O que o partido ou dirigente partidário decidirem, é o que vale e é verdadeiro. Já os que não militam em organizações políticas e decidiram pensar pela própria cabeça estão mergulhados na incerteza, que é angustiante e que motiva a pergunta do início deste artigo.

Para respondê-la é necessário primeiro admitir que não podemos nos informar lendo apenas um jornal, uma revista ou assistindo apenas a um telejornal ou só os blogs com os quais concordamos politicamente. A diversidade de fontes é hoje mais importante do que nunca por causa da avalanche de informações publicadas diariamente em todos os veículos de comunicação, tanto os impressos e audiovisuais, como os da internet. É o que dizem os pesquisadores científicos, talvez aqueles que mais dependem de informação confiável e exata para poder desempenhar seu trabalho.

Evidentemente são pouquíssimas as pessoas que dispõem de tempo para ler diariamente vários jornais, revistas, assistir diferentes telejornais e passar várias horas na internet navegando por sites noticiosos. Mas o pouco que cada um sabe pode se transformar num belo acervo informativo quando compartilhado em grupos ou comunidades sociais. É o que está acontecendo em países onde a avalanche informativa é mais intensa, como os Estados Unidos.

Apanhadas no meio do fogo cruzado da batalha informativa as pessoas buscam nas conversas e debates com vizinhos, colegas ou amigos a forma de compensar a angústia por não terem condições de entender o que está acontecendo. Os que já praticam esta modalidade de captação, processamento e difusão de notícias sabem que é inviável chegar a certezas absolutas. Mas pelo menos a angústia diminui.

A produção colaborativa de informações não é mais um jargão exclusivamente jornalístico pois está sendo adotado também por grupos de cidadãos que já sentem na carne a necessidade de mudar comportamentos e valores na hora de se informar. Estamos sendo obrigados a reaprender a ler uma notícia porque suas causas e consequências passam a ser mais importantes do que o fato, dado ou evento noticiado . Também estamos sendo forçados a trocar nossos valores individualistas pela colaboração. Para nos informar visando formar opiniões pessoais, precisamos agora mais do que nunca conversar com outras pessoas e ouvir delas os dados e informações de que não dispomos.

Talvez esta não seja a resposta que muitos esperavam, mas é a melhor que se pode dar no contexto atual.

Fonte: Observatório da Imprensa

“É bastante positivo ter o controle da sua opinião e da informação na ponta dos dedos”

“É bastante positivo ter o controle da sua opinião e da informação na ponta dos dedos”

Para educador, a falta de informação ou memória histórica cria fenômenos como o pedido da volta do Regime Militar

Para o professor de história Luciano Guedes, as redes sociais possuem um papel ambíguo no atual contexto político e social: “É bastante positivo ter o controle da sua opinião e da sua informação na ponta dos dedos no smartphone e não esperar a notícia do ‘Jornal Nacional’, do ‘Jornal da Band’, etc. E mesmo se esperar determinada notícia ser veiculada, tem-se o conhecimento de que o que está sendo veiculado é verdadeiro ou não. Então, isso provoca também uma mudança bem expressiva na sociedade. Ao mesmo tempo, há o lado negativo, que é o auxílio à ideia da fofoca e que pouco contribui na ideia da informação”.

Ainda de acordo com o educador, a falta de informação e uma certa resistência à memória histórica provocam fenômenos como o visto em algumas manifestações contra o Governo, em que manifestantes demonstraram simpatia pelo retorno do militarismo: “Quando vemos um jovem pedindo o retorno do Governo Militar ou implantação de um regime militar, é importante que nós, não apenas como professores de história, mas cidadãos com um algum conhecimento, dizermos que o regime militar significou tortura e uma corrupção talvez maior do que em qualquer outro período. Então, é necessário informar a esse jovem que a volta de um regime militar não é a saída no momento. E, para aquele que já tem uma certa idade, também temos o papel de ficar relembrando”, afirma.

Fonte: Blastingnews

E se o problema também estiver no lado do público?

E se o problema também estiver no lado do público?

Quem é de fato o leitor contemporâneo? E será mesmo que o cliente sempre tem razão? Com a proposta de “nem canonizar o leitor e nem isentar a imprensa de erro”, o jornalista Leonardo Rodrigues oferece outra abordagem para a crise da mídia.

A imprensa e os meios de comunicação vivem dias difíceis. Em época de quebra de paradigmas, a classe assiste a uma tendência de demissões de colegas, fechamento de jornais, revistas e rádios, ao aumento da desconfiança em detrimento da credibilidade e, principalmente, à falta de rumo.

Os tempos são árduos, não apenas para entender, mas explicar, ou ainda propor direções que possam reverter o quadro. Análises se multiplicam quase na mesma velocidade que problemas. Porém, há um certo ponto de partida velado, uma linha de raciocínio no inconsciente dos comunicadores: a canonização do leitor. Pode ser algo herdado de um pensamento comercial, em que o mote é “o cliente sempre tem razão”. Mas, a verdade é que o
esforço em buscar um horizonte ensolarado para a mídia parte sempre da mesma premissa.
E se o problema estiver na demanda? Afirmar pode ser precipitado, mas descartar também pode ser um erro. Fique à vontade em discordar, mas, por favor, não me condene a um extremo: canoniza-se o leitor ou isenta-se a imprensa de erros. Nenhum, nem outro. A ideia é observar por outro prisma.

Não foram apenas as ferramentas e estruturas dos veículos de comunicação que mudaram. Não se trata apenas de uma escala de evolução traduzida em um infográfico que apresenta pinturas rupestres, escritas em carvão, papiro, máquina de escrever, até ao smartphone. Claro, os meios mudaram, mas o processo base da comunicação (emissor e receptor), não. Lógico que há ruídos e outros elementos, mas a base é a mesma.

O receptor é diferente. Perfil, mentalidade, forma de processar a informação, bagagem de conhecimento já são outros. O que era singular, se pluralizou. Se antes destacava-se quem acumulava conhecimento, hoje, é quem seleciona e foca no que entende ser pertinente.

A queda na busca por informação pelos canais tradicionais potencializa a criação de novos meios, que em “tentativa e erro” comprovam sua eficácia. Mas há algum indício que possa traçar o perfil do leitor contemporâneo?

Em 2014, a pesquisa “Argumentação, Livro Didático e Discurso Jornalístico, Vozes Que se Cruzam na Disputa pelo Dizer e Silenciar” atestou que alunos brasileiros não sabem argumentar. A dificuldade desta geração seria em expor ideias, sustentar pontos de vista próprios em redações e criar teses que se tornam tarefas árduas para os estudantes do Ensino Médio.

A pesquisa serviu como tese de mestrado para a pedagoga Noemi Lemes na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Ela analisou livros didáticos e redações produzidas por alunos do terceiro ano do Ensino Médio de escolas públicas. Foi constatado que a dificuldade está, em grande parte, ligada ao modo como os materiais de apoio abordam a argumentação, usando quase exclusivamente como exemplos produções da imprensa.
“Quase sempre é apresentado um único texto jornalístico sobre determinado assunto, expressando um ponto de vista que os alunos tendem a reproduzir”, explica. A conclusão não condena a imprensa exclusivamente, mas destaca sua influência. Esse novo leitor não pode ser considerado apenas fruto de experiências e más escolhas da mídia, como um Frankenstein.

Antes, o problema também passa pela Educação. Na pesquisa, especialistas apontaram que a ausência, nas escolas, de embasamento teórico mais profundo como um dos responsáveis por esse processo de causa e efeito. Segundo a autora, Noemi sugere mesclar ciência, filosofia e literatura como um caminho mais consistente na formação de educandos (e consequentemente de novos leitores).

Outro trabalho acadêmico, concluído em 2012, indica que mais da metade dos universitários são analfabetos funcionais. Segundo a pesquisa da Universidade Católica de Brasília, mais de 50% dos cerca de 800 estudantes avaliados sofrem com o analfabetismo funcional. Não conseguem compreender o que leem.

Universitários de seis cursos diferentes em quatro faculdades foram avaliados. A pesquisa analisou modo de estudar, o tempo de dedicação, características socioculturais e formação. A conclusão é que muitos universitários entram na faculdade sem ter o hábito de estudo, aprenderam o conteúdo de forma superficial, costumam decorar ao invés de entender e muitos são analfabetos funcionais.

Novos produtos de qualidade no mercado de mídia não dependem apenas do desenvolvimento de tecnologias. Passam também por uma reforma educacional com o objetivo de erradicar a ignorância. Assim, quem sabe, a imprensa possa ser cobrada por trabalhos com profundidade, e não apenas porque leitores possam estar insatisfeitos por estarem inchados com informações de redes sociais.

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Fonte: texto de Leonardo Rodrigues, jornalista e chargista. Observatório da Imprensa, 27/02/2016, edição 891. http://observatoriodaimprensa.com.br/crise-na-imprensa/e-se-o-problema-tambem-estiver-no-lado-do-publico/

Pessoas dão informação pessoal na internet de forma “negligente e ingênua”

Pessoas dão informação pessoal na internet de forma “negligente e ingênua”

Comissão de Proteção de Dados avisa que é cada vez mais fácil “roubar a identidade” porque “as pessoas disponibilizam” demasiada informação

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A Comissão de Proteção de Dados alertou este domingo que as pessoas disponibilizam informação pessoal na internet de forma “negligente e ingênua”, como o fazem também empresas e entidades públicas.

Num ano em que a CNPD elegeu como de combate à usurpação de identidade, Clara Guerra, coordenadora do serviço de informação e relações internacionais, avisa que é cada vez mais fácil “roubar a identidade” porque “as pessoas disponibilizam” demasiada informação na internet.

Criando uma identidade falsa podem ser abertas contas bancárias, fazer-se empréstimos ou compras. Clara Guerra diz que o roubo de identidade para fins ilícitos sempre existiu, mas lembra que “antigamente quando havia um roubo quase sempre se recuperavam os documentos”, o que não acontece hoje, porque “há um mercado de documentos”.

Com a internet os criminosos tiveram a vida facilitada, afirmando a responsável que é fácil num motor de pesquisa aceder a listas com nomes associados ao número do cartão de cidadão ou de identificação fiscal.

“Hoje a internet é um meio fértil para recolher informações”, há “muitas empresas e entidades públicas que divulgam informação pessoal” e, por vezes, alegando transparência, “publica-se na internet”, diz Clara Guerra, exemplificando com o Ministério da Educação, que durante anos publicava na internet, “em página aberta”, listas de professores com os números dos bilhetes de identidade associados.

“Divulgar o número do bilhete de identidade/cartão de cidadão não é correto”, há informação disponibilizada com boa intenção “mas que é violadora e pode ser usada de forma abusiva por terceiros”, avisa.

A internet “representa um repositório muito grande de informação pessoal e, por isso, há riscos acrescidos”, diz a responsável da CNPD, acrescentando que as redes sociais vieram ainda piorar a situação. E conta que, ao contrário do que se poderia pensar, os jovens estão mais sensibilizados para o problema do que os adultos, “que facilmente partilham informações pessoais que lhes podem sair caras”.

Clara Guerra dá como exemplo a rede social Facebook, que dá uma “falsa sensação de segurança”, e adianta: “antigamente as pessoas preservavam os contactos, os amigos, mas hoje expõem a sua rede, dizem com quem se relacionam, o tipo de relações, a família, os amigos, os colegas de trabalho”.

As pessoas não têm a noção de que aquilo que colocarem nas redes sociais pode influenciar na obtenção de um emprego e também expõem em demasia os filhos, disse a responsável, lembrando um acórdão do Tribunal da Relação de Évora e que a revista semestral da CNPD (Fórum de Proteção de Dados) cita.

Neste acórdão, os juízes impuseram aos pais o dever de se absterem de publicar nas redes sociais fotografias ou informações identificando a filha, afirmaram que proteger a imagem e a vida privada é tão importante como promover o sustento, a saúde a educação dos filhos, que “não são coisas ou objetos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu bel-prazer”.

O acórdão cita várias normas para dizer que há “um perigo sério e real adveniente da divulgação de fotografias e informações de menores nas redes sociais”.

No início do mês a PSP também já tinha alertado que os pais não devem de publicar fotografias das caras dos filhos, a localização ou os nomes, avisando que uma fotografia que se publica na internet é para sempre.

A proteção de dados pessoais é um direito fundamental consagrado na Constituição (artigo 35) e que completa 40 anos a 02 de abril.

Para evitar o adágio “depois de casa roubada trancas à porta”, a CNPD, na sua página na internet, faz um teste para avaliar o grau de vulnerabilidade face aos ladrões e deixa conselhos de proteção.

Fonte: Diário de notícias

Perdidos na floresta da informação

Perdidos na floresta da informação

Orçamento do Estado, em Portugal, foi palco de uma batalha informativa e desinformativa.

Se no meu bairro houver um assalto por mês sem que eu saiba, a minha sensação de segurança mantém-se. Mas se souber reiteradamente essa informação sentir-me-ei inseguro. A média de assaltos mantém-se, mas muda a minha circunstância pessoal e a minha relação com a sociedade. A informação adquire um lugar fundamental na vida de cada indivíduo e da sociedade em geral.

Thomas Love Peacock, autor de originais romances de ideias, dialogados, escrevia em 1831 que “o descontentamento dos trabalhadores no nosso tempo é mais uma prova da superior informação que eles detêm do que da deterioração” da sua condição. Proponho a Lei de Peacock: mais informação gera mais descontentamento.

Passados quase 200 anos, num mundo totalmente mediatizado, a afirmação é válida para todos. O descontentamento é generalizado. O cinismo do cidadão perante informações diferentes, ou tratadas de forma diferente, cresce. Desconfia do que vê, ouve, lê. Duvida de políticos, jornalistas, comentadores. A informação tomou o lugar dos factos. Conta mais a informação sobre um facto do que o próprio facto.

Nunca o conceito de Marx sobre estrutura e superestrutura foi tão válido. A estrutura refere-se às relações económicas e à base material; a superestrutura inclui a cultura, a ideologia e instituições sociais como os media e pesa hoje como chumbo sobre a estrutura. Cresceu desmesuradamente. Através da informação e espectáculo, não vemos o que mais conta nas nossas vidas, o que ocorre na estrutura. A hipervalorização da superestrutura leva a que a propaganda ou propagandas sejam muito eficazes: se não vemos os factos senão pela sua mediatização, ficamos dependentes das interpretações e manipulações que deles se fazem. É o lado negativo da proliferação mediática.

Por exemplo, o orçamento do Estado foi palco de uma verdadeira batalha informativa e desinformativa. Do seu “esboço” ao documento final, que não tem já nada a ver com aquele, o tratamento mediático tornou difícil entender, pelos tiros em todas as direcções, os dados estruturais, da realidade, e como comparam com o passado. Mascararam os aumentos de impostos. Valorizaram a “vitória do governo em Bruxelas” (mas qual vitória, se rasgou o “esboço” e fez quase tudo o que “Bruxelas” queria?).

Nas redes sociais, metade diz que o orçamento é um maravilhoso amanhã que canta, metade que é a continuação da austeridade. No final do ano, os bolsos dos cidadãos estarão iguais ou mais vazios, mas entretanto o governo obtém uma vitória superestrutural de que não se pode diminuir a importância — precisamente porque vivem os submersos na superestrutura.

Fonte: Eduardo Cintra Torres, colunista do jornal Correio da Manhã, Lisboa – 07.02.2016 00:30.
http://www.cmjornal.xl.pt/opiniao/colunistas/eduardo_cintra_torres/detalhe/perdidos_na_floresta_da_informacao.html

Os hábitos de consumo de mídia no Brasil

Os hábitos de consumo de mídia no Brasil

Pesquisa traz hábitos de consumo de mídia no Brasil em 2015. O salto da internet foi de 32% nos últimos anos.

A Kantar IBOPE Media disponibilizou um infográfico que traz um panorama dos hábitos e do comportamento do consumo de mídia no Brasil em 2015. Baseada em dados do Target Group Index – estudo da Kantar IBOPE Media sobre o consumo de produtos, serviços e mídia, estilo de vida e características sociodemográficas –, a análise inclui tendências nos meios TV, rádio, jornais e revistas e internet.

Mais de 20 mil pessoas de ambos sexos das classes AB, C, e DE com idades entre 12 e 75 anos foram entrevistadas. Para melhor vizualização: https://www.kantaribopemedia.com/wp-content/uploads/2016/02/Consumidor_Midia_finaleditado.jpg

https://www.kantaribopemedia.com/wp-content/uploads/2016/02/Consumidor_Midia_finaleditado.jpg

Fonte: Redação Adnews – http://www.adnews.com.br/negocios/alalaal – 05 de fevereiro de 2016 – atualizado às 13h53

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