Lançada a 2ª edição da revista “Imprensa Nacional – Novos rumos da comunicação pública”

Lançada a 2ª edição da revista “Imprensa Nacional – Novos rumos da comunicação pública”

Esta edição traz aos leitores assuntos relacionados à temática da comunicação pública, como a reportagem sobre o Sistema Eletrônico de Informações (SEI), a matéria sobre os perigos na era digital e uma entrevista com Silviano Santiago sobre “Machado”, sua mais recente obra. Essas e outras matérias estão presentes no segundo número da nossa revista.

No dia 25 de julho, foi lançada a segunda edição da revista Imprensa Nacional – Novos Rumos da Comunicação Pública, dando continuidade ao projeto iniciado em maio de 2017. A revista tem tido boa recepção, por tratar de temas de interesse da sociedade e do setor público.
Esta edição traz aos leitores assuntos relacionados à temática da comunicação pública, como a reportagem sobre o Sistema Eletrônico de Informações (SEI), ferramenta que tem revolucionado a gestão de documentos na Administração Pública. A matéria sobre os perigos na era digital alerta sobre a necessidade de a sociedade falar abertamente de assuntos tabus. Na seção Cultura, o professor e pesquisador Silviano Santiago nos deixa vislumbrar um pouco do seu vasto conhecimento sobre nosso maior escritor. Essas e outras matérias estão presentes no segundo número da nossa revista.
A Revista é um canal institucional que, além de divulgar os serviços da Imprensa Nacional, fomenta a discussão sobre o impacto das mudanças tecnológicas, culturais e de gestão no mundo contemporâneo. Transformações essas que afetam o setor público e sua relação com a sociedade.
Para acessar a versão digital da Revista, acesse:
http://portal.imprensanacional.gov.br/acesso-a-informacao/revista-imprensa-nacional

 

Fonte: Imprensa Nacional

 

Fonte:

Dissertação de Mestrado discute jornalismo em instituições públicas

Dissertação de Mestrado discute jornalismo em instituições públicas

Edson Gil Santos Júnior concluiu mestrado na Universidade Estadual de Ponta Grossa, Área de Processos Jornalísticos, analisando “O jornalismo da fonte como parte necessária de um jornalismo plural democrático”. Para isso, verificou as rotinas da divulgação da Assembleia Legislativa do Paraná.

Nas conclusões, o autor relata que o estudo serviu “para delimitar mais claramente fronteiras entre o jornalismo da fonte de instituição pública, com a comunicação pública e o jornalismo público. Concluiu que, por mais que o jornalista da fonte produza conteúdo para uma instituição custeada com recursos públicos, isso não quer dizer que de maneira plena seja produzida comunicação pública e jornalismo público. Por outro lado, seria equivocado afirmar categoricamente que este profissional não produz, em grande parte de suas rotinas laborais, noticias de interesse público, de utilidade pública e de maneira objetiva ao ponto de ser considerada comunicação pública, que por vezes estimula o civismo e ainda promove a cidadania nos moldes do jornalismo público”.

Edson buscou, entre outros objetivos, “identificar se o trabalho é jornalismo, assessoria de imprensa ou jornalismo da fonte”, levando em conta a legislação, o uso das tecnologias digitais e a mudança de comportamento dos profissionais. Ao final, sugere que na Assembleia é realizado um “jornalismo da fonte e assessoria de imprensa em transformação”.

Edson trabalhou em TV, revistas, jornais impressos e como assessor de imprensa de associações e órgãos públicos. Por meio dessa experiência profissional, percebeu similaridade das funções dos jornalistas e dos assessores de imprensa, “considerando a maneira de escrever, o conhecimento do que o público quer ler como saber expor de forma profissional o acontecimento de um fato”. Após o levantamento efetuado para a dissertação, a visão, sem sua própria avaliação, foi desconstruída e deu lugar a questionamentos. Ele conclui, por exemplo, que o assessor de imprensa não é jornalista, por mais que o conhecimento em jornalismo proporcione plenas condições de o profissional desenvolver um excelente trabalho para seu assessorado.

Ele separa jornalismo na fonte de assessoria de imprensa. “A função do assessor de imprensa, respeitando a ética profissional, é cuidar da imagem do assessorado perante a imprensa e, por consequência, junto à sociedade através da imprensa. Por outro lado, o jornalista da fonte tem outra missão no contexto profissional que é fazer jornalismo para os canais de informações da fonte. Este modelo de profissional é um produtor de conteúdo, que tem funções e rotinas parecidas com o jornalista de redação, porém de modo monotemático, considerando a instituição pública para qual se presta o serviço”.

Em virtude disso, o jornalista da fonte, como apresentado no trabalho deveria ter um cargo específico no organograma profissional das instituições, principalmente as públicas e, assim, não deve fazer releases, sugerir pautas, não tem como função atender a postura do assessorado ou gerenciar situações de crise comunicacional da fonte, mas, sim, reportar o que acontece na fonte de informação e que seja de interesse público de forma isenta e objetiva.

“Tanto nas experiências do Senado Federal quanto da Câmara dos Deputados estas funções apresentam fronteiras bem definidas. Porém, na Assembleia Legislativa do Paraná nem tanto. Os meios de comunicação legislativos na esfera federal, mesmo com a influência das Mesas Diretoras, deixam explicita a diferença em relação às assessorias de imprensa, pois os profissionais da fonte trabalham para produtos específicos do Poder, isto é, canais de informação em rádio, televisão, jornal e internet.”

“Também não se pode afirmar de forma absoluta que estes aparelhos midiáticos estatais não produzem comunicação pública, pois as informações disseminadas por estes órgãos são de interesse público e, como visto nas diversas experiências legislativas, inclusive na Alep, nem sempre sofrem a censura do chefe do poder, apenas obedecem a um perfil editorial pré-estipulado, transvestido de objetividade para evitar que a estrutura de comunicação da Casa cause conflitos entre os parlamentares”.

O autor também relata, ao final, que “a credibilidade diariamente conquistada é posta à prova constantemente pela quantidade nunca até hoje vista de informações disponibilizadas na internet, em um momento em que se multiplicam os formadores de opinião, jornalistas ou não, muitas vezes com o conhecimento raso sobre a vida pública de um município, estado ou país, mas que difundem boatos que prejudicam a democracia. Cabe à mídia da fonte ser referência oficial de informações credíveis juntamente com outros veículos comerciais bem conceituados pelo público”.

“Os meios próprios da fonte, principalmente aqueles que representam o setor público, ou mesmo no caso do Poder Legislativo, que representa a população, devem ser exemplos na difusão de notícias claras, objetivas, que promovam a democracia e a cidadania. É necessário que, neste contexto de jornalismo plural, o jornalismo que é custeado com recursos públicos seja referência de respeito ao cidadão, na primazia do interesse público e na informação de qualidade.

Para acessar o trabalho clique aqui

 

Os limites da liberdade de expressão em tempos de cólera

Os limites da liberdade de expressão em tempos de cólera

Em tempos modernos, de aplicativos para celular que fazem circular centenas de milhares de notícias por dia, a informação é um bem precioso

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Em sentido amplo, a liberdade de expressão compreende uma série de liberdades comunicativas, tais como: liberdade de opinião, liberdade de informação, a liberdade de imprensa, os direitos do jornalista, a liberdade de produção cinematográfica e a liberdade de radiodifusão.

Alçada a direito fundamental, a liberdade de expressão está constitucionalmente consagrada no artigo 5º, IX, da Constituição Federal, cuja redação determina que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Ainda no texto constitucional, está o artigo 220, que assegura “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo”, sem qualquer espécie de restrição. Há parágrafos que garantem a impossibilidade de promulgação de leis que embaracem a liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação e vedam toda e qualquer espécie de censura política, ideológica e artística.

Esse complexo de direitos e garantias fundamentais trazidos pela Constituição Federal retrata a preocupação do legislador em rejeitar toda espécie de censura e limitação à liberdade de ideias e impedir, com veemência, a retomada dos tenebrosos anos de ditadura vividos no país.

O constituinte consagrou a plenitude do direito à livre manifestação do pensamento como corolário de uma nação cuja democracia consolidou-se a duríssimas penas. Um triste passado que o Brasil luta para esquecer.

O constituinte não pretendeu, no entanto, proteger unicamente o cidadão comum que quiser, em praça pública, expressar suas ideias e pensamento. Foi além. O constituinte protegeu a imprensa ou qualquer veículo de comunicação que seja capaz de livre e fidedignamente expor, controlar e criticar todos os aspectos da vida cotidiana, sejam eles relativos ao Estado ou à própria sociedade. Em outas palavras, garante-se à imprensa a irrestrita manifestação do pensamento crítico sobre qualquer tema, sob qualquer situação e a todo momento.

Nos tornamos uma sociedade de informação. Isso quer dizer que nos tempos de hoje vivemos em uma sociedade globalizada, que consome, em alto nível, notícias divulgadas em tempo real. Isto é, em tempos modernos, de aplicativos para celular que fazem circular centenas de milhares de notícias por dia, a informação é um bem precioso.

É o que mais temos vivido no Brasil na atualidade: um constante e aparente conflito entre direitos e garantias individuais, liberdade de imprensa e direito à informação. O Brasil parou quando o juiz Sérgio Moro tornou públicas as conversas entre o ex-presidente da república Luis Inácio Lula da Silva e ministros de Estado e até mesmo com a presidente Dilma Rousseff. Bradaram uns sobre a ilegalidade das escutas e outros sobre ofensas à honra, imagem e intimidade dos envolvidos.

No entanto, esse conflito é apenas aparente. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº130, reafirmou expressamente a liberdade de imprensa e de informação como direito fundamental de especial relevância para os cidadãos, para a República e para a própria Democracia, e que ostenta precedência temporal sobre os demais direitos.

Noutros termos, em primeiro lugar assegura-se o “gozo dos sobredireitos de personalidade”*, em que se traduz a livre e plena manifestação do pensamento, da criação e da informação. Apenas em segundo plano é que se poderá confrontar o titular desses sobredireitos a um eventual desrespeito a direitos constitucionais alheios, ainda que também reflitam relevantes direitos da personalidade.

Isso significa dizer, então, que a nossa Constituição Federal nos permite dizer o que quisermos, onde quisermos? Em outras palavras, há limites para o exercício da liberdade de expressão? A resposta quem deu foi o próprio Supremo Tribunal Federal: sim, podemos dizer o que quisermos, onde quisermos e para quem quisermos, sem prévio controle ou censura. No entanto, os efeitos ou danos causados a partir do que foi dito são passiveis de reparação.

Como forma de reparar esses danos causados à imagem e honra das pessoas, o próprio Estado oferece instrumentos que, em tese, seriam servis à reparação de eventuais danos cometidos a direitos e garantias fundamentais de terceiros, em razão do abuso no exercício do livre pensamento. O direito de resposta e as condenações a pagamento de indenizações são algumas formas de reparação desses danos. No entanto, a eficácia reparatória desses mecanismos é altamente discutível.

Se por um lado tem-se a necessidade de preservação de direitos de produção de informações e livre circulação de ideias e pensamentos, por outro lado há uma massa de indivíduos diariamente atingidos em sua honra, imagem e dignidade, pelo exercício abusivo e irresponsável dos meios de comunicação.

Há de se ter em mente que a imprensa, em tempos de mídias sociais, exerce imensa influência sobre nós, sociedade ansiosa por informações de todos os gêneros, em especial aquelas de natureza sensacionalista ou exagerada. No entanto, também é certo que precisamos urgentemente desenvolver mecanismos mais eficazes para reparação de danos causados à honra, à imagem e à intimidade dos indivíduos que são expostos à opinião pública.

Informação é poder. Os veículos de comunicação são capazes de construir e destruir reputações em um curtíssimo espaço de tempo. O que se vê, em tempos de cólera, é a excessiva demora do Judiciário para responder de forma eficaz à lesão dos direitos relacionados à privacidade. Assim, para que seja possível equacionar os direitos à liberdade de expressão e os direitos individuais à honra e à intimidade, é preciso que o Judiciário forneça, a nós jurisdicionados, respostas eficazes para conter os abusos dos veículos de comunicação comprometidos unicamente com a exploração econômica da informação.

*1 ADPF 130, Relator Ministro Carlos Ayres Britto.

Fonte: Metrópoles

E se o problema também estiver no lado do público?

E se o problema também estiver no lado do público?

Quem é de fato o leitor contemporâneo? E será mesmo que o cliente sempre tem razão? Com a proposta de “nem canonizar o leitor e nem isentar a imprensa de erro”, o jornalista Leonardo Rodrigues oferece outra abordagem para a crise da mídia.

A imprensa e os meios de comunicação vivem dias difíceis. Em época de quebra de paradigmas, a classe assiste a uma tendência de demissões de colegas, fechamento de jornais, revistas e rádios, ao aumento da desconfiança em detrimento da credibilidade e, principalmente, à falta de rumo.

Os tempos são árduos, não apenas para entender, mas explicar, ou ainda propor direções que possam reverter o quadro. Análises se multiplicam quase na mesma velocidade que problemas. Porém, há um certo ponto de partida velado, uma linha de raciocínio no inconsciente dos comunicadores: a canonização do leitor. Pode ser algo herdado de um pensamento comercial, em que o mote é “o cliente sempre tem razão”. Mas, a verdade é que o
esforço em buscar um horizonte ensolarado para a mídia parte sempre da mesma premissa.
E se o problema estiver na demanda? Afirmar pode ser precipitado, mas descartar também pode ser um erro. Fique à vontade em discordar, mas, por favor, não me condene a um extremo: canoniza-se o leitor ou isenta-se a imprensa de erros. Nenhum, nem outro. A ideia é observar por outro prisma.

Não foram apenas as ferramentas e estruturas dos veículos de comunicação que mudaram. Não se trata apenas de uma escala de evolução traduzida em um infográfico que apresenta pinturas rupestres, escritas em carvão, papiro, máquina de escrever, até ao smartphone. Claro, os meios mudaram, mas o processo base da comunicação (emissor e receptor), não. Lógico que há ruídos e outros elementos, mas a base é a mesma.

O receptor é diferente. Perfil, mentalidade, forma de processar a informação, bagagem de conhecimento já são outros. O que era singular, se pluralizou. Se antes destacava-se quem acumulava conhecimento, hoje, é quem seleciona e foca no que entende ser pertinente.

A queda na busca por informação pelos canais tradicionais potencializa a criação de novos meios, que em “tentativa e erro” comprovam sua eficácia. Mas há algum indício que possa traçar o perfil do leitor contemporâneo?

Em 2014, a pesquisa “Argumentação, Livro Didático e Discurso Jornalístico, Vozes Que se Cruzam na Disputa pelo Dizer e Silenciar” atestou que alunos brasileiros não sabem argumentar. A dificuldade desta geração seria em expor ideias, sustentar pontos de vista próprios em redações e criar teses que se tornam tarefas árduas para os estudantes do Ensino Médio.

A pesquisa serviu como tese de mestrado para a pedagoga Noemi Lemes na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Ela analisou livros didáticos e redações produzidas por alunos do terceiro ano do Ensino Médio de escolas públicas. Foi constatado que a dificuldade está, em grande parte, ligada ao modo como os materiais de apoio abordam a argumentação, usando quase exclusivamente como exemplos produções da imprensa.
“Quase sempre é apresentado um único texto jornalístico sobre determinado assunto, expressando um ponto de vista que os alunos tendem a reproduzir”, explica. A conclusão não condena a imprensa exclusivamente, mas destaca sua influência. Esse novo leitor não pode ser considerado apenas fruto de experiências e más escolhas da mídia, como um Frankenstein.

Antes, o problema também passa pela Educação. Na pesquisa, especialistas apontaram que a ausência, nas escolas, de embasamento teórico mais profundo como um dos responsáveis por esse processo de causa e efeito. Segundo a autora, Noemi sugere mesclar ciência, filosofia e literatura como um caminho mais consistente na formação de educandos (e consequentemente de novos leitores).

Outro trabalho acadêmico, concluído em 2012, indica que mais da metade dos universitários são analfabetos funcionais. Segundo a pesquisa da Universidade Católica de Brasília, mais de 50% dos cerca de 800 estudantes avaliados sofrem com o analfabetismo funcional. Não conseguem compreender o que leem.

Universitários de seis cursos diferentes em quatro faculdades foram avaliados. A pesquisa analisou modo de estudar, o tempo de dedicação, características socioculturais e formação. A conclusão é que muitos universitários entram na faculdade sem ter o hábito de estudo, aprenderam o conteúdo de forma superficial, costumam decorar ao invés de entender e muitos são analfabetos funcionais.

Novos produtos de qualidade no mercado de mídia não dependem apenas do desenvolvimento de tecnologias. Passam também por uma reforma educacional com o objetivo de erradicar a ignorância. Assim, quem sabe, a imprensa possa ser cobrada por trabalhos com profundidade, e não apenas porque leitores possam estar insatisfeitos por estarem inchados com informações de redes sociais.

***

Fonte: texto de Leonardo Rodrigues, jornalista e chargista. Observatório da Imprensa, 27/02/2016, edição 891. http://observatoriodaimprensa.com.br/crise-na-imprensa/e-se-o-problema-tambem-estiver-no-lado-do-publico/

Estudo mostra abordagem superficial da imprensa sobre crack

Estudo mostra abordagem superficial da imprensa sobre crack

Reforço de preconceitos e abordagem superficial da imprensa reforçam os processos de exclusão social dos usuários de crack. 

Dissertação de mestrado de Larissa de Abreu Queiroz, pela Universidade Federal de Santa Catarina, dentro do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, aponta utilização de abordagem superficial ao tratar do uso de crack, reforço de estigmas e preconceitos sobre os usuários, bem como processos de exclusão social, afastando-os dos serviços e ações de saúde.

Os dados mostraram uma abordagem alarmista no discurso midiático em relação ao crack, com poucas informações referentes a pesquisas científicas. Além disso, foram frequentemente utilizadas palavras e expressões que reforçam estigmas e preconceitos sobre o usuário

A pesquisa teve como objetivos analisar informações sobre crack veiculadas em dois jornais de circulação nacional e realizar revisão sistemática da literatura científica sobre crack e mídia. O estudo contém revisão sistemática sobre crack e mídia nas bases de dados Lilacs, Medline, Psycinfo, SciELO e Scopus. As buscas originaram um total de 306 artigos e, após aplicados os critérios de exclusão e inclusão, 13 artigos foram selecionados para análise.

foto: Morador de rua exibe pedra de crack e cachimbo em cracolândia no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Foto: Marco Gomes/CC. Revista Em Discussão! edição 08, revista publicada pelo Senado Federal, agosto de 2011

Outra parte consistiu em pesquisa documental de notícias sobre crack nos jornais Folha de S. Paulo e Carta Capital. Foram coletadas 347 notícias dentro do período de 1 ano e, selecionadas 109 a partir dos critérios de inclusão e exclusão. Dessa pesquisa resultou o segundo artigo científico. Os resultados apontaram que as fontes mais utilizadas pelas reportagens foram políticos (39,45%), seguidos pelos profissionais jurídicos (20,18%) e depoimentos de usuários de crack (16,51%). Com relação às consequências sociais do uso do crack, as mais citadas foram tráfico (42,20%), confronto com a polícia (15,60%) e roubos e/ou furtos (11,93%).

A consequência física predominante nas matérias foi a dependência química (76,15%). Como intervenção ou alternativa para lidar com o consumo da droga, o tratamento foi apresentado em 62,39% das reportagens, seguido da repressão com 39,45%.

Texto obtido a partir do resumo da dissertação.

Conheça o trabalho aqui.Imprensa&Crack

foto da home: http://www.vivasemdrogas.com.br/fique-sabendo/crack.html

Perguntas que a imprensa precisa responder

Perguntas que a imprensa precisa responder

As etapas iniciais de um surto epidêmico oferecem excelentes oportunidades aos jornalistas encarregados da cobertura de saúde pública. Há muitos cientistas que aceitam deixar entrar as câmaras em ambientes habitualmente vedados, o Ministério de Saúde oferece informação o tempo todo, as famílias afetadas procuram a imprensa porque sabem da importância dela para melhorar a situação, há muito interesse do público e os índices de leitura/visualização dos produtos informativos alcançam níveis invejáveis. O nosso trabalho chama a atenção, dá cliques, gera conversa. Em resumo, quando o contexto geral é de intranquilidade, o jornalista pode dormir tranquilo porque não falta trabalho.

A vida boa, porém, está prestes a se acabar. O período em que não é preciso nem parar para pensar como convencer os editores a publicar matérias de saúde produzidas aqui e não simplesmente traduzidas , está com os dias contados. Agora que o vírus zika já foi registrado em 32 países (e logo serão mais) e que a emergência internacional da microcefalia é oficial, chegou a nossa hora: a concorrência com a imprensa internacional é para valer. A mídia brasileira deve sair às pressas da zona de conforto, os jornalistas têm que se preparar para o que vem na frente. Falando direto. Chegou o momento de desviar a atenção dos porta-vozes oficiais e das telas de televisão, e se perguntar: O que será que não está chegando de maneira automática no meu email? O que está acontecendo de importante e que deve ser investigado?

Novas perguntas ou novas respostas

Não dá para continuar repetindo o tempo todo apenas a recomendação de por areia no vaso da sacada. Isso todo mundo já sabe, faça ou não faça. Ou publicar números em constante aumento, seja de vírus, pessoas ou países. O público e a imprensa vão exigir novidades, novas perguntas ou novas respostas.

A lista de pautas possíveis já é significativa. Vai desde cientistas infectando mosquitos para proteger a saúde humana, testando o zika em mini cérebros criados no laboratório, fabricando vacinas Frankenstein com pedaços dos vírus do dengue e a febre amarela, preparando radiação não letal ou avaliando repelentes de última geração que utilizam os últimos avanços das nanotecnologias. Há também fatos bem distantes destas disciplinas. Nos bancos de sangue do mundo nosso líquido vital está virando sangue de segunda categoria e na suspeita de possível transmissão sexual, nas viagens pelo exterior, amantes brasileiros só serão aceitos com dupla camisinha.

Mas no final, a pergunta que todo mundo quer saber é a seguinte: Um mosquito é mais forte que um país inteiro? Vamos ou não ganhar essa guerra? “O Aedes aegypti é o problema de saúde pública mais grave do século e você é responsável por termos uma epidemia”, é a mensagem oficial difundida massivamente. A criação na população da consciência de que estamos diante de um problema de gravidade extraordinária facilita a necessária mobilização. E aos saudosos do militarismo, a mobilização de 220 mil militares e brigadas conformadas por 300.000 agentes públicos lhes dá tranquilidade. Mas será que é mesmo uma guerra? Será que o mosquito é o principal obstáculo para termos saúde? Será que a estratégia de acabar com os criadouros é 100%  efetiva? Será que podemos todos juntos erradicar o mosquito listrado? Ou tudo se trata, apenas, de uma utopia compartilhada?

A luta corpo a corpo e casa a casa é necessária porém, insistem os especialistas, é insuficiente. Se os responsáveis pelo marketing estão oferecendo uma resposta rápida e simples à sociedade é porque acham que isso é o que o povo está precisando.É também a hora da imprensa dizer não. Não basta ser rápida. Tem que ser também uma resposta eficiente, possível e sustentável a longo prazo. E na hora que o jornalista mudar  sua forma de ver o problema, surgirão centenas de novas perguntas, dúvidas e pautas.

Para resolver o problema de vez são necessárias medidas urbanísticas e sociais que estão ficando fora do foco. A nossa angústia atual é em grande parte consequência do crescimento desordenado das cidades e ausência do saneamento básico. O que nos diz esse fato sobre nosso futuro?

Em segundo lugar, vale a pena aprofundar mais nas alternativas biotecnológicas que começam a ser testadas. Algumas nascem envoltas em polêmicas e, a depender do tratamento jornalístico, o repórter pode ser de muita ajuda, ouprovocar muito dano.

No Brasil está sendo desenvolvido, por exemplo, o projeto Wolbachia, que consiste em inocular no Aedes aegypti uma bactéria com o objetivo de torná-lo incapaz de transmitir os vírus (da dengue, zika e chikungunya). O micróbio é, na sequência, transmitido da fêmea para os ovos, e no cenário final uma população de mosquitos incapazes de fazer o mal vai substituir os atuais, que ninguém quer por perto. O desfecho do tipo  “viveram felizes para sempre” seria obtido sem matar ninguém, nem sequer um mosquito. Será que uma estratégia assim é verdadeiramente eficiente e compatível com a saúde do meio ambiente? É uma pergunta que muitos se fazem e que vale a pena responder.

Outra tática de alta tecnologia, com pesquisas já bem avançadas, é a do mosquito transgênico que esteriliza a fêmea e, no longo prazo, permite sonhar em acabar com a espécie (o que não é de lamentar porque o Aedes aegypti é invasor aqui na América Latina, é preciso dizer). O projeto todo parece roteiro de filme. Começa no laboratório de engenharia genética e, na cena final, a população de mosquitos sobreviventes não é suficiente para transmitir o vírus. Outro caminho paralelo que os cientistas avaliam hoje é alterar o DNA dos mosquitos para que sejam incapazes de levar o vírus zika na barriga, uma característica que logo seria transmitida aos seus descendentes (processo tecnicamente conhecido como gene drive). Hoje ainda há muita oposição a liberar animais transgênicos no ambiente natural. Será que o medo mundial da microcefalia muda a percepção pública sobre a necessidade de contar com ajuda dos organismos modificados geneticamente? Tal vez. Isso é desejável? Achamos que sim, mas cada jornalista tem que produzir notícias capazes de levar o público a desenvolver suas  próprias conclusões.

O foco destas estratégias está no bandido de patas listadas, que os cientistas querem, seja aniquilar, seja converter em Aedes do bem. No final da estrada, um cenário maravilhoso de um mundo sem mosquitos malvados. Na teoria é possível, mas o Brasil precisa de repórteres bem formados capazes de ouvir estas maravilhas com suficiente ceticismo profissional para checar as informações recebidas.  A história contada apenas pelos protagonistas, com autoridade e interesses próprios, em jargão preciso e incompreensível, e sem possibilidade de questionamento, constituiria um ato de fé. Depois de todo anúncio ribombante o repórter precisa ir atrás, saber o que opinam outros cientistas trabalhando na mesma área, se avaliam a metodologia, se o investimento faz sentido. Também deve evitar a crítica infundada baseada nas distopias literárias que começam num laboratório de paredes brilhantes e acaba já sabemos como. A mídia brasileira pode dar um show de bola se conseguir difundir o que se faz no país sem “comprar” as informações técnicas de olhos fechados nem fugir delas como se fosse um pecado. A ciência demanda evidências, o jornalismo também.

O diagnóstico da síndrome da microcefalia e o teste do vírus em fluidos humanos é um outro assunto que vai gerar muitas notícias nos próximos meses. Também aqui é essencial que se deixe de repetir a importância de um anúncio apenas porque os próprios autores disseram que ele é genial. É bom saber que um método de identificação da doença não é maravilhoso unicamente por ser rápido e barato. Tem que ser avaliado pela sensibilidade (capacidade de identificar a afecção), especificidade (capacidade de identificar quem não tem a afecção) e valor preditivo (proporção dos exames positivos de pessoas que realmente ficaram doentes), isso é indispensável para saber o que significam os casos confirmados ou descartados. Não ouvi jornalistas fazendo perguntas com essa profundidade, a grande maioria deles apenas está transcrevendo números oficiais.

O ritmo da ciência é lento. A mídia vai ser chamada muitas vezes a noticiar pequenos avanços na busca de um soro ou uma vacina contra dengue, zika, chickungunya entre as muitas fórmulas que estão sendo pesquisadas. A urgência e publicidade podem alavancar o dinheiro necessário e organizar o sistema científico para que o processo não demore mais do que o necessário. Os laboratórios e as instituições precisam da imprensa para que estas pesquisas continuem sendo uma prioridade do Estado. Mas a mídia não pode cometer o erro, como fez no tristemente célebre caso da fosfoetanolamina- de exigir o atropelo de fases clínicas. O método científico exige esperas longas porém extremamente importantes.

Falsas polêmicas.

As discrepâncias entre os cientistas são reais e positivas, assim é como avança o conhecimento. Mas outro ponto importantíssimo é refletir sobre o que chega ao público como polêmica sem base na realidade. Os ecologistas não gostam de mexer no ambiente natural? Vamos então perguntar para eles sobre o mosquito transgênico. Pedir a avaliação dos contrários, ou seja, se jornalista tem a certeza que as fontes oferecem distintos pontos de vista e não simplesmente editam a informação à luz da suas paixões pessoais. Nos tempos de epidemia é a hora de fugir de militantes desinformados. Caso contrário, um repórter pode acabar propondo encher o Parque do Ibirapuera de anfíbios que comam os mosquitos ou recomendar velas de citronela, ou estratégias similares na sua falta de eficácia contra o Aedes. A militância bem informada pode, porém, ser de grande ajuda para mostrar como os agravos ambientais impactam na saúde das populações humanas.

A correta avaliação das fontes pode parecer uma recomendação desnecessária, mas a disseminação dos erros é tão marcante hoje em dia que é difícil saber o que é verdade ou não. Será que o leitor, provavelmente bem informado, sabe responder sem erros quais destes métodos são eficientes para protegê-lo de picadas do mosquito? Spray doméstico- Raquete elétrica-Repelentes a base de Icaridina- Repelentes a base de DEET- Repelentes eletrônicos- Lavar o chão com citronela- Plantar crotalaria- Velas repelentes- Limão com cravo- Areia nos pratos- Sal grosso – Borra de café- Carros com fumacê- (lista incompleta devida à extraordinária inocência e criatividade do brasileiro). A cobertura de assuntos que impactam na saúde não significa dar as costas às fontes não oficiais, mas é preciso avaliá-las com rigor porque o dano ficará para as próximas gerações.

Controle do mosquito ou erradicação?

A gente acredita que estamos em um período de tolerância zero, mas não é bem assim. O país abandonou oficialmente a meta de erradicar o Aedes aegypti no mês de julho de 2001. O propósito é controlá-lo. Mas isso não significa que não existam especialistas que apontem a erradicação como único caminho. É o Fla-Flu da Copa Aedes aegypti.

Se o jornalista procura olhares de fora do mainstream, pode encontrar aqueles que acreditam que é de nossa responsabilidade humana preocupar-nos que o mosquito não esteja contaminado com o vírus. São especialistas em modelos matemáticos que insistem que deveria se proteger mais os mosquitos do contato com os infectados do que se faz hoje. Em outras palavras, eles põem o foco no isolamento dos que já estão infectados. A lógica é fácil de entender. Os vírus se reproduzem mais rapidamente nos seres humanos do que no mosquito. O inseto é uma espécie de “disque-virus’ que faz entrega casa por casa, mas o animal que o transporta a grandes distâncias é o humano. A fonte do vírus não é o mosquito, é o homem. Essa mudança de perspectivas é interessante, mas pode ter consequências. A história da medicina brasileira tem uma frase célebre de Oswaldo Cruz: “dêem-me liberdade que eu erradico a febre amarela”. Naquela época (1904) , o mosquito foi mesmo erradicado. A estratégia incluía, entre outras medidas, isolamento rigoroso do doente em ambiente protegido por telas metálicas.

Cingapura contempla multas de alto valor e até cadeia para quem tiver criadouros com larvas de Aedes em casa. Hoje, na Bahia, usuários anônimos fotografam e informam aos órgãos municipais os locais com possíveis criadouros de mosquito através do aplicativo Caça Mosquito (para o sistema Android). A sociedade ainda deve discutir – e a mídia tem um papel crucial neste debate – sobre o que deve ser feito ou não para resolver a difícil convivência das pessoas com os mosquitos. Mas para fazer isso, precisamos dar a conhecer a real efetividade de cada uma das estratégias que podem ser executadas. Os números existem, estão nos discos duros dos computadores dos cientistas. É só saber perguntar, e ter a coragem de divulgar.

Quantos casos são?

Os repórteres vão continuar buscando respostas a essa pergunta por muito tempo e com muita pressão dos editores que procuram manchetes impactantes. Os cientistas também. E os dois sabem que o campo dos números está cheio de armadilhas. Pernambuco tem muitos casos de microcefalia. Será simplesmente uma super notificação?. Os casos mais graves estão no Ceará. Há alguma outra causa contaminando os dados?

O repórter pode fazer uma mudança de foco indo na contramão: perguntar quantos casos de microcefalia se devem mesmo ao Zika e colocar seu interesse noutras possíveis causas da enfermidade. Se não for o Zika, qual pode ser uma outra causa? Há sem dúvida outras questões a serem estudadas, desde redes de atenção básica ineficientes a causas ambientais desconhecidas. Toda substância química ou radiação que interfira em mecanismos essenciais do desenvolvimento do feto pode levar a malformações, a lista de contaminantes parece infinita e provavelmente ainda é incompleta.

Procurar o lado oculto da informação não significa porém alimentar as teorias conspiratórias. Sempre onde a grande maioria enxerga um problema, outros vêem um negócio oculto. O maldito capitalismo lucrando com as nossas doenças é um clássico dos boatos de internet. A afirmação de que o vírus Zika foi criado pelos Rockefeller está sendo amplamente difundida, ao ponto que o site e-farsas.com, que investiga rumores da web, decidiu esclarecer o assunto. (É mentira, lógico, mas de fato o nome do milionário norte-americano   e a saúde pública brasileira estão realmente interligados. Poucos sabem que entre os anos 1923-1940 o Departamento Nacional de Saúde Pública do Brasil passou à Fundação Rockefeller a responsabilidade exclusiva pela eliminação do Aedes aegypti). As teorias conspiratórias abarcam todas as bandeiras. Antes que a OMS declarasse a emergência, muitos se perguntavam, (geralmente em inglês). What must be heavy lobbing from Brazil not to declare emergency?.(Quão forte deve ser o lobby do Brasil para que não se declare a emergência?) Mas a imprensa que tem a responsabilidade de informar sem censurar verdades, deve tomar cuidados extremos para  não cair na armadilha de misturar fatos reais não relacionados.

Com as lições aprendidas com a gripe suína, a prestigiosa plataforma de informação científicascidev.net quis oferecer aos jornalistas de países com poucos recursos e grandes desafios, as suas recomendações. “Para informar com responsabilidade sobre o brote de uma doença, não é apenas necessário dar sentido aos primeiros informes. Também deve ser feito um acompanhamento exaustivo da evolução da doença  a longo prazo…Há necessidade de voltar às fontes para ver se elas mudaram de opinião e levar isto ao conhecimento do público.”

O Zika pode servir para um bom aprendizado no jornalismo científico.  Saibam apenas que a contagem regressiva da dengue já começou. Os especialistas aguardam uma epidemia forte de dengue tipo IV, a dengue neonatal e encefalite por Chikungunya. Aliás, também temos possibilidades de outras doenças chegando. O Zika pode ser o desafio que precisávamos para conseguir estar no patamar de nossos colegas dos EUA e Europa fazendo com que as matérias de saúde sejam baseadas em evidências, assim com deveria acontecer na política, na economia ou com as notícias da cidade.

Fonte: Observatório da Imprensa

Texto: Roxana Tabakman, bióloga e jornalista, autora de “A saúde na mídia. Medicina para jornalistas, jornalismo para médicos”. Ed. Summus.

Perdidos na floresta da informação

Perdidos na floresta da informação

Orçamento do Estado, em Portugal, foi palco de uma batalha informativa e desinformativa.

Se no meu bairro houver um assalto por mês sem que eu saiba, a minha sensação de segurança mantém-se. Mas se souber reiteradamente essa informação sentir-me-ei inseguro. A média de assaltos mantém-se, mas muda a minha circunstância pessoal e a minha relação com a sociedade. A informação adquire um lugar fundamental na vida de cada indivíduo e da sociedade em geral.

Thomas Love Peacock, autor de originais romances de ideias, dialogados, escrevia em 1831 que “o descontentamento dos trabalhadores no nosso tempo é mais uma prova da superior informação que eles detêm do que da deterioração” da sua condição. Proponho a Lei de Peacock: mais informação gera mais descontentamento.

Passados quase 200 anos, num mundo totalmente mediatizado, a afirmação é válida para todos. O descontentamento é generalizado. O cinismo do cidadão perante informações diferentes, ou tratadas de forma diferente, cresce. Desconfia do que vê, ouve, lê. Duvida de políticos, jornalistas, comentadores. A informação tomou o lugar dos factos. Conta mais a informação sobre um facto do que o próprio facto.

Nunca o conceito de Marx sobre estrutura e superestrutura foi tão válido. A estrutura refere-se às relações económicas e à base material; a superestrutura inclui a cultura, a ideologia e instituições sociais como os media e pesa hoje como chumbo sobre a estrutura. Cresceu desmesuradamente. Através da informação e espectáculo, não vemos o que mais conta nas nossas vidas, o que ocorre na estrutura. A hipervalorização da superestrutura leva a que a propaganda ou propagandas sejam muito eficazes: se não vemos os factos senão pela sua mediatização, ficamos dependentes das interpretações e manipulações que deles se fazem. É o lado negativo da proliferação mediática.

Por exemplo, o orçamento do Estado foi palco de uma verdadeira batalha informativa e desinformativa. Do seu “esboço” ao documento final, que não tem já nada a ver com aquele, o tratamento mediático tornou difícil entender, pelos tiros em todas as direcções, os dados estruturais, da realidade, e como comparam com o passado. Mascararam os aumentos de impostos. Valorizaram a “vitória do governo em Bruxelas” (mas qual vitória, se rasgou o “esboço” e fez quase tudo o que “Bruxelas” queria?).

Nas redes sociais, metade diz que o orçamento é um maravilhoso amanhã que canta, metade que é a continuação da austeridade. No final do ano, os bolsos dos cidadãos estarão iguais ou mais vazios, mas entretanto o governo obtém uma vitória superestrutural de que não se pode diminuir a importância — precisamente porque vivem os submersos na superestrutura.

Fonte: Eduardo Cintra Torres, colunista do jornal Correio da Manhã, Lisboa – 07.02.2016 00:30.
http://www.cmjornal.xl.pt/opiniao/colunistas/eduardo_cintra_torres/detalhe/perdidos_na_floresta_da_informacao.html

Bandas de rock fazem crítica da imprensa

Bandas de rock fazem crítica da imprensa

Os jornalistas acreditam que “a atualidade” deve ser divulgada imediatamente. Só que certas “atualidades” que empanturram as folhas são discutíveis. Às vezes não valem dez linhas e acabam enchendo uma página. O tema é antigo e Thomas Jefferson dele fez uma profissão de fé: “É tão difícil traçar uma linha clara de separação entre o ‘abuso’ e o uso ‘sadio’ da imprensa que eu a protegerei em seu direito de mentir e caluniar.” A ideia de que a missão dos jornalistas e da mídia seja tão alta que ninguém possa questioná-la é ilógica. É aí que entra a questão da ética profissional. A grande crise da imprensa não é nem tanto econômica ou ideológica, mas de caráter – e isso vale tanto para os dirigentes das empresas de comunicação como para os jornalistas. Portanto, o jornalismo de qualidade só pode ser atingido com responsabilidade de expressão.

Como doutrina o professor da UFMG Anís José Leão, “para ser jornalista sem ferir os princípios éticos, é preciso ter em mente que seremos julgados não apenas pela lei dos homens, mas pela lei que está escrita no coração”. E, como sentenciou Platão, “a alma refletiva e disciplinada é a alma boa” – a palavra “bom”, no entanto, não tem apenas o sentido ético que hoje se dá a ela, mas é adjetivo correspondente ao substantivo grego aretê e, portanto, quer dizer “toda a classe de virtude ou excelência”. A mencionada categoria ética em tela deve ser o grande ideal dos profissionais de comunicação midiática. Entretanto, a respeito do tema em destaque, convém destacar a existência de um triste paradoxo: as empresas jornalísticas vão muito bem, mas a profissão de jornalista vai mal. Verdade: as empresas se modernizaram, a informatização tornou o jornalismo um exercício de extrema velocidade, o faturamento subiu, mas o “produto final” – a informação – tem merecido cerrada crítica da sociedade.

No seio da queda da credibilidade jornalística, encontra-se a transformação do interesse público em mero apêndice dos anseios exclusivamente mercadológicos. Em inteligente crítica direcionada à inescrupulosa relação entre os conglomerados econômicos e midiáticos, que vêm favorecendo as ideologias hegemônicas e silenciando as vozes alternativas, o roqueiro inglês Billy Bragg ressaltou, em “It Says Here” (1985), que: “It says here that the unions will never learn/It says here that the economy is on the upturn/And it says here, we should be proud that we are free/And our free press reflects our democracy/[…]/If this does not reflect your view, you should understand/That those who own the papers also own this land” (Aqui diz que os sindicatos nunca vão aprender/Diz aqui que a economia está em recuperação/E diz aqui, devemos estar orgulhosos de que somos livres/E nossa imprensa livre reflete nossa democracia/[…] Se isso não reflete sua visão, você deve compreender que aqueles que possuem os jornais também possuem esta terra”). Riqueza e poderio figuram entre os objetivos de todas as sociedades humanas, mas não deveriam ser os objetivos prioritários de uma sociedade democrática: para ela, o essencial habita a liberdade, a igualdade, a justiça, a fraternidade –, que não serão jamais simples subprodutos da expansão econômica.

O sistema imperante e a busca de privilégios

É possível detectar outras razões para a falência da crítica balizada no noticiário corrente. Quando agem de forma severa e destemperada, jornalistas perdem a compostura informativa e opinativa e passam a imprimir juízos de valor precipitados e arrogantes. De defensores da justiça, acabam se tornando justiceiros e, assim, promovem perigosamente o sensacionalismo midiático. Neste sentido, continua sendo oportuno o alerta dado pela banda britânica The Jam, na canção “News of the World” (1977):

“Look at the pictures taken by the cameras they cannot lie/The truth is in what you see, not what you read/Little men tapping things out, points of view/Remember their views are not the gospel truth/Don’t believe it all/Find out for yourself/Check before you spread/News of the world/[…]/Read between the lines and you’ll find the truth” (“Olhe para as fotos tiradas pelas câmeras que não podem mentir/A verdade está no que você vê, não no que você lê/Homens pequenos tocando as coisas, pontos de vista/Lembre-se de que seus pontos de vista não são a verdade do evangelho/Não acredite nisso tudo/Descubra por si mesmo/Confira antes de espalhar/As notícias do mundo/[…]/Leia as entrelinhas e você vai encontrar a verdade”).

Quando a futilidade ocupa, com demasia, o espaço jornalístico, nulidades se tornam prioridades, prejudicando assim o bom andamento da mídia. Cresce a passos largos o jornalismo bisbilhoteiro. Com isso, o jornalismo investigativo vem perdendo força. O vale-tudo pela audiência contribui pesadamente para essa grave distorção de valores. Tais acontecimentos já haviam servido de mote para a fabulosa música “Sunday Papers” (1978), cantada pelo britânico Joe Jackson. Ironicamente, ao listar todas as coisas úteis que se pode aprender ao ler um jornal, o eu-lírico destaca: “If you want to know about the bishop and the actress/If you want to know about the stains on the mattress/If you want to know about the gay politician/If you want to know about the new sex position,/you can read it in the Sunday papers” (“Se você quer saber sobre o bispo e a atriz/Se você quer saber sobre as manchas no colchão/Se você quer saber sobre o político gay/Se você quer saber sobre a nova posição sexual,/você pode ler nos jornais de domingo”).

Sabemos muito bem do papel e da importância do jornalismo na sociedade moderna. Chamada de “quarto poder”, a imprensa precisa ser marcada pela responsabilidade, pela seriedade, pela serenidade, pelo equilíbrio e pelo compromisso com a verdade. Caso contrário, a mídia perde seu sentido esclarecedor e pluralista na orientação da opinião pública para compor cinicamente o mandonismo do sistema imperante e a busca constante de privilégios.

Fonte: Observatório da Imprensa, 02/02/2016, edição 888. Por Marcos Fabrício Lopes da Silva, professor universitário, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários.

As limitações do media training

As limitações do media training

biblioteca1No mercado existe hoje “um formato massificado de media training que não atende as necessidades específicas das organizações. Grande parte dos treinamentos e as publicações sobre o assunto estão voltados para grandes empresas, pessoas públicas de grande influência e ainda que ocupam altos cargos dos governos estaduais e federais”, ressalta a jornalista Mariane Rezende. Embora atualizado pelo dinamismo do mercado de comunicação, os formatos clássicos do media training mostram “significativa lacuna e ausência de, opções de treinamento e dicas para porta-vozes e gestores de empresas pequenas, ou até mesmo de empresas familiares. Com certeza este mercado é bem mais amplo, carente de informações e orientações, mas permanece com demandas não atendidas”.

Estas são algumas das conclusões de Mariane Rezende Soares ao abordar o treinamento de porta-vozes no artigo A IMPORTANCIA DO MEDIA TRAINING NA CONSTRUÇÃO DE UMA RELAÇÃO EFICAZ COM A IMPRENSA.

Leia a íntegra do artigo.

Informar sem alarmar

Informar sem alarmar

Por Observatório da Imprensa

Calma, minha gente! Passeando pelo livro Para que serve a Sociologia? (Ed. Zahar, 20015), de Zygmunt Bauman, deparei com a frase: “…Portanto, sim, tal como outras mercadorias, a sociologia precisa criar ‘clientes’ para o serviço que oferece… Alguns produtos têm mais chances de ver cumprida essa obrigação, enquanto outros têm poucas ou nenhuma…” Este é o caso das notícias médicas. O público-alvo está garantido, por razões óbvias. A obrigação dos médicos, dos noticiosos etc. deve ser com a probidade. É mandatório manter-se honesto e, quando o alarme for disparado, deverá ser ouvido e entendido. O conjunto de comedimento, esclarecimento e cuidado será sempre a melhor política, assim como aguardar os acontecimentos com base, cuidado e discernimento.

Por mais que a medicina avance, ela é uma arte-ciência e, portanto, muita cautela com as “notícias”. Em biologia, é muito mais difícil e complexa a asseveração. Não é à toa que muitos costumam afirmar: “A medicina é a ciência das verdades transitórias.” Eu concordo com esse dito. Qualquer gestação, por melhor e mais recente que seja a tecnologia adotada, é e sempre será uma incógnita. A sequência, da concepção ao nascimento, é um dos grandes mistérios da vida. Lembrem-se que a distância temporal entre heresias, superstições e verdades proclamadas/noticiadas “antes do tempo” pode ser uma fórmula para o fracasso. E mesmo com toda a tecnologia de ponta, pode vir a ser um montão de lixo. Calma, minha gente.

Informar sem alarmar é uma ação muito complexa e, em determinados casos, impossível. Basta que se use a palavra epidemia para gerar como retorno o maior medo humano: o sentimento de doença e morte. E quando se trata de algo que mexa com a perpetuação da espécie… a notícia desanda. E, o que é pior, geralmente distorcida e atemorizante. A medicina não foge à regra, ao utilizar, cada vez mais, a análise de dados para cruzar informação sobre doenças, epidemias e demais acontecimentos a elas relacionados.

Um prévio e bom conhecimento

Refiro-me aqui, em especial, ao surto dos casos de nascimentos de bebês portadores de microcefalia (ver portais UOL, G1, r7, entre outros), atribuído ao vírus da Zika (hipótese ainda não comprovada). Esse vírus foi isolado pela primeira vez em 1947, num macaco rhesus utilizado para pesquisas na floresta de Zika, em Uganda, no continente africano. Duas décadas depois, ele foi diagnosticado em seres humanos na Nigéria. Dali, espalhou-se por diversas regiões da África e da Ásia e alcançou a Oceania. O vírus Zika utiliza o mosquito transmissor do gênero Aedes (Aedes albopictus, africanus, apicoargenteus, furcifer, luteocephalus etc.) como vetor para sua transmissão. Esses mosquitos também transmitem a dengue, a febre chicungunha e a febre amarela. Seres humanos e macacos costumam ser os hospedeiros das doenças.

Insisto em chamar a atenção tanto dos profissionais da saúde quanto dos da mídia. Não importa sua motivação, seja pelo furo jornalístico ou pela busca de brilho profissional, é fundamental – para quem não deseja ferir a ética e, sobretudo, quando divulga notícias para um público não especializado – possuir um prévio e bom conhecimento do que realmente importa ao grupo que pretende alcançar. Lembrar sempre, quando acontece alguma notícia inesperada, que o açodamento pode desviar a atenção da população para longe dos seus verdadeiros problemas.