Caça à bruxa

Caça à bruxa

O papel da imprensa na ópera bufa que cassou o mandato da presidente Dilma Rousseff

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No domingo, primeiro de maio, um ensolarado e melancólico Dia do Trabalhador, o Theatro Municipal de São Paulo exibia sua nova montagem de La Bohème, a ópera proletária de Giacomo Puccini. No intervalo após o segundo ato, duas elegantes senhoras aproximaram-se da janela do balcão nobre, de onde ecoava o som da multidão reunida no Vale do Anhangabaú. “É a CUT”, disse uma delas, ajeitando a echarpe. “Não faço questão nenhuma de ver”.

Grande parte das reportagens e textos de opinião na imprensa começam como este daqui: com uma cena, vista e relatada por um jornalista, que condensa o sentido do que será dito a seguir. É uma fórmula consagrada pelos adeptos do new journalism norte-americano, que nada mais é que a radicalização do bom e velho jornalismo que ousa dizer seu nome e autoria, sem se esconder por trás da “objetividade”.

Nada mais caro aos jornalistas do que:  1. A ideia de que exercem seu ofício com autonomia e liberdade; e 2. A crença de que produzem seus relatos com isenção e imparcialidade.

Em meus mais de vinte anos de profissão, sempre me pareceu curioso que, em eventos públicos ou palestras a estudantes, repórteres e editores da grande imprensa invariavelmente aludissem ao fato de “jamais terem sido censurados” e de trabalharem “com total liberdade” nas redações. Ao passo que, intramuros, nos corredores e cafezinhos desses mesmos veículos, o que eu ouvia era o oposto: uma fila de queixas contra as restrições impostas no dia a dia pelas chefias.

É claro que faz bem para a carreira de qualquer um elogiar a empresa em que se trabalha. Mas, de boa-fé, acredito que essa contradição se deva sobretudo a uma espécie de autoengano – um mecanismo psicológico que permite aos jornalistas manterem certo grau de autoestima que lhes permita continuar sacrificando suas vidas pessoais em nome de frustrantes, longas e mal pagas jornadas de trabalho.

No início dos anos 90, em uma polêmica com a filósofa Marilena Chauí, que criticara o mito da objetividade na imprensa – resultado, segundo ela, de uma concepção positivista de ciência, que oculta o fato de que todo o conhecimento é representação e, como tal, intermediado pelo subjetivo –, Paulo Francis disparou, com sua franqueza habitual, na coluna Diário da Corte: “Se Marilena quer aprender sobre malandragem em imprensa deve se concentrar em dois tópicos, omissão e manipulação de ênfases. Mas duvido que isso sequer conste do currículo das nossas escolas de jornalismo” (O Estado de S. Paulo, 25/07/1993).

Waaal… Batata, Francis. A “malandragem” não está na fricção entre repórteres e editores pela “embocadura da pauta” ou na censura direta, de cima para baixo. Ela ocorre mais sutilmente, no destaque dado pela chefia ao conteúdo publicado e nos efeitos que isso traz ao ânimo interno dos jornalistas. A manipulação se dá no momento em que a chefia decide quantas linhas ou tempo de TV o repórter terá para a sua matéria, se ela estará entre as manchetes de capa ou na escalada do telejornal, se ganhará ou não suítes sucessivas nas edições seguintes.

Omissão e ênfases, pois. Dentro de uma redação, aparecer é fundamental. Um verdadeiro capital simbólico é distribuído pela chefia na forma de espaço, disputado a tapa pelos jornalistas: o prestígio impresso na forma de visibilidade e expresso, mais concretamente depois, na forma de promoções e aumentos de salário. O repórter sabe que tipo de matéria lhe dará mais projeção profissional. Vaidade e ambição condicionam o livre-arbítrio de quem escolhe, apura e escreve as notícias.

É esse acordo tácito entre patrões e empregados que conduz a cobertura para determinada direção, sem que isso tenha de ser claramente explicitado. (Embora mecanismos de controle menos sutis também possam ocorrer. No Estadão, por exemplo, os jornalistas são alertados sobre “temas sensíveis à casa”, como aborto, bioética e religião. E o GAE, Grupo de Avaliação Editorial do jornal, é dirigido por um consultor da Universidade de Navarra, abertamente vinculada à prelazia católica de direita Opus Dei.)

Chegamos, então, ao foco deste artigo: a cobertura dada pela imprensa brasileira ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff – que culminou com a cassação definitiva de seu mandato pelo Senado – foi equilibrada? Parece-me evidentemente que não, em particular no clima criado em torno do recebimento da denúncia pelo deputado Eduardo Cunha e em sua posterior aprovação pela Câmara dos Deputados. A ponto de ser difícil discordar da acusação lançada pela presidente, em seu pronunciamento após o impeachment na quarta-feira (31/08), segundo a qual a ação de uma “imprensa facciosa” foi determinante no resultado do processo. Não deixa de ser sintomático que, na origem da grave crise que acometeu o país, esteja um escândalo de corrupção na Petrobrás – alvo de denúncia semelhante feita duas décadas atrás, durante o governo tucano, pelo próprio Paulo Francis, e que lhe custou um processo judicial de US$ 100 milhões movido nos EUA pelo então presidente da companhia, Joel Rennó (além de uma depressão que acompanharia o jornalista até o ataque cardíaco que o matou, em 4 de fevereiro de 1997).

Cabe perguntar: a Petrobras de hoje, cuja propina de fornecedores financiou campanhas eleitorais do PP, do PMDB e do PT, conforme revelado pela Operação Lava Jato, é mais corrupta que a de vinte anos atrás, sob a administração do PSDB? Não se sabe, porque a imprensa não se preocupou em responder. Mesmo depois de uma voz relevante do mundo empresarial ter afirmado categoricamente que não: a de Ricardo Semler, no artigo “Nunca se roubou tão pouco” (Folha de S. Paulo, 21/11/2014), que terminava com um inútil chamamento à razão:

“Deixemos de cinismo. O antídoto contra esse veneno sistêmico é homeopático. Deixemos instalar o processo de cura, que é do país, e não de um partido”

Parafraseando Semler, o antídoto aplicado ao veneno sistêmico da corrupção brasileira dia 12 de maio de 2016, quando o Senado Federal apeou do Palácio do Planalto uma presidente eleita por 54.501.118 votos, esteve mais para quimioterapia extrema. Daquelas que podem matar o paciente – a nossa jovem e frágil democracia – sem eliminar a doença.

Ninguém criticaria uma imprensa implacável na fiscalização do poder, que insistisse em alopatias violentas contra todas as mazelas brasileiras. O problema é que tal posologia é claramente seletiva. Em 1999, em meio ao escândalo das privatizações, o presidente Fernando Henrique Cardoso aprovou a emenda constitucional da reeleição em benefício próprio, na vigência do mandato – uma manobra “bolivariana” em si, com o agravante da compra de votos parlamentares, objeto de uma denúncia do repórter Fernando Rodrigues na Folha (“Deputado conta que votou pela reeleição por R$ 200 mil”, 13/05/1997) que nunca foi devidamente investigada.

Reeleito, quando as primeiras vozes ensaiaram um “Fora-FHC” a reação geral da imprensa foi de ponderação. O tom – ou a ênfase, diria Paulo Francis – eram outros: “Não se brinca com a democracia tão duramente conquistada”, “apesar de tudo, voto dado é soberano”, etc. Também foi relevada a acusação de “estelionato eleitoral” por aquele governo ter segurado a cotação do real para desvalorizá-lo somente após a abertura das urnas, enquanto Dilma foi duramente criticada em 2014 por supostamente ocultar do eleitor a gravidade da situação econômica.

Para quem viveu esses dois períodos dentro de uma redação da grande imprensa, não há autoengano que escamoteie a diferença. O tratamento foi claramente desigual. Na cobertura dos mandatos tucanos, manchetes pontuais com suítes esparsas e sem a personalização da crise na figura do presidente Fernando Henrique (na edição da Veja do dia 21/05/1997, semana em que se revelou o escândalo da compra de votos, quem aparecia na capa era o ministro Sergio Motta). O clima preponderante no noticiário era de torcida pelos esforços do governo na recuperação da economia, àquela altura tendo que recorrer ao FMI.

Em relação ao escândalo petista, o que se viu foi um massacre midiático sem precedentes, com manchetes diárias, capas de revista sucessivas e tempo frequentemente estendido nos telejornais. A “caça à bruxa” ficou evidente na personalização da crise, desde o início, na figura de Dilma: antes mesmo das eleições, quando as apurações da Lava Jato sequer haviam avançado, a imagem da presidente foi estampada como “sabedora” da roubalheira geral. E quando enfim se percebeu que o escândalo não bateria às portas do gabinete presidencial, abraçou-se sem mais problematizações a tese de crime de responsabilidade por conta das “pedaladas fiscais”.

A articulação da crise do país com a conjuntura internacional também foi minimizada, em nome de se sublinhar a “gestão desastrosa” e a “excessiva intervenção governamental” de Dilma na economia. Foi preciso um intelectual e um veículo estrangeiros, o historiador britânico Perry Anderson na London Review of Books (“A crise no Brasil”, 21/04/2016), para que houvesse ampla difusão de dados essenciais ao entendimento da crise. Por exemplo, que desde 2011 o preço das três principais mercadorias que o Brasil comercializa despencou no mundo, pressionando brutalmente as contas brasileiras e, em particular, da Petrobrás: a tonelada de minério de ferro foi de US$ 180 para US$ 55, a saca de soja caiu de US$ 40 para US$ 18 e o barril de petróleo cru, de US$ 140 para US$ 50. Não é por falta de leitura que um brasileiro médio imagina hoje que a recessão bateu à porta só porque o governo gastou demais e que a principal companhia brasileira quebrou por causa da corrupção que lhe saqueou os cofres. Esse brasileiro não terá lido nada diferente disso na maior parte das análises publicadas nos jornais.

Anderson também critica os vazamentos ilegais e seletivos de informação por parte dos investigadores da Lava Jato para a imprensa – tratados aqui como pecadilhos perdoáveis diante da nobre tarefa do combate à corrupção. Em um artigo de 2004, o juiz Sérgio Moro já confessava sua admiração pelos métodos midiáticos da Operação Mãos Limpas, na Itália:

“Os responsáveis pela Mani Pulite fizeram largo uso da imprensa (…) os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva”.

É de se perguntar o quanto uma tática dessas, em um ambiente de cobertura desequilibrada como o nosso, não afetou o discernimento de juízes e procuradores em busca de holofotes para suas investigações – resultando nas mesmas omissões e ênfases que vemos nas redações e, muito pior, em injustiça.

Com tudo isso, não houve qualquer prevenção em relação aos vazamentos de Moro e equipe. E, em dois episódios ao menos, o juiz claramente extrapolou: na condução coercitiva do ex-presidente Lula e na divulgação ilegal de grampos da presidente da República sequer feitos com autorização judicial (no último, concedeu “escusas” ao STF e isso foi considerado suficiente). Comparação interessante pode ser feita com o desfecho de outra operação da PF, a Satiagraha, desencadeada em 2004 e envolvendo, não por acaso, um banqueiro ligado às privatizações tucanas. Naquela ocasião, o uso de grampos não autorizados foi o bastante para que a imprensa falasse em “Estado policial” e “atentado ao Estado de Direito”. Pressão que deu resultado: o juiz Fausto De Sanctis teve sua sentença anulada, o diretor da PF, Paulo Lacerda, foi exonerado e o delegado encarregado do caso, Protógenes Queiroz, foi condenado pela Justiça.

Seria simplista dizer que a imprensa é culpada pela queda de Dilma Rousseff, mas ela trabalhou fortemente para criar o clima necessário às forças políticas que desejavam o seu impedimento. Nunca é demais reafirmar a importância de um jornalismo investigativo forte e de credibilidade em um país como o Brasil. A cobertura do impeachment, no entanto, não reforçou esses valores. A exaltação das manifestações verde- amarelas contra a corrupção, transmitidas ao vivo, em contraste com os burocráticos registros dos atos pró-governo, durante os quais se ressaltava sempre a “presença de militantes pagos”, contribuem para um processo que apenas desmoraliza a própria imprensa. Em especial, a dramatização dos grampos telefônicos de Lula e Dilma feita por William Bonner e Renata Vasconcellos no Jornal Nacional de 16 de março de 2016 constitui para a historiografia do jornalismo brasileiro material equivalente à famigerada edição do debate entre Collor e Lula nas eleições de 1989.

Tamanho desequilíbrio logo se fez notar na cobertura mais distanciada da imprensa internacional. Críticas ao processo que retiraria do poder uma presidente honesta para entregá-lo ao vice Michel Temer, “impopular e traidor”, nas palavras do New York Times, além de citado quatro vezes nas delações da Lava Jato, começaram a se fazer ouvir. No dia 20 de abril, a ONG Repórteres Sem Fronteiras rebaixou o Brasil cinco posições em seu ranking mundial de liberdade de expressão – para o 104º lugar em um conjunto de 180 países –, citando entre os motivos o fato de que, “de maneira pouco velada, os principais meios de comunicação incitaram o público a ajudar na derrubada da presidente Dilma”. Mas foi o jornalista americano Glenn Greenwald, cujo trabalho rendeu ao The Guardian um prêmio Pulitzer, quem de maneira mais contundente expressou essa percepção, em entrevista ao programa Democracy Now: “Eu não poderia enfatizar suficientemente o papel central da mídia oligárquica brasileira em insuflar e inflamar tudo isso, em não permitir que a pluralidade de opiniões fosse ouvida, num desfile incessante de propaganda pró-oposição”.

Consumado o afastamento de Dilma Rousseff, um editorial do NYT (“Piorando a crise política brasileira”, 16/05/2016) concluiu que a presidente paga um preço “desproporcionalmente alto por irregularidades administrativas, enquanto vários de seus detratores mais ardentes são acusados de crimes bem mais graves”. Uma realidade que a imprensa brasileira fez questão de não ver. Como as duas senhoras incomodadas com o 1º de maio no intervalo de La Bohème no Theatro Municipal. Em seu exílio do poder, Dilma declarou recentemente que pretende andar de bicicleta e ir a óperas. Quem sabe as três não se encontram para uma conversa civilizada?

Autor: Ivan Marsiglia – escritor e jornalista, é autor de A Poeira dos Outros (Arquipélago Editorial). Bacharel em ciências sociais pela USP, foi editor-assistente do caderno “Aliás”, no Estadão, e ganhador do 12º Prêmio Estado de Jornalismo. Também trabalhou como redator-chefe da revista Trip, repórter e editor da Playboy e assessor da Secretaria de Imprensa e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República de 2004 a 2008. Este artigo foi originalmente publicado na Revista de Jornalismo ESPM, versão brasileira da Columbia Journalism Review.

Fonte: Fluxo

Ativistas da comunicação preparam ato contra mídia

Ativistas da comunicação preparam ato contra mídia

Fórum avalia que movimento pró-impeachment desnudou o quanto é danoso monopólio da comunicação nas mãos de grandes grupos econômicos

Renata Mielli defendeu que é preciso união dos movimentos sociais para avançar na democratização da comunicação
Renata Mielli defendeu que é preciso união dos movimentos sociais para avançar na democratização da comunicação

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) prepara um ato para denunciar a participação da imprensa na articulação do impeachment contra a presidenta da República, Dilma Rousseff, no próximo 5 de maio, em várias cidades do Brasil. Com o tema “monopólio é golpe”, a mobilização será realizada em parceria com a Frente Brasil Popular. O Fórum avalia que há um movimento de unidade entre os grupos de telecomunicações e radiodifusão para fortalecer o grupo oposicionista, liderado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB-SP).

“Temos que continuar junto aos demais movimentos sociais que estão nas ruas defendendo nossa democracia, sempre buscando a unidade. Nossos inimigos estão lá fora, articulando e executando o golpe. São os radiodifusores, o capital privado que atua nas comunicações e o monopólio”, afirmou a nova coordenadora executiva do FNDC, Renata Mielli, eleita em plenária realizada no último final de semana.

O fórum também elaborou um plano de ação para intensificar a luta pela democratização da comunicação no país, considerada inadiável na atual conjuntura política. “Todo este processo político desnudou o quão danoso é o monopólio da comunicação para uma sociedade. A disputa de narrativas na sociedade se coloca como elemento central para enfrentar a onda reacionária e conservadora que tem uma dimensão política – a de derrotar políticas públicas de caráter progressistas –, mas que tem uma dimensão cultural perigosa, ao impor uma agenda de ódio e discriminatória contra mulheres, negros, índios, LGBT’s, dentre outros”, diz o documento.

O documento propõe ainda que os integrantes do FNDC aproveitem as eleições municipais para elaborar propostas de políticas públicas locais de comunicação, compondo uma plataforma a ser apresentada para candidatos aos Executivos e Legislativos. Além disso, pretendem ampliar a coleta de assinaturas do Projeto de Lei da Mídia Democrática, intensificar a luta pela criação dos conselhos de comunicação, discutir critérios para distribuição da verba de publicidade dos municípios, a ampliação de espaços para a comunicação comunitária e de políticas de acesso livre à internet.

Segundo o documento do FNDC, “o cenário de crise política e econômica que vivemos – no Brasil e em outros países – nos coloca num quadro de resistência. É o momento de ampliar a unidade do movimento social em torno da defesa da democracia, da denúncia do golpe em curso no país, contra as medidas neoliberais e de regressão de direitos”. Para o grupo, a luta pela democratização dos meios de comunicação, por mais pluralidade e diversidade na mídia brasileira, “é estratégica e imprescindível para o enfrentamento de uma crise que tem na mídia hegemônica seu elemento propulsor”.

Fonte: Rede Brasil Atual

Indignação das ruas contra corrupção tem que continuar, diz Transparência

Indignação das ruas contra corrupção tem que continuar, diz Transparência
Para ONG, há risco de desmobilização após fim do processo de impeachment
Para ONG, há risco de desmobilização após fim do processo de impeachment

Independente do resultado do processo de impeachment contra Rousseff, a população brasileira precisa manter “sua indignação” para que o combate à corrupção avance e evitar retrocessos no Brasil.

Essa é a avaliação da ONG Transparência Internacional, com sede em Berlim, especializada no combate à corrupção, que vê risco de desmobilização após um eventual afastamento da presidente.

“Se a indignação contra a corrupção levou a população às ruas, essa indignação tem que continuar. Agora é o momento de provar as coerências dessas motivações. É o momento de buscar mudanças reais no quadro político do país, mas também no nosso marco legal e nos nossos sistemas político e judiciário”, afirma Bruno Brandão, representante da organização para o Brasil.

A ONG vê com ressalvas a possibilidade de um governo comandado pelo PMDB, partido que acredita não ter histórico de combate à corrupção e que está envolvido no esquema de propinas e desvios desvendado pela Operação Lava Jato.

Para Brandão, seja qual for o veredito final dos senadores sobre o processo de impeachment, o importante é garantir a continuidade do combate à corrupção e que a Lava Jato não perca terreno.

“Vimos isso acontecer na Itália, com a Operação Mãos Limpas. A população acompanhou com muito afinco o processo de investigação e julgamentos no início, mas ela foi paulatinamente perdendo o interesse, o que enfraqueceu a operação e seu peso político”, diz.

A Mãos Limpas, vista como uma inspiração para a Lava Jato, desmantelou esquemas que envolviam o pagamento de propina por empresas para garantir contratos públicos e o desvio de recursos para financiar campanhas políticas na Itália da década de 1990.

Na época, foram investigados seis ex-primeiros-ministros e quase 500 parlamentares. Apesar de ter provocado grandes mudanças, a operação não conseguiu acabar com a corrupção no país.

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Representante da Transparência critica ausência de abordagem legal em votos na Câmara

 

“Essa fadiga pode também acontecer com a Lava Jato, embora seja mais difícil, tendo figuras como Renan Calheiros e Eduardo Cunha mantendo o assento na presidência do Poder Legislativo”, diz Brandão, em referência aos presidentes do Senado e da Câmara, respectivamente, ambos do PMDB e acusados por delatores da Lava Jato.

Para a ONG, a população precisa protestar contra o que vê como tentativas do Congresso Nacional de enfraquecer o combate à corrupção.

Seu representante cita uma série de projetos de lei em discussão, como os de número 233/2015 (que regulamenta procedimentos para abertura e encerramento de inquéritos civis públicos nos Ministérios Públicos Estaduais) e 2073/2015 (que proíbe o Ministério Público de realizar inquéritos policiais).

“A saída é manter a sociedade informada, engajada e vigilante, pois os que querem reagir contra a Lava Jato já estão se movendo para se preservarem e preservarem o status quo”, diz.

Na avaliação do especialista, o país precisa da criação de um sistema nacional anticorrupção, que seria responsável por coordenar os órgãos envolvidos na investigação e punição desse tipo de crime. Ele defende também a realização de uma ampla reforma política.

O Judiciário, diz ele, também precisa de aprimoramentos que tragam maior transparência, agilidade e eficiência na punição de envolvidos em esquemas de corrupção.

Votação do impeachment

Para a ONG, as acusações que pesam sobre parlamentares na Justiça e a falta de embasamento jurídico na argumentação dos deputados durante a votação que autorizou o início do processo de impeachment enfraquecem a legitimidade do Congresso para julgar a questão.

“O julgamento com base em aspectos legais não foi a condição predominante nos debates. Isso demonstra a falta de preocupação desses legisladores em apurar realmente contravenções à lei e a quebra do marco legal”, afirma Brandão.

De acordo com dados da ONG Transparência Brasil, mais de 50% dos parlamentares, em ambas as Casas, respondem a processos na Justiça.

Fonte: BBC 

O papel da comunicação pública na crise política brasileira

O papel da comunicação pública na crise política brasileira

Para funcionar como contraponto à cobertura da mídia comercial, EBC tem levantado a bandeira anti-impeachment e aberto mão do equilíbrio jornalístico

EBC: também falta diversidade no jornalismo da empresa pública de comunicação
EBC: também falta diversidade no jornalismo da empresa pública de comunicação

Nas últimas semanas, a repercussão da linha editorial da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), assumida desde o início da crise política e aprofundada na última semana, tem gerado satisfação por parte da direção da empresa, da direito executiva ao Palácio do Planalto. A EBC tem sido citada como refúgio para os que são contra o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff e buscam alguma diversidade na cobertura televisiva.

Os recorrentes programas com apoiadores do governo como entrevistados vêm sendo compartilhados pelos partidários da bandeira “contra o golpe”. A EBC está sendo vista como o “contraponto” à Globo neste processo de noticiamento espetacularizado – que eu não ouso chamar jornalismo.

É fato que a emissora acertou ao buscar aprofundar a análise sobre os fatos, por meio de discussão, em estúdio, sobre as falas dos parlamentares, os protestos nas ruas, a crise e suas diversas repercussões. No entanto, a TV ainda está distante de garantir equilíbrio e diversidade de opiniões e informações, elementos fundamentais da comunicação pública.

Um exemplo ocorreu no último domingo (17), durante a fala do relator do processo de impeachment, na abertura dos trabalhos na Câmara dos Deputados. A TV Brasil cortou as transmissões para os comentaristas que defendem abertamente os argumentos do governo falarem. Até as cores escolhidas por comentaristas e apresentadores para vestir no domingo foram consideradas. Na bancada, o jornalista Paulo Moreira Leite, em sua defesa do governo, abriu pouco espaço para o diálogo, mesmo que crítico, com outras posições.

No dia 31 de março, dia nacional de protestos contra o impeachment, a EBC fez plantão ao vivo do seu jornal, que durou aproximadamente o dobro do tempo do plantão feito no dia dos protestos favoráveis ao afastamento de Dilma. As manifestações retratadas, na imensa maioria das vezes, foram acompanhadas de juízo de valor positivo. Por outro lado, quando mostrava o lado pró-impeachment, a emissora limitou-se a exibir imagens. As capas da Agência Brasil também têm sido recorrentemente mais favoráveis ao governo.

Ligados direta ou indiretamente ao governo ou à defesa dele, os principais comentaristas e entrevistados da TV Brasil seguem a mesma linha. Quando o lado contrário é ouvido – como ocorreu quando o jurista Hélio Bicudo participou do programa Espaço Público – o apresentador assumiu uma postura de defensor do governo, perdendo a condição original de entrevistador e assumindo uma posição de opositor do convidado.

Comunicação do Palácio do Planalto

Os exemplos, infelizmente, não se resumem a esses. O desequilíbrio na cobertura dos veículos da EBC ocorre neste momento e seguirá ocorrendo se o papel da comunicação pública e de sua autonomia frente ao governo não for resgatado. O grande perigo que a EBC corre é cair no conto do público carente. É inegável que a mídia comercial brasileira tem lado, descaradamente. É inegável que esta mesma mídia está atrelada ao que há de mais conservador na política nacional e que os grupos privados não apenas reportam mas orquestram o que se configura como um golpe na nossa recente democracia.

Também é inegável que o país está órfão de uma comunicação minimante equilibrada. Temos uma carência de jornalismo diverso e equilibrado. Mas este não pode ser confundido com um jornalismo partidário, cuja tarefa já vem sendo cumprida por um conjunto de veículos que não só podem como devem assumir seus lados. Esse não é, no entanto, o papel da comunicação pública.

A comunicação pública não pode se contentar em ganhar audiência baseada no partidarismo ou no jornalismo tendencioso e unilateral, tentando ser o outro lado da mídia privada e conquistar um público carente a partir de uma visão unilateral. O desafio é conquistar sim o público com várias visões, pretensiosamente com todas as visões. A cartilha unilateral da mídia privada não merece ser sequer contraposta, porque, simplesmente, não é jornalismo, não tem como foco a cidadania, a democracia e outros valores tão caros à construção de um Estado Democrático de Direito.

A segmentação pelo político-partidarismo de visão unilateral tem vida curta, muito curta. A mão que afaga hoje poderá ser a mão que apedrejará amanhã, porque dificilmente o Brasil prescindirá de uma alternância de poder. Pior, estamos, nesse processo, mais uma vez ameaçados pela ascensão de um governo não eleito, autoritário.

O perigo de deixar a comunicação pública ao sabor do governo nunca foi tão grave. Logo, se a opção do atual governo, mais precisamente do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, e dos seus indicados para direção da EBC for por uma comunicação ditada pelo Palácio do Planalto, não fará sentido a existência e a manutenção de uma empresa pública de comunicação. Os veículos governamentais – felizmente – existem para cumprir essa função.

Se, ao contrário de se contentar com a audiência carente, que vê refletir na crise política do Brasil a crise do jornalismo nacional, a comunicação pública aprofundar os princípios básicos do jornalismo – como é a sua missão –, obterá não apenas um resultado melhor, mas mais duradouro. A audiência na comunicação pública é, logicamente, desejável. Não há razão de existir sem ela. Mas o diferencial da comunicação que se pretende pública é sobreviver ao seguinte dilema: não viver sem audiência, sem que tenha que viver para ela.

A comunicação pública precisa buscar a sua essência e encontrará toda audiência que busca conteúdo qualitativo, seja no jornalismo, seja na programação de uma forma geral. Ao contrário do que a direção da EBC defende em seu plano de trabalho – no melhor modelo endomarketing de empresas que elaboram planejamentos estratégicos homogêneos –, que é buscar ser “referência”, é preciso voltar à essência.

A EBC deve buscar, como todo veículo de comunicação, ser crível. Referência é uma palavra extremamente vaga. Ser referência de quê, para quem? Ser referência não pode ser o projeto em si. Ser referência prescinde um projeto, e o projeto a ser perseguido pela comunicação pública é baseado na credibilidade, e não na referência. Só a credibilidade fará a comunicação pública conquistar uma audiência duradoura e fiel.

Por fim, credibilidade não se constrói correndo atrás de cliques e compartilhamentos nas redes sociais. A credibilidade se constrói com honestidade, transparência, diversidade, pluralidade, equilíbrio, inovação, foco em cidadãs e cidadãos, trazendo para o conteúdo e para as suas práticas o que é essencial para a construção da própria democracia. Pois a comunicação é parte fundamental da democracia. Ela reflete e é refletida neste contexto.

Portanto, a receita para que a comunicação seja pública é a mesma usada para que um Estado seja democrático: aprofundamento da participação social e dos princípios democráticos em todas as esferas

Fonte: Carta Capital

Na semana do impeachment, 3 das 5 notícias mais compartilhadas no Facebook eram falsas

Na semana do impeachment, 3 das 5 notícias mais compartilhadas no Facebook eram falsas

A “guerra da desinformação” nas redes sociais fez mais de 200 mil vítimas na semana que antecedeu o domingo de votação do impeachment, na Câmara dos Deputados

Mandado de prisão contra Lula foi um dos boatos
Mandado de prisão contra Lula foi um dos boatos – EPA

 

Levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP, ao qual a BBC Brasil teve acesso, revela que três das cinco reportagens mais compartilhadas por brasileiros no Facebook entre terça-feira e sábado são falsas.

Apesar de ocuparem o topo do ranking de acessos, as matérias são desmentidas em notas oficiais ou reportagens publicadas pela imprensa (veja mais abaixo).

Criado pelos professores da USP Marcio Moretto Ribeiro e Pablo Ortellado, o grupo investigou o desempenho de 8.290 reportagens, publicadas por 117 jornais, revistas, sites e blogs noticiosos neste período.

Estatísticas

Os boatos presentes no “top 5” de compartilhamentos na rede social mais popular do país são os seguintes:

“Polícia Federal quer saber os motivos para Dilma doar R$30 bilhões a Friboi”, do site Pensa Brasil (3º lugar no ranking geral da semana, com 90.150 compartilhamentos)

“Presidente do PDT ordena que militância pró-Dilma vá armada no domingo: ‘Atirar para matar'”, do site Diário do Brasil (4º lugar, com 65.737 compartilhamentos).

“Lula deixa Brasília às pressas ao saber de nova fase da Lava-Jato. Seria um mandado de prisão?”, do site Diário do Brasil (5º lugar, com 58.601 compartilhamentos).

Boato sobre perdão de dívida de frigorífico por Dilma foi um dos mais compartilhados - Ag. Brasil
Boato sobre perdão de dívida de frigorífico por Dilma foi um dos mais compartilhados – Agência Brasil

Procurado pela reportagem, o Diário do Brasildisse que a reportagem sobre o suposto presidente do PDT “não era exclusiva” e insiste que a notícia é real – ainda que o homem retratado na reportagem não seja presidente regional da legenda, que desmentiu o boato.

Sobre o suposto mandado de prisão contra Lula, o site diz que a reportagem original foi publicada em 10 de março, às vésperas da Operação Xepa – que não trouxe qualquer mandado contra o ex-presidente.

A reportagem fez novos questionamentos e perguntou por que a matéria foi republicada no dia 14, mas não teve resposta. O Pensa Brasil não respondeu aos questionamentos da BBC Brasil.

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Os relatórios também mostram que os “virais falsos” atingem tanto a oposição quanto apoiadores do governo – na última semana, entretanto, os boatos contrários à presidente tiveram maior repercussão.

As estatísticas são divulgadas na página “ Monitor do debate político no meio digital“, recém-criada no Facebook.

O principal desmentido aos boatos campeões de audiência da semana vem do PDT, em nota oficial assinada por seu presidente no Distrito Federal, Georges Michel Sobrinho.

Repetida mais de 60 mil vezes, a reportagem falsa diz que um homem chamado José Silvio dos Santos seria o presidente do partido no DF e teria convocado militantes para atirarem em parlamentares neste domingo.

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Santos, segundo o líder do partido, nunca exerceu cargos na legenda.

“O PDT torna público que este cidadão, por não ter nenhuma autorização para se manifestar em nome da instituição, foi expulso do quadro de filiados do partido”, diz a nota.

Já a reportagem sobre a “doação de R$ 30 bilhões” pelo governo à Friboi foi desmentida, em entrevista à BBC Brasil, pelo próprio presidente da JBS, que controla o frigorífico – e não foi consultado pela publicação.

Notícias sobre a suposta doação circulam nas redes desde pelo menos 2014, com textos às vezes idênticos. A mais recente – reforçada por mais de 90 mil internautas – afirma que Dilma Rousseff teria “concedido anistia à divida de R$ 30 bilhões da Friboi com o BNDES”.

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“A JBS (…) deve R$ 40 e poucos milhões, que vieram de aquisições que fizemos da Tyson e da Seara”, disse o presidente Wesley Batista à repórter Ruth Costas, em 2015.

Questionado sobre a verba recebida pelo BNDESPar, braço de participações acionárias do banco público, Batista respondeu: “O total de aportes na JBS foi da ordem de R$ 5 bilhões. Eles compraram isso em ações que hoje, felizmente, valem muito mais”.

“A JBS vendeu participação acionária para o BNDESPar, que participa em 200 ou mais empresas”, disse ainda o presidente da controladora da Friboi.

A quinta história mais compartilhada no Facebook sugere que Lula teria deixado Brasília ao saber de nova fase da Lava Jato, sob “risco iminente de um mandado de prisão”.

Boatos falaram em falsa ação armada contra manifestações - Agência Brasil
Boatos falaram em falsa ação armada contra manifestações – Agência Brasil

Mas nenhuma etapa da Lava Jato foi deflagrada desde a publicação, no último dia 13. A última aconteceu no dia 12, com a prisão preventiva do ex-senador Gim Argello (PTB-DF), sem menções ao ex-presidente.

Também não houve mandado de prisão contra Lula.

A ferramenta digital criada pelos pesquisadores mapeia, de hora em hora, todas as reportagens publicadas pelos 117 veículos de comunicação selecionados e verifica seus compartilhamentos a partir de um sistema oferecido pelo próprio Facebook.

Além do levantamento digital, os pesquisadores fizeram pesquisas de opinião em protestos realizados tanto por grupos ligados à direita, quanto à esquerda, na avenida Paulista, em São Paulo.

“Cada lado dessa disputa construiu narrativas mais ou menos simplistas para defender suas posições. Tanto os boatos como as matérias produzidas foram muito compartilhados quando se adequaram a essas narrativas”, explica Marcio Moretto.

“Uma das narrativas de ambos os grupos foi de que o outro era formado pelos verdadeiros corruptos.”

O professor diz que as pesquisas também mostraram que ambos os lados da disputa do impeachment “eram propensos a acreditar em boatos que confirmavam suas narrativas pré-estabelecidas”.

Para pesquisadores, "imaturidade" brasileira nas redes explica popularidade dos boatos - Thinks tock
Para pesquisadores, “imaturidade” brasileira nas redes explica popularidade dos boatos – Thinkstock

Ele dá exemplos de mitos citados pelos dois lados nas ruas: “‘Lulinha é sócio da Friboi’, de um lado, e ‘Sergio Moro é filiado ao PSDB’, de outro”.

Para o pesquisador, a popularidade dos boatos tem a ver com a maturidade dos usuários de redes sociais.

“Parte considerável das brasileiras e dos brasileiros entrou na era digital muito recentemente com a popularização dos smartphones. É de se esperar que com o tempo, conforme as pessoas se acostumem com as plataformas e conforme o debate em torno delas amadureça, elas se relacionem com essas ferramentas de maneira mais crítica e menos ingênua”, diz Moretto.

O estudo realizado nos dias anteriores ao impeachment verificou 6,1 milhões de compartilhamentos na rede social. Por questões técnicas, o levantamento não incluiu as reportagens publicadas na segunda-feira – e se resumiu a publicações entre terça-feira e sábado.

Fonte: BBC

Data Popular: classes C e D veem impeachment como “briga da elite”

Data Popular: classes C e D veem impeachment como “briga da elite”

As classes C e D enxergam a discussão sobre o impeachment da presidenta Dilma Rousseff como uma disputa de poder, uma briga da elite, avalia o presidente do Instituto Data Popular, Renato Meirelles.

“As classes C e D são muito menos presentes nas passeatas do que são na população brasileira”, ressalta o especialista sobre a renda e a escolaridade dos que participam dos protestos contra e pró impeachment. “Isso acontece porque ela [essa camada da população] acha que essa é uma briga da elite. Ela não vê as pautas que realmente interessam presentes nessa manifestação”, disse Meirelles em entrevista à Agência Brasil.

Essa parte da sociedade está mais interessada, de acordo com Meirelles, em temas concretos, como a melhoria do acesso à universidade ou da qualidade do sistema público de saúde. “Se algum dos dois lados quiser de fato ganhar a classe C, que hoje corresponde a 54% do eleitorado brasileiro, vai ter que quebrar um pouco a cabeça para mostrar que o que está em discussão vai além do debate da corrupção”, destacou.

Levantamento do Instituto Data Popular, feito no início do ano, indicou que 71% dos brasileiros acreditam que os opositores à presidenta Dilma agem por interesses próprios. Além disso, 92% concordam com a afirmação “Todo político é ladrão”.

As acusações de que um eventual impeachment da presidenta Dilma se trata de um golpe não têm, na análise do presidente do Data Popular, impacto significativo sobre essa parcela da sociedade.

“A narrativa sobre um eventual golpe é para uma parcela mais intelectualizada da população brasileira, para uma elite jurídica. Quando nós vamos ver na classe C e D que, em geral, é muito mais jovem do que a média da população. Eles não sabem o que foi o golpe militar e o impacto que isso teve no Brasil. Eles não entendem a discussão do golpe”, afirmou.

“O discurso sobre o golpe é muito eficiente para uma determinada parcela dos ditos formadores de opinião, mas diz pouca coisa para as classes C e D, que são a grande maioria dos eleitores brasileiros”, destacou Meirelles.

Presença de Lula

Na avaliação de Meirelles, a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode fortalecer o governo. “A presença do presidente Lula no governo Dilma ajuda a relembrar para a maior parte da população qual é o projeto deste governo”, disse.

O ex-presidente foi nomeado como ministro-chefe da Casa Civil, porém a indicação foi contestada e o Supremo Tribunal Federal vai julgar se ele pode assumir o cargo.

De acordo com o especialista, a presença dele no governo fortalece a articulação política. “Como a presidente Dilma tem uma popularidade baixa e não pode ser candidata à reeleição, ela tinha pouco a oferecer como perspectiva de poder para a base aliada. Hoje, caso o presidente Lula consiga assumir o ministério, ele consegue, de alguma forma, oferecer uma perspectiva de poder aos aliados”, analisou.

Pesquisa divulgada no último sábado pelo Instituto Data Folha aponta Lula como um dos favoritos na corrida para as eleições presidenciais de 2018, disputando a liderança com a ex-senadora Marina Silva (Rede).

Para Meirelles, a ausência de Lula do debate político nos últimos anos fez com que o ex-presidente perdesse força. “Acontece que o presidente Lula passou cinco anos sem aparecer, sem falar e sem se posicionar como um projeto de país que criou oportunidades para a população de menor renda do país. É como se o presidente Lula fosse uma poupança da defesa da imagem de um projeto de país que, em cinco anos, só sacou o dinheiro e não fez nenhum depósito”, comparou. “Isso fez com que boa parte da população se sentisse órfã de uma liderança que a defendesse”, acrescentou.

Na avaliação do especialista, os resultados dos dois mandatos à frente da Presidência ainda concedem um capital político considerável a Lula. “Nesse momento de total descrédito sobre quem pode tirar o Brasil da crise, ele é um dos poucos brasileiros capaz de dizer que enfrentou e venceu uma crise econômica como a gente vive hoje.”

Fonte: Agencia Brasil

Golpes e desejos

Golpes e desejos

Seria tentador demais começar este texto cometendo a milionésima paráfrase daquela famosa abertura do Manifesto Comunista, com o espectro rondando a Europa. Mas isso passaria a impressão errada: no texto de Marx (e daquele outro alemão), tratava-se de uma força virtual que se atualizava, apontando como potência para um futuro. Ao contrário, se também tem um fantasma que passeia sorrateiro Brasil afora, é o fantasma de um cadáver insepulto, uma morte que não se consumou, um trauma que ficou por superar. É claro que estou falando da ditadura e do golpe que a iniciou.

Até aí, nenhuma novidade. Acontece que quem diz fantasma, de um jeito ou de outro diz fantasiar. E quem fala em fantasiar, inevitavelmente, fala de desejo. Eu poderia agora escolher uma fórmula chocante e afirmar que, sabendo ou não, existe no Brasil um desejo difuso de golpes e ditaduras. Seria verdade, até. Mas não é bem assim que o fantasma age; em vez disso, ele opera sobre o desejo porque se imiscui nele, se introduz onde não foi chamado e sem ser percebido. Assim, quando um desejo vai tomar forma, constituir um objeto, traduzir-se como expressão, enfim, quando vai agenciar-se, a presença sorrateira do fantasma o modula um pouco, lhe confere um outro alcance, uma outra coloração.

Sem levar em conta esse modo de agir do nosso fantasma, corremos o risco de ficar andando em círculos ao tentar dar sentido ao que acontece hoje no país. Passamos completamente ao largo do problema se nos contentamos em perguntar se o que se prepara nas sombras do poder é um golpe ou não. Essa pergunta pressupõe uma consciência muito clara dos atores sobre o que estão fazendo e aonde querem chegar. Hoje, não é esse o caso, porque o que cada ator quer (derrubar o governo, manter o governo, chegar ao governo, aniquilar um partido…) e como ele age (protestos, conluios, publicidade, textão) são duas coisas que estão descoladas, porque entre elas age o fantasma.

Abstraído esse detalhe, toda a questão da derrubada ou não do governo Dilma poderia ser resumida ao problema das zonas cinzentas entre o político e o jurídico: a fraqueza e falta de apoio parlamentar do governo por um lado, a necessidade de encontrar uma justificativa para um gesto violento e as negociações para o período posterior, por outro. Tentei tratar disso no fim do ano passado e acho que esse ponto está muito bem destrinchado neste texto de Moysés Pinto Neto. Mas não é assim, infelizmente, porque nosso momento de soberania em disputa e indecisão institucional inclui um elemento a mais: o fantasma e o desejo do golpe.

1: Desejo de Golpear

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Obviamente, esse nosso fantasma do golpe (que, na maior parte do tempo, como todo fantasma, permanece invisível e só sugestionado) se deixa perceber com mais facilidade no grito de “não vai ter golpe” que soltam os defensores do governo – ou, vá lá, da continuação do atual governo, por falta de lei que o substitua apropriadamente. Aí está explícito: é o discurso de uma esquerda que, na sua própria visão, se recusa a aceitar que venha um novo 64. Mas é uma recusa modulada, como veremos (e deixo para o final porque é a parte mais importante e complexa).

Antes disso, porém, é preciso ter claro que o mesmo fantasma age também nas demais vozes. Desde as mais evidentes manifestações de saudosismo pela ditadura, que são muito maiores do que deveriam, mas não tão grandes quanto pensamos (como demonstram pesquisas conduzidas por Pablo Ortellado), até estranhos editoriais que repetem, quase ipsis litteris, conclamações golpistas – essas sim, inequivocamente – de outras eras.

É interessante, por exemplo, observar como, no caso de um fantasma do golpe, é difícil distinguir o desejo do medo. Assim, mesmo de pessoas que, com toda honestidade, participaram da última manifestação contra Dilma Rousseff com o espírito mais democrático e legalista possível, tenho ouvido a crença numa iminente ditadura de esquerda. “Querem implantar o comunismo”, ou algo assim.

Certamente, essa crença, para além da repetição do tema da “república sindical” que se temia em meios abastados nos anos 60, é fantasiosa, porque ignora o pouco que a cúpula do Executivo ainda detém do poder. (Cáspite, o vice-presidente está abertamente preparando seu próprio governo!) Não importa: em se tratando de desejo, o frisson de enfrentar um inimigo tenebroso e forte é incentivo mais que suficiente para deixar de lado a lucidez.

Só assim entendemos o vínculo entre a pessoa perfeitamente democrática que vai à manifestação dominical e seu colega menos respeitável de protesto, o fascistão que ataca gente na rua por vestir vermelho. As continuidades entre protestar na Paulista, usar camisa da CBF contra a corrupção, tirar selfies com PMs e dar bordoadas em transeuntes são tão relevantes quanto as descontinuidades. Afinal, qual foi o líder das oposições que, mais do que simplesmente lamentar, deu declarações desautorizando essa violência? Quando o intolerável é tolerado, já se vê que, na verdade, é desejado.

O problema é que, uma vez que o fantasma do golpe se instala, na forma mais ampla de um gosto pela ruptura institucional, a violência de rua aparece como efeito colateral ou traço incontrolável de uma situação que, “por si só”, é anárquica (não confundir com “anarquista”). No plano do desejo, o estado de conflagração é fato consumado. Afinal, a crença inquestionável não é a de que estamos em crise, mas de que “rumamos para o desastre”. E se rumamos para o desastre, é salve-se quem puder. O que, paremos para pensar: já é o desastre.

Por isso, também, é difícil não enxergar esse fantasma do golpe involuntariamente desejado no episódio das fotografias que algumas pessoas, na maior inocência (leia-se: ignorância) tiram com policiais militares durante manifestações. Afinal, com o perdão do trocadilho infame, trata-se da instituição que mais desfere golpes no Brasil. E, para além do trocadilho: é a instituição que está sempre flertando com o paralegal, e com muita facilidade sai do flerte para cair na paixão fogosa com o ilegal. Quando? Quando é necessário, em nome de uma ordem muito mais sólida que as leis…

Cá entre nós, mesmo os maiores defensores da ação das nossas PMs sabem disso, mas tentam obliterar essa consciência, porque reconhecem no íntimo que, sem a PM, nossa corrupção entranhada não tem como se sustentar. Nesse sentido, a expressão “quero meu país de volta” faz absolutamente todo sentido, em se tratando de um país onde qualquer dissidência se resolve na bala ou no cassetete. O fantasma está presente porque o inocente, alegre e despretensioso gesto de sorrir para fotos com brutamontes armados no meio da rua traz consigo o desejo de que as dissonâncias se resolvam de uma vez só, com um… golpe… seco e eficaz.

Por isso, foi com grande clarividência que o jornalista Bruno Torturra levantou um ponto fundamental: hoje, muito mais do que os militares, quem tem as condições e a mentalidade para realizar algo parecido com um golpe, no Brasil, são as polícias. (Mas golpe, aqui, não deve ser entendido cartesianamente, como o gesto súbito de bloquear as entradas da capital, tomar as rádios, declarar vaga a presidência etc. Assumir o controle de quem pode manifestar-se ou não, e até, como em alguns Estados, de como se vai estudar, já é golpe suficiente.)

É nas polícias militares que se concentra a imagem dessa solução violenta para o diferente, o desviante, o desconfortável. O policial é aquele que parece ter o poder e o direito (velado) de produzir a solução rápida e dolorosa para problemas vistos como terríveis. Vestindo um uniforme da ordem legal, engendra todo tipo de ilegalidade e desordem, para um lado, enquanto para o outro preserva a continuidade de um modo de existência. É o instrumento de um caos ordenado, esse oximoro com o qual os brasileiros temos muita familiaridade.

Nessa troca de afagos com uma instituição indispensável da nossa corrupção é que se deixa perceber que, na direita brasileira, existe mesmo o desejo de (desferir um) golpe. A incapacidade de se descolar da brutalidade é o gesto que mais desvenda o caráter autoritário e anti-democrático das “elites brasileiras”, e não sua vontade de derrubar a presidente. Isso é mera política.

1A: o desejo de estar por perto quando houver um golpe

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Antes de aprofundar o tema, ainda é preciso mencionar um terceiro ator que anda possuído por esse fantasma, e que responde pelo nome de Paulo Skaf. O presidente da Fiesp, até outro dia, podia ser considerado só mais um aproveitador – com sua candidatura ao governo estadual – ou um oportunista, com seu lance marqueteiro do pato de banheira. Mas o uso da fachada da federação industrial para exigir renúncia demonstra que o desejo recalcado por um meia-oitozinho do Escafe é poderoso, irresistível.

Afinal, as câmeras já devem estar até apontadas, esperando a hora de disseminar pelo país a imagem de mais um herói da redenção nacional. (Falei em redenção? Ops…) Aquele que teria vocação para ser um mero oportunista acaba se tornando muito mais que isso… por quê? Porque o fantasma está ali, rondando, pronto para moldar as manifestações do desejo, na figura de um desejo de repetir-se como golpe…

Escrevi esses parágrafos antes da publicação dos caríssimos anúncios de Skaf nos jornais brasileiros, usando dinheiro público, ou seja, extraído via impostos dos trabalhadores e empresários para ser entregue à Fiesp, que com ele deveria fazer serviços sociais, e não conspirações. Assim, o homem que não quer pagar o pato quer fazer os demais de patos. Mas, em nome de um objetivo maior, por que não deixar passar, não é mesmo?

2: o Desejo de Ser Golpeado

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De todos esses grupos, é claro que o mais fascinante é aquele com um desejo inconfesso não de dar um golpe, mas de sofrê-lo. Isto é, de constituir o sentido último de seus males como a formação de um golpe, atitude ilegítima contra uma instituição legítima. No caso do PT, a questão não está em responder se um eventual impeachment da presidenta seria essa atitude ilegítima, ou seja, um golpe. Isso será sempre discutível, considerando a lei brasileira de remoção de presidentes: é quase impossível que um processo desses observe estritamente o que está na lei. Torno a esse ponto adiante.

Mais interessante é pensar sobre o lugar do conceito de golpe nessa narrativa. Ao contrário do que pode parecer, ele não surge com a ameaça concreta da remoção de Dilma (por impeachment ou cassação da chapa, tanto faz). Algo dessa natureza está presente há muito tempo, no esforço de construção da imagem que faz da dupla Lula/Dilma uma espécie de novo governo Jango, cercado de uma matilha de direitistas golpistas enraivecidos, prontos para atacar ao primeiro cheiro de sangue.

Basta lembrar, por exemplo, das inúmeras evocações da idéia de lacerdismo durante o período eleitoral de 2010, sobretudo quando a campanha de José Serra buscou uma mensagem próxima ao conservadorismo católico, a gritaria anti-aborto etc. É bem verdade que estava se reproduzindo ali um velho topos da política brasileira, com o uso de pautas tradicionalistas como estratégia contra um alvo considerado progressista (contra tantas evidências!). Também é verdade que Lacerda foi o campeão dessa tática imbecil, que ainda por cima acabou por não lhe trazer nada do que queria. Tampouco é exclusividade brasileira. No entanto, justamente essa brecha permitiu que o governo do PT reforçasse sua imagem como coração da esquerda brasileira, em flagrante contradição com suas políticas e suas alianças.

Para além desse caso específico, já podemos ver que, na arquitetura da visão de mundo petista, a noção do golpe ocupa uma posição basilar. Essa centralidade decorre de um certo poder purgativo, até mesmo redentor, que ela detém. Necessariamente alguém que foi vítima de um golpe, de uma remoção forçada, de um conluio, é alguém gostável.

Por isso, o desejo de golpe, no caso petista, opera bem assim: sem a perspectiva de ser golpeado, o que é o governo Dilma? É um governo de apoio ao latifúndio (com seus corolários, o agrotóxico, o genocídio indígena, a dominação semi-coronelista da política em nível local), e ao extrativismo (está aí o Rio Doce que não me deixa mentir, mas o que dizer dos projetos de exportação de minério de Eike Batista? – aliás, lembra dele?), sem falar no flerte descarado com fundamentalistas religiosos cujo maior interesse não está na salvação da alma de ninguém.

Ou seja, um governo que, em nome de um desenvolvimentismo que não desenvolve coisa nenhuma, se coloca em aliança bastante incestuosa com o capitalismo mais clientelista. Ou seja, torna-se intermediário e fiador de uma brutal acumulação primitiva, fazendo da população e dos trabalhadores que lhe emprestam o nome a matéria-prima para um regime ao mesmo tempo rentista e especulativo.

No entanto, o petista alarmado com a chegada do golpe (alarmado, ou seja, motivado, mobilizado, eletrizado) continua a ver o atual governo como baluarte da esquerda brasileira contra o avanço das tropas fascistas. Como isso é possível? Certamente não é olhando para o próprio governo. Não é pela negociação de cargos no varejo, pela construção de Belo Monte, pela escolha de ministros, pela orientação das empresas estatais. Essa perspectiva só se justifica, só se realiza, na presença de um inimigo a ponto de golpear. O golpe é o único véu entre o governo Dilma e o espelho – ou, para usar uma imagem mais elegante: o retrato do Dorian Gray de Oscar Wilde.

Acontece que o golpe tranquiliza a consciência de quem ainda quer manter aquela alma petista dos bons tempos, ao estabelecer um contraponto assustador. Sem golpe, não há esquerda no governo e isso é insuportável para quem, considerando-se uma pessoa de esquerda, se mantém fiel ao partido. Por isso, a presença constante do golpe é indispensável; e é, assim, desejada, da mesma maneira como desejamos aquilo que tememos, uma vez que baseemos nossa existência nesse temor.

O desejo de quem vê o golpe vindo do outro lado tem, por isso, um componente de individuação. Ou seja, de constituir-se como sujeito dentro de um quadro de relações e graças à projeção desse desejo no mundo exterior. Aquele que está constantemente prestes a sofrer um golpe da direita – e não há dúvidas de que quem age com maior agressividade contra o PT, hoje, é a direita – só pode ser esquerda. Em consequência, pode exigir solidariedade de todos os demais e, com isso, aglutiná-los em sua órbita. “Como assim, não vai cerrar fileiras conosco, isentão?”; “Não percebe que está fazendo o jogo da direita?”; esses e outros bordões têm jorrado com tanta insistência quanto os gritos de “petralha” vindos do outro lado.

Esse pesadelo só não pode se concretizar, é claro. Aí a fantasia explode.

2A: O Desejo de Golpes Idos

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Falei do “não vai ter golpe” como expressão de uma esquerda sobre a qual sempre pende o fantasma de 64, quando a tensão nas ruas chegou a um nível ainda mais profundo do que o atual, mas, na hora do vamos ver, ela simplesmente não lutou. É bem verdade que a capitulação das esquerdas no Brasil em 64 tem muito a ver com a decisão pessoal de Jango, que não quis resistir, ao contrário de seu cunhado, disposto a repetir em escala ampliada a campanha da legalidade de 61. Os motivos para isso são discutíveis, da tal pusilanimidade do rancheiro à informação de que a Quarta Frota estava próxima à nossa costa. Pouco importa. O subtexto do “não vai ter golpe” é o tradicional “desta vez vai ser diferente”.

Assim, à primeira vista, o novo 64 desejado pelo inconsciente governista é aquele em que o grande capital tenta derrubar o governo popular e democrático, mas “desta vez” não consegue, porque o povo se subleva e garante que não haja golpe, ou que ele seja rapidamente abortado, como ocorreu na Venezuela em 2002.

E quem operaria essa resistência? Quem daria o sangue contra a derrubada do governo? Certamente não os movimentos sociais, cujo sangue só é derramado pelo governo à base de cassetete. Os sindicatos? Talvez cobrem caro demais, já que desta vez a exigência envolve correr riscos – fazer discurso em alto-falante com distorção não basta. A Odebrecht, possivelmente, mas na planilha dela não tem distinção de grupos políticos: tanto faz. O povo? Quer mais é ver o circo pegar fogo…

O golpe desejado seria, assim, um modo de expurgar não só a conversão do governo do PT às alianças com a direita coronelista e patrimonialista brasileira – alianças estas que foram muito além da mera Realpolitik, lá está Kátia Abreu que não me deixa mentir –, mas também a memória de uma queda sem resistência. Assim, um governo que, em matéria de reformismo e progressismo, foi em tudo oposto ao de João Goulart passa a ser visto por seus defensores como potencial corretor dos rumos da história, lutando onde o outro não lutou, resistindo onde o outro não resistiu, nem que seja só para cair de pé, bravamente.

Pouco realista? Isso é você que está pensando…

3 – Golpe: Fantasma e Desejo

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Mas afinal, objetivamente: o impeachment é golpe ou não é? Olhando por um lado, está certo o argumento da oposição, segundo o qual não há golpe se o processo seguir o devido trâmite; por outro, está certo o argumento da situação, para quem o uso das “pedaladas fiscais” é uma desculpa esfarrapada, no máximo um deus ex machina, para justificar a derrubada da presidente. Como escrevi em dezembro, é o problema do impeachment de Schrödinger.

O que há naquele texto que mereça ser repetido é que esse tipo de processo existe precisamente para situações como a atual, em que o problema não é jurídico, mas político; é a válvula (uma delas) pela qual a política acontece. (Naquele texto, falei das ambiguidades e dos rigores inalcançáveis da lei como uma das válvulas; outra era a atuação da polícia, sobretudo a militar; mas há muitas outras, e uma das mais importantes é a construção de sentido operada pelos meios de comunicação.)

Com seu componente de instrumento legal e seu componente de golpe político, o processo de impeachment é um sintoma de que as vias de operação do poder estão congestionadas. De um jeito ou de outro, seguindo a velha máxima de que a política tem horror ao vácuo, essas vias serão reabertas.

Não custa lembrar que quem tinha mais poder para reabrir essas vias a seu favor, até muito recentemente, era o governo (leia-se: o Executivo). No sistema político brasileiro, a presidenta da República detém muito, muito poder; ou, como se costuma dizer, “a caneta”. Dilma teve, é preciso estar consciente disso, todas as oportunidades do mundo para manter sua coalizão e abortar a ascensão do, vá lá, golpismo. Se não o fez, grande parte da culpa recai sobre sua própria incompetência política, sem falar no sufocamento atroz das mobilizações de esquerda que efetivamente houve no Brasil desde 2013.

Sem conseguir apoio no Congresso e tendo deixado as ruas completamente escancaradas para a direita, e uma direita bem tacanha, também desejante de golpes, o que Dilma e seus assessores mais próximos conseguiram foi concretizar aquele fantasma tão desejado: o golpe iminente. Repetindo: a situação não chegou a esse ponto simplesmente por causa de uma enorme mobilização anti-governista. Essa mobilização existe, mas só conseguiu ganhar corpo, só conseguiu obter apoios, porque foi alimentada pelo governo. Inclusive como fantasma: lembra da propaganda eleitoral de 2014?

Até mesmo Michel Temer, hoje conspirador, traidor, golpista abjeto, fez das tripas coração para salvar um governo que não queria ser salvo. Não haveria ruptura institucional, nem o menor risco de impeachment, se Dilma fizesse um único gesto acertado para evitá-los. Mas ela fez o oposto, ajudada por seus brilhantes assessores Mercadante, Cardozo e Wagner. De que adianta falar agora em golpe?

No fim, a incompetência foi tamanha que a situação provavelmente irá longe demais, com a concretização que, na estrutura da fantasia petista, não poderia ocorrer. Chegamos a um estado de soberania disputada, um ponto-chave eminentemente político, em que todas as forças são lançadas para dentro do jogo e todas as estruturas se tornam instrumentos. Desde o texto da lei até os textos de jornal, passando pela atuação da polícia, a “negociação no varejo dos cargos”, os púlpitos de igreja, os movimentos sociais.

A pergunta agora é: quais desses estão fortalecidos? Quais estão enfraquecidos? Quem os fortaleceu? Quem os enfraqueceu? Com golpe ou sem golpe, temo que a resposta a essas perguntas pinte uma imagem pouco favorável para o governo.

Quando o desejo de golpear e o desejo de ser golpeado coexistem, é fatal que, eventualmente, venham a convergir. A princípio, pode parecer que eles só se encontrem no infinito. Até o momento em que algo excepcional, uma crise, um governo inepto, uma investigação policial, desvia os fachos e os aproxima. Esse é o momento que estamos vivendo: uma espiral rumo ao abismo em que se entrelaçam tipos diferentes de fascínio pela ruptura, atualizando desejos de golpe e memórias de golpe.

4: O Cadáver Insepulto

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Como eu disse, o desejo inconsciente do golpe, a fantasia em relação a uma iminente intervenção extra-legal, o espectro que nos ronda, é indicativo de que temos entre nós um cadáver insepulto que atende pelo nome de “ditadura militar”. Isso quer dizer que nunca chegamos a encarar esse legado sobre nossas instituições e mesmo sobre nossas relações sociais cotidianas.

Não investigamos o suficiente, apesar da Comissão Nacional da Verdade, que recebeu muito menos holofotes (e fundos) do que merecia. Não punimos, e quando tivemos a chance de rever a lei de anistia, todo mundo com um pouco de poder foi contra. Ao fim, o STF a manteve, com os mais batidos e tristes argumentos.

Não repensamos instituições como a Polícia Militar. Continuamos aplicando leis produzidas pelo período autoritário (e, por extensão, ilegítimo); isso inclui o famigerado e grotesco uso da Lei de Segurança Nacional contra manifestantes em 2013. Damos ouvidos a gente que participou do exercício do regime de exceção. Mal e porcamente tivemos a coragem de retirar os nomes de tiranos das nossas ruas, e as tentativas nesse sentido foram muitas vezes recebidas com má vontade.

Para muita gente, ainda é perfeitamente aceitável a idéia de que a recusa terminante a uma ditadura só pode significar o apoio a alguma outra ditadura, o que parece indicar que a perspectiva de viver sob opressão não parece ser um grande problema para boa parte da população. De fato – e isso está muito claro em textos como o do historiador Bruno Alvaro, que nessas horas é quem “dá a real” do jeito mais poético –, a maior parte dos brasileiros ainda vive tal e qual na época da ditadura, com a mesma repressão, a mesma fluidez entre a legalidade e os crimes cometidos por agentes do Estado, as restrições a direitos básicos (e constitucionais) como a liberdade de ir e vir e a inviolabilidade do lar. Basta ser negro, pobre, índio. E se é para falar de estado de exceção, podemos dar nome e sobrenome: Rafael Braga Vieira, a grande vítima da supressão do levante de 2013.

A ditadura, no Brasil, pode estar desencarnada, se por “encarnar” entendemos o controle sobre o aparato do governo central. Mas morta, não está. A rigor, como fantasma, a ditadura pode até ser mais eficaz, por conseguir se imiscuir na mente de todos e, em grande medida, orientar o funcionamento das instituições e das relações cotidianas mesmo em democracia.

Assim sendo, o cerne do nosso problema não está em identificar o golpe aqui ou acolá, mas em entender que estamos agindo constantemente sob o signo do golpe. Não o que poderá vir, mas o que já aconteceu. Estamos revivendo essa experiência porque não a digerimos até hoje e estamos condenados a novas encenações de instabilidades institucionais, com lacerdismos, golpismos e tudo o mais a que temos direito. Não precisa ter golpe, porque no Brasil o golpe é ubíquo.

5: Um Posicionamento, Enfim

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Com tudo isso, devo dizer que minha posição pessoal é rigorosamente contrária ao impeachment de Dilma Rousseff, nas bases em que está para se dar. À parte o fato de que a base legal parece de fato não existir (mesmo se eu acabei de dizer que, no fundo, a base legal não é determinante); à parte também meu completo ceticismo de que algo de bom ainda poderá sair deste governo, caso ele se salve e permaneça até 2018; à parte, por fim, meu enorme pasmo diante da crença de que haverá alguma “guinada à esquerda” de uma administração apaixonada pelo concreto armado: acredito que o recurso ao impeachment é um erro histórico profundo, do qual o país ainda se arrependerá amargamente.

Como já apontado por muitos, o impeachment é um momento catártico cujo principal efeito (e os atores políticos que o tocam têm plena consciência disso) será o esvaziamento das atuais tensões no país. Por um lado, são tensões quase insuportáveis e queremos mesmo um pouco de calma para voltar a viver. A economia, por exemplo, agradeceria bastante, é forçoso admitir. Por outro, são tensões que mobilizam, obrigam à tomada de posição, favorecem rearticulações e desnudam as insuficiências da nossa sociedade, a começar pelo déficit democrático.

O impeachment seguramente serviria para costurar um acordo que entregaria o PT aos leões e livraria todos os demais implicados na Lava Jato, principalmente os do PMDB, maiores favorecidos com essa lama toda, e em seguida os do PSDB, que têm a vantagem de poder contar com a complacência da classe média e o apoio da classe mídia. A pessoa que defende o impeachment em nome da luta contra a corrupção pode até ser bem intencionada (algumas são, outras não), mas posso garantir que não tem a menor ideia do que está dizendo. (A bem intencionada, claro; a mal intencionada eu suponho que saiba até bem demais.)

Esse momento catártico é típico de um país que não quer assumir suas responsabilidades. O que nos faz falta não é uma solução sumária para o “problema Dilma”, o “problema Lula”, o “problema PT” ou “o problema desses safados todos que estão aí”. Precisamos é de constituir forças políticas bem articuladas, efetivamente ancoradas na nossa diversidade social, capazes de dialogar com a sociedade civil e extrair dela sua força de atuação. Partidos, movimentos e organizações, portanto, programáticos e propositivos. O impeachment nos trará o oposto disso.

É bem verdade que, no começo, a economia deve responder bem ao governo Temer e parecerá que as crises foram “solucionadas”, os erros do governo Dilma, apagados. Vamos possivelmente esquecer a tensão em que vivemos desde 2013, graças aos dois ou três anos de crescimento econômico moderado que poderão resultar daí e do sufocamento dos impulsos contestatórios nas ruas. Pautas agressivamente impopulares serão aprovadas e os porta-vozes do mercado, ingenuamente, vão comemorar.

O problema é que, daqui a poucos, muito poucos anos, quando esse arranjo bater de frente com as efetivas condições demográficas e sociais do Brasil, que mudaram muito nos últimos 20 anos, vamos ter esquecido de fazer o mais urgente: construir essas novas estruturas políticas.

Tendo transformado o Judiciário em ramo heróico do poder, vamos nos deparar com uma sociedade judicializada e policializada, o que não tem como ser bom: afinal, como bem sabemos, muitos juízes pensam que são Deus e os policiais, se não se acham deuses, certamente acreditam ser algum tipo de arcanjo Miguel. Mas isto é um país supostamente democrático, não é algum reino celestial.

Nesse sentido, e apenas nesse, o impeachment é certamente “um golpe”: no sentido clássico em que é sinônimo de bordoada. A vítima desse golpe não é Dilma, nem Lula, nem o PT, mas a paulatina constituição de um novo arranjo político, pós-88, pós-Odebrecht, para o Brasil. Algo muito importante, que ainda está nos estágios iniciais, mas seria ceifado ainda em botão. Algo que se pode divisar vagamente nos novos partidos (Rede, talvez Raiz, até mesmo, se bobear, esses partidos liberais que tentam se registrar) e no vigor de movimentos sociais autônomos como o das escolas. Tudo isso é muito recente e está em grande risco.

São esses que deveriam estar gritando contra um golpe, e não o PT.

Post-scriptum – Tantos Fantasmas

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Comecei o texto falando do golpe como o fantasma de um cadáver insepulto; mas logo me dei conta de que está longe de ser o único dos nossos fantasmas. É, certamente, o que mais atua nas nossas refregas políticas, sobretudo quando chegam ao ponto em que chegaram. Mas existem outros, dos quais, é bom lembrar, a própria ditadura é herdeira.

Por sinal, eu poderia dizer que os fantasmas são uma entidade dinástica, que vai se renovando a cada geração, adaptando-se às condições de cada época e, principalmente, acumulando forças, saberes, poderes; estendendo o alcance de sua atuação; reforçando os nós entre os diferentes pontos de assombração.

Segue uma breve lista de fantasmas, os cadáveres insepultos em que tropeçam todas as nossas iniciativas emancipatórias ou modernizadoras, isto é, nossas boas intenções. O genocídio indígena da colonização, que se traduz em genocídio indígena da república. O rentismo/extrativismo da economia, que vai de Duarte Coelho a Marcelo Odebrecht, passando por Percival Farquhar e os Setúbal. O patrimonialismo estamental, que joga por terra a já normalmente ineficaz distinção entre estado e mercado.

E o principal de todos, claro, evidentemente, sem sombra de dúvida: a escravidão. Está aí Joaquim Nabuco, que não me deixa mentir, e cujo prognóstico de que “a escravidão permanecerá por muito tempo a característica nacional do Brasil” aparece tatuado em baixo-relevo na testa de cada secretário de Educação, Segurança Pública, Transportes ou Habitação deste país.

Sendo assim, o golpe é fractal, ou seja, tem múltiplas dimensões que se dobram umas sobre as outras. Também por esse motivo, mais uma vez, é estéril discutir se há golpe ou não há, porque cada gesto, de cada lado, traz consigo uma fração de desejo de golpe, que também é uma encarnação do conflito inescapável que caracteriza um país como o nosso. Um conflito que é bem mais que luta de classes, porque envolve condições de vida e de ocupação do território transversais em relação à classe: envolvem raça, ascendência, sobrenome.

A ditadura, esse nosso fantasma mais recente, não foi derrubada, como se sabe. Caiu quando quis, vendo que tinha feito besteira na economia e percebendo que o apoio internacional esmaecia. Os militares garantiram o perdão para si próprios e ainda não vi nenhuma declaração oficial das Forças Armadas se retratando por lançar o país nas trevas por tanto tempo. Uma ditadura que, depois de golpear a esquerda, golpeou também a direita democrática (tão pálida no Brasil) e até a direita pouco democrática, como logo percebeu o pobre diabo do Lacerda.

Se hoje temos uma Constituição minimamente humanista, nós a devemos ao momento histórico único da redemocratização, não a algum espírito nacional ou coisa que o valha. Mesmo assim, a Constituinte foi marcada pelos péssimos augúrios do Centrão, germe do nosso pemedebismo, como apontado por Marcos Nobre, e termo que reaparece na nossa política pela via das tentativas do governo de se salvar. Triste sina.

Ataques ao progressismo da Carta esperavam apenas por um governo fraco e um sistema político esfrangalhado para se desvelar em toda sua força. É fácil de prever, como fiz acima, que a grande ofensiva virá com o governo do PMDB: Temer, Cunha, Renan, e nem quero pensar em quais sócios menores… São gente que não tem escrúpulos quando se trata de repartir o território e as forças produtivas.

Infelizmente, porém, a realidade é que a atual paralisia é muito mais favorável aos retrocessos. Com um Executivo em constante xeque e os movimentos sociais com a cabeça fixa no golpe, o Pântano, o Centrão, o exército de Cunha têm curso livre para agir, chantagear, extorquir. Para dar seus golpes constantes, institucionais, legais. Sim, enquanto uns desejam, temem e devaneiam com os golpes, outros os desferem.

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Fonte: Viana Diego https://vianadiego.wordpress.com/2016/03/31/golpes-e-desejos/

O que de fato divide os brasileiros (não é o impeachment)

O que de fato divide os brasileiros (não é o impeachment)

 “A defesa do impeachment se dá na mesma proporção em todas as classes sociais. Mas as razões de cada grupo para pedi-lo são diametralmente opostas” disse Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisas Data Popular

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Faz parte da retórica polarizada que tomou conta do debate político brasileiro contrapor  a vontade das elites à das classes populares em relação ao governo. Segundo essa lógica, só os ricos seriam a favor do impeachment, e os pobres, contra. Na prática, porém, não é assim que funciona. As pesquisas feitas pelo Datafolha nas manifestações pró e anti-governo mostram que até havia diferenças entre os dois grupos. Entre os pró-impeachment, 37% ganhavam mais do que 10 salários mínimos; entre os apoiadores de Dilma, 24% tinham a mesma renda. Nos protestos contra o governo, 12% eram empresários. Nos pró-Dilma, 15% eram funcionários públicos. Tanto numa como noutra manifestação, porém, perto de 80% dos manifestantes tinha ensino superior, cerca de 30% tinha carteira registrada, e mais da metade ganhava mais do que 5 salários mínimos. Do que se concluiu que, de um lado e de outro, quem estava na rua era parte significativa da elite. Poucos se deram ao trabalho de perguntar o que pensam da crise os que estão na base da pirâmide e não saíram de casa nem para tentar derrubar o governo, nem para apoiá-lo.

Esse é o trabalho do instituto de pesquisas Data Popular, que se especializou em compreender o que se passa na cabeça dos brasileiros com renda familiar abaixo de 3 500 reais por mês – as chamadas classes C, D e E. O Data Popular descobriu que os mais pobres não foram às manifestações porque, primeiro, as consideram “coisa de rico”. Depois, porque são totalmente descrentes dos partidos e do sistema político e não acreditam que a queda de Dilma Rousseff vá trazer mudanças radicais no panorama econômico e social. Quando se aprofunda a compreensão sobre o que pensa essa parcela da população, emerge o fator que realmente separa ricos de pobres. E não é o impeachment.

“A defesa do impeachment se dá na mesma proporção em todas as classes sociais. Mas as razões de cada grupo para pedi-lo são diametralmente opostas”, explica Renato Meirelles, presidente do instituto. “Os brasileiros estão bem menos divididos quanto ao impeachment do que sobre o que deve ser o futuro do país.” Segundo ele, a classe C está mais indignada com o encolhimento de benefícios como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Prouni e o Pronatec do que propriamente com a corrupção. “Para eles, a Dilma tem de sair porque não cumpriu os compromissos de campanha e não conseguiu ampliar esses benefícios.” Esse público, portanto, defende o Estado eficiente, mas provedor – que Meirelles chama de “estado vigoroso” –, enquanto nos estratos de maior renda ocorre justamente o oposto. “Os 20% mais ricos, em geral, querem um estado enxuto.” É aí que está o fosso ideológico que realmente importa, e é com esse tema que o país terá de lidar assim que o impasse do impeachment for resolvido. Como o Estado brasileiro está quebrado e o ajuste será inevitável, o embate fatalmente será traumático.

Na interpretação do presidente do Data Popular, o único fator capaz de atrair para os atos pró-impeachment o engajamento dos mais pobres seria um projeto ou um líder que representasse a promessa de melhoria no pós-Dilma. Mas não há sinal de algo do tipo no horizonte.  Em janeiro, o Data Popular perguntou a 3 500 pessoas de todas as classes sociais se conseguiriam dizer o nome de uma pessoa capaz de tirar o país da crise – 89% disseram que não seriam capazes.  Entre os 11% que apontaram algum nome, a maioria citou papa Francisco. Esses e outros dados que Meirelles apurou lhe dão a convicção de que o próximo presidente eleito no Brasil será alguém que nunca se candidatou.

Fonte: Revista Piauí