Consumidor quer código de barras como fonte de informação adicional sobre produtos

Consumidor quer código de barras como fonte de informação adicional sobre produtos

Segundo estudo da GS1 Brasil, empresas entendem esse desejo e estão constantemente se adaptando para ficar em linha

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Há 33 anos, o código de barras marca presença em produtos vendidos no Brasil, levando uma série de benefícios para consumidores e empresas. Sua massificação, no entanto, aconteceu somente nos últimos 20 anos. Mas ainda há muitas aplicações almejadas pelo consumidor para o recurso. Uma delas como fonte de informação adicional. Esse é um dos resultados apresentados pela Associação Brasileira de Automação – GS1 Brasil na terceira edição de sua pesquisa semestral intitulada “Consumidores e Empresas: tendências e comportamento no mercado nacional”.

Para chegar a essa conclusão, a entidade ouviu 425 consumidores, sendo 46% mulheres e 54% homens maiores de 18 anos de todo o Brasil e de todas as classes sociais. A GS1 Brasil também ouviu empresas em todo o País para entender como elas enxergam essa e outras tendências. Por parte das corporações, foram consultadas 550 pessoas dos setores de alimentos, indústria e saúde.

João Carlos de Oliveira, presidente da GS1 Brasil, aponta que o consumidor demonstra que o código de barra pode ser fonte de entrada de informações, item citado por 76% dos respondentes do estudo. “99% dos consumidores buscam dados do produto antes da compra e o código de barras permite não só isso, mas rastreabilidade, agregando valor aos produtos. Além disso, 44% dos entrevistados entendem que o código de barras pode ajudar no combate à falsificação”, afirma o executivo.

No futuro, releva o levantamento, o código de barras pode se tornar referência para informações gravadas nos dispositivos móveis, que é, hoje, o principal sistema de armazenamento de dados das pessoas.

De acordo com o levantamento, o consumidor espera que o código de barras nos próximos anos sirva para acompanhar ainda exames médicos, item citado por 77% dos entrevistados; identificação em loja (76%); internação em clínicas e hospitais (74%); identificação pessoal (72%); e rastrear o que é consumido individualmente (71%).

Indústria avança

Segundo o estudo, as empresas estão cientes de que seus consumidores buscam mais informações e 75% delas apontam que o site é a origem de informações dos produtos. As redes sociais também desempenham papel relevante, com 68% das companhias usando o canal para informar o público.

No futuro, revela a pesquisa, os pontos de contato do consumidor deverão crescer na busca por informações. Destaque para o crescimento do uso de aplicativos. E, apesar do cenário econômico atual, 87% das organizações querem investir em tecnologia no próximo ano.

Das empresas de alimentos ouvidas, 40% afirmaram que vão apostar em inovação em códigos lineares com mais informações, outras 25% em eventos de rastreabilidade. Em saúde, o investimento tecnológico vai para códigos de barras 2D e atualização automática de dados cadastrais das empresas e produtos, comportamento semelhante ao que será adotado pela indústria.

Automação em tempos de crise

Na visão de Oliveira, em tempos de crise, a automação é forte aliada das empresas e por isso companhias devem apostar na iniciativa. “Talvez ela seja até mais importante do que em época de ‘vacas gordas’. Porque é por meio da automação que se consegue redução de custos, especialmente em razão da eficiência, produtividade e redução de custos que ela promove”, destaca.

Ele observa que corrobora o fato de que 72% dos consumidores estão tomando decisão de compra baseada na razão. “Sabemos que emoção, especialmente, em estabelecimentos comerciais self-service, ainda tem fator positivo no ato da compra, mas neste momento de crise, 72% dizem que a compra não é emocional e sim racional e apenas 1% diz que está comprando produtos supérfluos”, completa.

Um mundo de código de barras

Oliveira aponta que o consumidor mostra o claro desejo de automatizar a sua vida por meio do celular. Nesse cenário, seria possível vivermos em um mundo de código de barras, como já acontece em alguns locais da Coreia do Sul, que mostra displays de produtos no metrô que podem ser comprados pelo celular a partir de um código de barras e entregues em casa?

Quem responde é Ana Paula Maniero, gerente de Negócios da GS1. “O código de barras do produto hoje já torna possível esse cenário”, afirma. A executiva, inclusive, aponta que a GS1 Brasil já tem uma solução nesse sentido pronta para associados. Trata-se do O InBar, aplicativo para leitura de códigos de barras lineares e bidimensionais por meio da câmera do dispositivo ou da digitação do código numérico do item comercial.

O presidente da entidade reconhece que essa é uma tendência que a GS1 está de olho, uma vez que busca manter sempre seus associados na vanguarda tecnológica para beneficiar não só empresas como seus clientes.

Fonte: It Fórum

Comunicação e internet: porque gerenciar crises nas mídias sociais é tão importante para as empresas

Comunicação e internet: porque gerenciar crises nas mídias sociais é tão importante para as empresas

Os problemas não surgem de uma hora para outra, com exceção dos casos de tragédia, porém a crise pode ser vista nos pequenos detalhes, assim como os sintomas de uma doença, que se não forem detectados e controlados de imediato agravam ainda mais a situação

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As organizações devem estar preparadas para enfrentar os dias difíceis surgidos com uma crise, sobretudo se ela nascer ou migrar para as mídias sociais. A internet tornou-se um poderoso canal de comunicação onde as informações sobre a empresa circulam de uma forma tão rápida que se não houver uma equipe preparada para gerenciá-la, as consequências podem ser catastróficas.

Compreender e administrar todo o potencial e as oportunidades que a internet pode oferecer tornou-se de suma importância para a competitividade das empresas, seja qual for o seu mercado de atuação.

As novas tecnologias da comunicação e da informação possibilitaram a autocomunicação e uma maior interatividade em tempo real entre as empresas e seus consumidores. Com praticamente toda a população economicamente ativa conectada e participante de alguma rede social, as manifestações e posicionamentos pessoais tornaram-se frequentes, trazendo além de benefícios, prejuízos para o produto ou serviço em questão, tornando essas redes um amplo e democrático serviço de atendimento e proteção aos consumidores. Toda essa facilidade de acesso à informação e a oportunidade de poder se expressar da maneira que achar mais conveniente, tornou o consumidor mais ativo e poderoso aumentando de forma significativa o seu poder de compra.

À medida que a tecnologia evoluiu, a comunicação com o público-alvo transformou-se, passando de comunicação de massa para uma comunicação mais individualizada e que através da possibilidade da escolha do canal pelo qual o consumidor prefere receber a informação, transmitiu-se o poder das empresas para os clientes. Consumidores têm necessidades distintas por uma série de questões culturais, temporais, econômicas, sociais, e até mesmo valores e experiências vividas, e desta maneira as organizações tiraram o foco do produto e o colocaram no cliente.

O marketing 3.0 apresentado por Kotler, Kartajaya e Setiawan, também demonstra que o crescimento das redes sociais estreitou os laços de comunicação entre as empresas e os seus públicos, pois tornou mais fácil e viável a troca de informações, inclusive, com outros consumidores. A globalização e os avanços da internet, sobretudo, das redes sociais, desempenham uma função importante no marketing de relacionamento, no que diz respeito às empresas e os seus consumidores.

O consumidor passou a utilizar a internet para buscar informações sobre os produtos e/ou serviços que deseja adquirir, tornando-a sua principal fonte de referência e afetando de forma direta na decisão de compra, além de efetuar a compra em si e avaliar a experiência de adquirir o produto ou o serviço em questão.

Por esse motivo, essas organizações devem ficar atentas às mídias sociais, uma vez que elas são um poderoso canal de escuta e participação, além de lembrar que mesmo a internet sendo um meio de comunicação de massa, do outro lado há um ser único e é tratando-o como tal, que a empresa obtém a oportunidade perfeita para melhorar a gestão de marketing e o relacionamento com seus clientes.

A tecnologia favoreceu a opinião pública no sentido de dar voz e importância a cada opinião emitida por qualquer individuo. As redes sociais trouxeram um grande bem, que é a possibilidade de mobilização em torno do objetivo de demandar medidas sobre determinado assunto.

Com as organizações que já passaram por isso, pode-se observar o quão grave pode ser para uma empresa, seja qual for o seu porte, não posicionar-se de maneira adequada e dar uma resposta aos seus clientes. Quando a crise se alastra pela internet o quadro pode perder o controle, devendo ter uma resposta em no máximo três horas. Neste contexto há ainda o agravante de que sempre que uma pessoa procurar algo sobre a sua empresa na rede, a crise estará lá para ser lembrada e a forma como ela foi tratada no passado fará toda a diferença no presente e no futuro de uma organização.

Reconhecer que toda e qualquer organização tem riscos e empenhar-se em saber como preveni-los em caso de crise é fundamental para sustentar a imagem e a reputação de uma marca.

Fonte: artigo de Arieta Pheula, Administradora com formação em Marketing e Pós-graduanda do curso de Especialização em Planejamento em Comunicação e em Gestão de Crises de Imagem – PUCRS. Publicado originalmente em:

http://www.administradores.com.br/artigos/marketing/comunicacao-e-internet-porque-gerenciar-crises-nas-midias-sociais-e-tao-importante-para-as-empresas/95167/

Golpes e desejos

Golpes e desejos

Seria tentador demais começar este texto cometendo a milionésima paráfrase daquela famosa abertura do Manifesto Comunista, com o espectro rondando a Europa. Mas isso passaria a impressão errada: no texto de Marx (e daquele outro alemão), tratava-se de uma força virtual que se atualizava, apontando como potência para um futuro. Ao contrário, se também tem um fantasma que passeia sorrateiro Brasil afora, é o fantasma de um cadáver insepulto, uma morte que não se consumou, um trauma que ficou por superar. É claro que estou falando da ditadura e do golpe que a iniciou.

Até aí, nenhuma novidade. Acontece que quem diz fantasma, de um jeito ou de outro diz fantasiar. E quem fala em fantasiar, inevitavelmente, fala de desejo. Eu poderia agora escolher uma fórmula chocante e afirmar que, sabendo ou não, existe no Brasil um desejo difuso de golpes e ditaduras. Seria verdade, até. Mas não é bem assim que o fantasma age; em vez disso, ele opera sobre o desejo porque se imiscui nele, se introduz onde não foi chamado e sem ser percebido. Assim, quando um desejo vai tomar forma, constituir um objeto, traduzir-se como expressão, enfim, quando vai agenciar-se, a presença sorrateira do fantasma o modula um pouco, lhe confere um outro alcance, uma outra coloração.

Sem levar em conta esse modo de agir do nosso fantasma, corremos o risco de ficar andando em círculos ao tentar dar sentido ao que acontece hoje no país. Passamos completamente ao largo do problema se nos contentamos em perguntar se o que se prepara nas sombras do poder é um golpe ou não. Essa pergunta pressupõe uma consciência muito clara dos atores sobre o que estão fazendo e aonde querem chegar. Hoje, não é esse o caso, porque o que cada ator quer (derrubar o governo, manter o governo, chegar ao governo, aniquilar um partido…) e como ele age (protestos, conluios, publicidade, textão) são duas coisas que estão descoladas, porque entre elas age o fantasma.

Abstraído esse detalhe, toda a questão da derrubada ou não do governo Dilma poderia ser resumida ao problema das zonas cinzentas entre o político e o jurídico: a fraqueza e falta de apoio parlamentar do governo por um lado, a necessidade de encontrar uma justificativa para um gesto violento e as negociações para o período posterior, por outro. Tentei tratar disso no fim do ano passado e acho que esse ponto está muito bem destrinchado neste texto de Moysés Pinto Neto. Mas não é assim, infelizmente, porque nosso momento de soberania em disputa e indecisão institucional inclui um elemento a mais: o fantasma e o desejo do golpe.

1: Desejo de Golpear

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Obviamente, esse nosso fantasma do golpe (que, na maior parte do tempo, como todo fantasma, permanece invisível e só sugestionado) se deixa perceber com mais facilidade no grito de “não vai ter golpe” que soltam os defensores do governo – ou, vá lá, da continuação do atual governo, por falta de lei que o substitua apropriadamente. Aí está explícito: é o discurso de uma esquerda que, na sua própria visão, se recusa a aceitar que venha um novo 64. Mas é uma recusa modulada, como veremos (e deixo para o final porque é a parte mais importante e complexa).

Antes disso, porém, é preciso ter claro que o mesmo fantasma age também nas demais vozes. Desde as mais evidentes manifestações de saudosismo pela ditadura, que são muito maiores do que deveriam, mas não tão grandes quanto pensamos (como demonstram pesquisas conduzidas por Pablo Ortellado), até estranhos editoriais que repetem, quase ipsis litteris, conclamações golpistas – essas sim, inequivocamente – de outras eras.

É interessante, por exemplo, observar como, no caso de um fantasma do golpe, é difícil distinguir o desejo do medo. Assim, mesmo de pessoas que, com toda honestidade, participaram da última manifestação contra Dilma Rousseff com o espírito mais democrático e legalista possível, tenho ouvido a crença numa iminente ditadura de esquerda. “Querem implantar o comunismo”, ou algo assim.

Certamente, essa crença, para além da repetição do tema da “república sindical” que se temia em meios abastados nos anos 60, é fantasiosa, porque ignora o pouco que a cúpula do Executivo ainda detém do poder. (Cáspite, o vice-presidente está abertamente preparando seu próprio governo!) Não importa: em se tratando de desejo, o frisson de enfrentar um inimigo tenebroso e forte é incentivo mais que suficiente para deixar de lado a lucidez.

Só assim entendemos o vínculo entre a pessoa perfeitamente democrática que vai à manifestação dominical e seu colega menos respeitável de protesto, o fascistão que ataca gente na rua por vestir vermelho. As continuidades entre protestar na Paulista, usar camisa da CBF contra a corrupção, tirar selfies com PMs e dar bordoadas em transeuntes são tão relevantes quanto as descontinuidades. Afinal, qual foi o líder das oposições que, mais do que simplesmente lamentar, deu declarações desautorizando essa violência? Quando o intolerável é tolerado, já se vê que, na verdade, é desejado.

O problema é que, uma vez que o fantasma do golpe se instala, na forma mais ampla de um gosto pela ruptura institucional, a violência de rua aparece como efeito colateral ou traço incontrolável de uma situação que, “por si só”, é anárquica (não confundir com “anarquista”). No plano do desejo, o estado de conflagração é fato consumado. Afinal, a crença inquestionável não é a de que estamos em crise, mas de que “rumamos para o desastre”. E se rumamos para o desastre, é salve-se quem puder. O que, paremos para pensar: já é o desastre.

Por isso, também, é difícil não enxergar esse fantasma do golpe involuntariamente desejado no episódio das fotografias que algumas pessoas, na maior inocência (leia-se: ignorância) tiram com policiais militares durante manifestações. Afinal, com o perdão do trocadilho infame, trata-se da instituição que mais desfere golpes no Brasil. E, para além do trocadilho: é a instituição que está sempre flertando com o paralegal, e com muita facilidade sai do flerte para cair na paixão fogosa com o ilegal. Quando? Quando é necessário, em nome de uma ordem muito mais sólida que as leis…

Cá entre nós, mesmo os maiores defensores da ação das nossas PMs sabem disso, mas tentam obliterar essa consciência, porque reconhecem no íntimo que, sem a PM, nossa corrupção entranhada não tem como se sustentar. Nesse sentido, a expressão “quero meu país de volta” faz absolutamente todo sentido, em se tratando de um país onde qualquer dissidência se resolve na bala ou no cassetete. O fantasma está presente porque o inocente, alegre e despretensioso gesto de sorrir para fotos com brutamontes armados no meio da rua traz consigo o desejo de que as dissonâncias se resolvam de uma vez só, com um… golpe… seco e eficaz.

Por isso, foi com grande clarividência que o jornalista Bruno Torturra levantou um ponto fundamental: hoje, muito mais do que os militares, quem tem as condições e a mentalidade para realizar algo parecido com um golpe, no Brasil, são as polícias. (Mas golpe, aqui, não deve ser entendido cartesianamente, como o gesto súbito de bloquear as entradas da capital, tomar as rádios, declarar vaga a presidência etc. Assumir o controle de quem pode manifestar-se ou não, e até, como em alguns Estados, de como se vai estudar, já é golpe suficiente.)

É nas polícias militares que se concentra a imagem dessa solução violenta para o diferente, o desviante, o desconfortável. O policial é aquele que parece ter o poder e o direito (velado) de produzir a solução rápida e dolorosa para problemas vistos como terríveis. Vestindo um uniforme da ordem legal, engendra todo tipo de ilegalidade e desordem, para um lado, enquanto para o outro preserva a continuidade de um modo de existência. É o instrumento de um caos ordenado, esse oximoro com o qual os brasileiros temos muita familiaridade.

Nessa troca de afagos com uma instituição indispensável da nossa corrupção é que se deixa perceber que, na direita brasileira, existe mesmo o desejo de (desferir um) golpe. A incapacidade de se descolar da brutalidade é o gesto que mais desvenda o caráter autoritário e anti-democrático das “elites brasileiras”, e não sua vontade de derrubar a presidente. Isso é mera política.

1A: o desejo de estar por perto quando houver um golpe

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Antes de aprofundar o tema, ainda é preciso mencionar um terceiro ator que anda possuído por esse fantasma, e que responde pelo nome de Paulo Skaf. O presidente da Fiesp, até outro dia, podia ser considerado só mais um aproveitador – com sua candidatura ao governo estadual – ou um oportunista, com seu lance marqueteiro do pato de banheira. Mas o uso da fachada da federação industrial para exigir renúncia demonstra que o desejo recalcado por um meia-oitozinho do Escafe é poderoso, irresistível.

Afinal, as câmeras já devem estar até apontadas, esperando a hora de disseminar pelo país a imagem de mais um herói da redenção nacional. (Falei em redenção? Ops…) Aquele que teria vocação para ser um mero oportunista acaba se tornando muito mais que isso… por quê? Porque o fantasma está ali, rondando, pronto para moldar as manifestações do desejo, na figura de um desejo de repetir-se como golpe…

Escrevi esses parágrafos antes da publicação dos caríssimos anúncios de Skaf nos jornais brasileiros, usando dinheiro público, ou seja, extraído via impostos dos trabalhadores e empresários para ser entregue à Fiesp, que com ele deveria fazer serviços sociais, e não conspirações. Assim, o homem que não quer pagar o pato quer fazer os demais de patos. Mas, em nome de um objetivo maior, por que não deixar passar, não é mesmo?

2: o Desejo de Ser Golpeado

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De todos esses grupos, é claro que o mais fascinante é aquele com um desejo inconfesso não de dar um golpe, mas de sofrê-lo. Isto é, de constituir o sentido último de seus males como a formação de um golpe, atitude ilegítima contra uma instituição legítima. No caso do PT, a questão não está em responder se um eventual impeachment da presidenta seria essa atitude ilegítima, ou seja, um golpe. Isso será sempre discutível, considerando a lei brasileira de remoção de presidentes: é quase impossível que um processo desses observe estritamente o que está na lei. Torno a esse ponto adiante.

Mais interessante é pensar sobre o lugar do conceito de golpe nessa narrativa. Ao contrário do que pode parecer, ele não surge com a ameaça concreta da remoção de Dilma (por impeachment ou cassação da chapa, tanto faz). Algo dessa natureza está presente há muito tempo, no esforço de construção da imagem que faz da dupla Lula/Dilma uma espécie de novo governo Jango, cercado de uma matilha de direitistas golpistas enraivecidos, prontos para atacar ao primeiro cheiro de sangue.

Basta lembrar, por exemplo, das inúmeras evocações da idéia de lacerdismo durante o período eleitoral de 2010, sobretudo quando a campanha de José Serra buscou uma mensagem próxima ao conservadorismo católico, a gritaria anti-aborto etc. É bem verdade que estava se reproduzindo ali um velho topos da política brasileira, com o uso de pautas tradicionalistas como estratégia contra um alvo considerado progressista (contra tantas evidências!). Também é verdade que Lacerda foi o campeão dessa tática imbecil, que ainda por cima acabou por não lhe trazer nada do que queria. Tampouco é exclusividade brasileira. No entanto, justamente essa brecha permitiu que o governo do PT reforçasse sua imagem como coração da esquerda brasileira, em flagrante contradição com suas políticas e suas alianças.

Para além desse caso específico, já podemos ver que, na arquitetura da visão de mundo petista, a noção do golpe ocupa uma posição basilar. Essa centralidade decorre de um certo poder purgativo, até mesmo redentor, que ela detém. Necessariamente alguém que foi vítima de um golpe, de uma remoção forçada, de um conluio, é alguém gostável.

Por isso, o desejo de golpe, no caso petista, opera bem assim: sem a perspectiva de ser golpeado, o que é o governo Dilma? É um governo de apoio ao latifúndio (com seus corolários, o agrotóxico, o genocídio indígena, a dominação semi-coronelista da política em nível local), e ao extrativismo (está aí o Rio Doce que não me deixa mentir, mas o que dizer dos projetos de exportação de minério de Eike Batista? – aliás, lembra dele?), sem falar no flerte descarado com fundamentalistas religiosos cujo maior interesse não está na salvação da alma de ninguém.

Ou seja, um governo que, em nome de um desenvolvimentismo que não desenvolve coisa nenhuma, se coloca em aliança bastante incestuosa com o capitalismo mais clientelista. Ou seja, torna-se intermediário e fiador de uma brutal acumulação primitiva, fazendo da população e dos trabalhadores que lhe emprestam o nome a matéria-prima para um regime ao mesmo tempo rentista e especulativo.

No entanto, o petista alarmado com a chegada do golpe (alarmado, ou seja, motivado, mobilizado, eletrizado) continua a ver o atual governo como baluarte da esquerda brasileira contra o avanço das tropas fascistas. Como isso é possível? Certamente não é olhando para o próprio governo. Não é pela negociação de cargos no varejo, pela construção de Belo Monte, pela escolha de ministros, pela orientação das empresas estatais. Essa perspectiva só se justifica, só se realiza, na presença de um inimigo a ponto de golpear. O golpe é o único véu entre o governo Dilma e o espelho – ou, para usar uma imagem mais elegante: o retrato do Dorian Gray de Oscar Wilde.

Acontece que o golpe tranquiliza a consciência de quem ainda quer manter aquela alma petista dos bons tempos, ao estabelecer um contraponto assustador. Sem golpe, não há esquerda no governo e isso é insuportável para quem, considerando-se uma pessoa de esquerda, se mantém fiel ao partido. Por isso, a presença constante do golpe é indispensável; e é, assim, desejada, da mesma maneira como desejamos aquilo que tememos, uma vez que baseemos nossa existência nesse temor.

O desejo de quem vê o golpe vindo do outro lado tem, por isso, um componente de individuação. Ou seja, de constituir-se como sujeito dentro de um quadro de relações e graças à projeção desse desejo no mundo exterior. Aquele que está constantemente prestes a sofrer um golpe da direita – e não há dúvidas de que quem age com maior agressividade contra o PT, hoje, é a direita – só pode ser esquerda. Em consequência, pode exigir solidariedade de todos os demais e, com isso, aglutiná-los em sua órbita. “Como assim, não vai cerrar fileiras conosco, isentão?”; “Não percebe que está fazendo o jogo da direita?”; esses e outros bordões têm jorrado com tanta insistência quanto os gritos de “petralha” vindos do outro lado.

Esse pesadelo só não pode se concretizar, é claro. Aí a fantasia explode.

2A: O Desejo de Golpes Idos

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Falei do “não vai ter golpe” como expressão de uma esquerda sobre a qual sempre pende o fantasma de 64, quando a tensão nas ruas chegou a um nível ainda mais profundo do que o atual, mas, na hora do vamos ver, ela simplesmente não lutou. É bem verdade que a capitulação das esquerdas no Brasil em 64 tem muito a ver com a decisão pessoal de Jango, que não quis resistir, ao contrário de seu cunhado, disposto a repetir em escala ampliada a campanha da legalidade de 61. Os motivos para isso são discutíveis, da tal pusilanimidade do rancheiro à informação de que a Quarta Frota estava próxima à nossa costa. Pouco importa. O subtexto do “não vai ter golpe” é o tradicional “desta vez vai ser diferente”.

Assim, à primeira vista, o novo 64 desejado pelo inconsciente governista é aquele em que o grande capital tenta derrubar o governo popular e democrático, mas “desta vez” não consegue, porque o povo se subleva e garante que não haja golpe, ou que ele seja rapidamente abortado, como ocorreu na Venezuela em 2002.

E quem operaria essa resistência? Quem daria o sangue contra a derrubada do governo? Certamente não os movimentos sociais, cujo sangue só é derramado pelo governo à base de cassetete. Os sindicatos? Talvez cobrem caro demais, já que desta vez a exigência envolve correr riscos – fazer discurso em alto-falante com distorção não basta. A Odebrecht, possivelmente, mas na planilha dela não tem distinção de grupos políticos: tanto faz. O povo? Quer mais é ver o circo pegar fogo…

O golpe desejado seria, assim, um modo de expurgar não só a conversão do governo do PT às alianças com a direita coronelista e patrimonialista brasileira – alianças estas que foram muito além da mera Realpolitik, lá está Kátia Abreu que não me deixa mentir –, mas também a memória de uma queda sem resistência. Assim, um governo que, em matéria de reformismo e progressismo, foi em tudo oposto ao de João Goulart passa a ser visto por seus defensores como potencial corretor dos rumos da história, lutando onde o outro não lutou, resistindo onde o outro não resistiu, nem que seja só para cair de pé, bravamente.

Pouco realista? Isso é você que está pensando…

3 – Golpe: Fantasma e Desejo

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Mas afinal, objetivamente: o impeachment é golpe ou não é? Olhando por um lado, está certo o argumento da oposição, segundo o qual não há golpe se o processo seguir o devido trâmite; por outro, está certo o argumento da situação, para quem o uso das “pedaladas fiscais” é uma desculpa esfarrapada, no máximo um deus ex machina, para justificar a derrubada da presidente. Como escrevi em dezembro, é o problema do impeachment de Schrödinger.

O que há naquele texto que mereça ser repetido é que esse tipo de processo existe precisamente para situações como a atual, em que o problema não é jurídico, mas político; é a válvula (uma delas) pela qual a política acontece. (Naquele texto, falei das ambiguidades e dos rigores inalcançáveis da lei como uma das válvulas; outra era a atuação da polícia, sobretudo a militar; mas há muitas outras, e uma das mais importantes é a construção de sentido operada pelos meios de comunicação.)

Com seu componente de instrumento legal e seu componente de golpe político, o processo de impeachment é um sintoma de que as vias de operação do poder estão congestionadas. De um jeito ou de outro, seguindo a velha máxima de que a política tem horror ao vácuo, essas vias serão reabertas.

Não custa lembrar que quem tinha mais poder para reabrir essas vias a seu favor, até muito recentemente, era o governo (leia-se: o Executivo). No sistema político brasileiro, a presidenta da República detém muito, muito poder; ou, como se costuma dizer, “a caneta”. Dilma teve, é preciso estar consciente disso, todas as oportunidades do mundo para manter sua coalizão e abortar a ascensão do, vá lá, golpismo. Se não o fez, grande parte da culpa recai sobre sua própria incompetência política, sem falar no sufocamento atroz das mobilizações de esquerda que efetivamente houve no Brasil desde 2013.

Sem conseguir apoio no Congresso e tendo deixado as ruas completamente escancaradas para a direita, e uma direita bem tacanha, também desejante de golpes, o que Dilma e seus assessores mais próximos conseguiram foi concretizar aquele fantasma tão desejado: o golpe iminente. Repetindo: a situação não chegou a esse ponto simplesmente por causa de uma enorme mobilização anti-governista. Essa mobilização existe, mas só conseguiu ganhar corpo, só conseguiu obter apoios, porque foi alimentada pelo governo. Inclusive como fantasma: lembra da propaganda eleitoral de 2014?

Até mesmo Michel Temer, hoje conspirador, traidor, golpista abjeto, fez das tripas coração para salvar um governo que não queria ser salvo. Não haveria ruptura institucional, nem o menor risco de impeachment, se Dilma fizesse um único gesto acertado para evitá-los. Mas ela fez o oposto, ajudada por seus brilhantes assessores Mercadante, Cardozo e Wagner. De que adianta falar agora em golpe?

No fim, a incompetência foi tamanha que a situação provavelmente irá longe demais, com a concretização que, na estrutura da fantasia petista, não poderia ocorrer. Chegamos a um estado de soberania disputada, um ponto-chave eminentemente político, em que todas as forças são lançadas para dentro do jogo e todas as estruturas se tornam instrumentos. Desde o texto da lei até os textos de jornal, passando pela atuação da polícia, a “negociação no varejo dos cargos”, os púlpitos de igreja, os movimentos sociais.

A pergunta agora é: quais desses estão fortalecidos? Quais estão enfraquecidos? Quem os fortaleceu? Quem os enfraqueceu? Com golpe ou sem golpe, temo que a resposta a essas perguntas pinte uma imagem pouco favorável para o governo.

Quando o desejo de golpear e o desejo de ser golpeado coexistem, é fatal que, eventualmente, venham a convergir. A princípio, pode parecer que eles só se encontrem no infinito. Até o momento em que algo excepcional, uma crise, um governo inepto, uma investigação policial, desvia os fachos e os aproxima. Esse é o momento que estamos vivendo: uma espiral rumo ao abismo em que se entrelaçam tipos diferentes de fascínio pela ruptura, atualizando desejos de golpe e memórias de golpe.

4: O Cadáver Insepulto

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Como eu disse, o desejo inconsciente do golpe, a fantasia em relação a uma iminente intervenção extra-legal, o espectro que nos ronda, é indicativo de que temos entre nós um cadáver insepulto que atende pelo nome de “ditadura militar”. Isso quer dizer que nunca chegamos a encarar esse legado sobre nossas instituições e mesmo sobre nossas relações sociais cotidianas.

Não investigamos o suficiente, apesar da Comissão Nacional da Verdade, que recebeu muito menos holofotes (e fundos) do que merecia. Não punimos, e quando tivemos a chance de rever a lei de anistia, todo mundo com um pouco de poder foi contra. Ao fim, o STF a manteve, com os mais batidos e tristes argumentos.

Não repensamos instituições como a Polícia Militar. Continuamos aplicando leis produzidas pelo período autoritário (e, por extensão, ilegítimo); isso inclui o famigerado e grotesco uso da Lei de Segurança Nacional contra manifestantes em 2013. Damos ouvidos a gente que participou do exercício do regime de exceção. Mal e porcamente tivemos a coragem de retirar os nomes de tiranos das nossas ruas, e as tentativas nesse sentido foram muitas vezes recebidas com má vontade.

Para muita gente, ainda é perfeitamente aceitável a idéia de que a recusa terminante a uma ditadura só pode significar o apoio a alguma outra ditadura, o que parece indicar que a perspectiva de viver sob opressão não parece ser um grande problema para boa parte da população. De fato – e isso está muito claro em textos como o do historiador Bruno Alvaro, que nessas horas é quem “dá a real” do jeito mais poético –, a maior parte dos brasileiros ainda vive tal e qual na época da ditadura, com a mesma repressão, a mesma fluidez entre a legalidade e os crimes cometidos por agentes do Estado, as restrições a direitos básicos (e constitucionais) como a liberdade de ir e vir e a inviolabilidade do lar. Basta ser negro, pobre, índio. E se é para falar de estado de exceção, podemos dar nome e sobrenome: Rafael Braga Vieira, a grande vítima da supressão do levante de 2013.

A ditadura, no Brasil, pode estar desencarnada, se por “encarnar” entendemos o controle sobre o aparato do governo central. Mas morta, não está. A rigor, como fantasma, a ditadura pode até ser mais eficaz, por conseguir se imiscuir na mente de todos e, em grande medida, orientar o funcionamento das instituições e das relações cotidianas mesmo em democracia.

Assim sendo, o cerne do nosso problema não está em identificar o golpe aqui ou acolá, mas em entender que estamos agindo constantemente sob o signo do golpe. Não o que poderá vir, mas o que já aconteceu. Estamos revivendo essa experiência porque não a digerimos até hoje e estamos condenados a novas encenações de instabilidades institucionais, com lacerdismos, golpismos e tudo o mais a que temos direito. Não precisa ter golpe, porque no Brasil o golpe é ubíquo.

5: Um Posicionamento, Enfim

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Com tudo isso, devo dizer que minha posição pessoal é rigorosamente contrária ao impeachment de Dilma Rousseff, nas bases em que está para se dar. À parte o fato de que a base legal parece de fato não existir (mesmo se eu acabei de dizer que, no fundo, a base legal não é determinante); à parte também meu completo ceticismo de que algo de bom ainda poderá sair deste governo, caso ele se salve e permaneça até 2018; à parte, por fim, meu enorme pasmo diante da crença de que haverá alguma “guinada à esquerda” de uma administração apaixonada pelo concreto armado: acredito que o recurso ao impeachment é um erro histórico profundo, do qual o país ainda se arrependerá amargamente.

Como já apontado por muitos, o impeachment é um momento catártico cujo principal efeito (e os atores políticos que o tocam têm plena consciência disso) será o esvaziamento das atuais tensões no país. Por um lado, são tensões quase insuportáveis e queremos mesmo um pouco de calma para voltar a viver. A economia, por exemplo, agradeceria bastante, é forçoso admitir. Por outro, são tensões que mobilizam, obrigam à tomada de posição, favorecem rearticulações e desnudam as insuficiências da nossa sociedade, a começar pelo déficit democrático.

O impeachment seguramente serviria para costurar um acordo que entregaria o PT aos leões e livraria todos os demais implicados na Lava Jato, principalmente os do PMDB, maiores favorecidos com essa lama toda, e em seguida os do PSDB, que têm a vantagem de poder contar com a complacência da classe média e o apoio da classe mídia. A pessoa que defende o impeachment em nome da luta contra a corrupção pode até ser bem intencionada (algumas são, outras não), mas posso garantir que não tem a menor ideia do que está dizendo. (A bem intencionada, claro; a mal intencionada eu suponho que saiba até bem demais.)

Esse momento catártico é típico de um país que não quer assumir suas responsabilidades. O que nos faz falta não é uma solução sumária para o “problema Dilma”, o “problema Lula”, o “problema PT” ou “o problema desses safados todos que estão aí”. Precisamos é de constituir forças políticas bem articuladas, efetivamente ancoradas na nossa diversidade social, capazes de dialogar com a sociedade civil e extrair dela sua força de atuação. Partidos, movimentos e organizações, portanto, programáticos e propositivos. O impeachment nos trará o oposto disso.

É bem verdade que, no começo, a economia deve responder bem ao governo Temer e parecerá que as crises foram “solucionadas”, os erros do governo Dilma, apagados. Vamos possivelmente esquecer a tensão em que vivemos desde 2013, graças aos dois ou três anos de crescimento econômico moderado que poderão resultar daí e do sufocamento dos impulsos contestatórios nas ruas. Pautas agressivamente impopulares serão aprovadas e os porta-vozes do mercado, ingenuamente, vão comemorar.

O problema é que, daqui a poucos, muito poucos anos, quando esse arranjo bater de frente com as efetivas condições demográficas e sociais do Brasil, que mudaram muito nos últimos 20 anos, vamos ter esquecido de fazer o mais urgente: construir essas novas estruturas políticas.

Tendo transformado o Judiciário em ramo heróico do poder, vamos nos deparar com uma sociedade judicializada e policializada, o que não tem como ser bom: afinal, como bem sabemos, muitos juízes pensam que são Deus e os policiais, se não se acham deuses, certamente acreditam ser algum tipo de arcanjo Miguel. Mas isto é um país supostamente democrático, não é algum reino celestial.

Nesse sentido, e apenas nesse, o impeachment é certamente “um golpe”: no sentido clássico em que é sinônimo de bordoada. A vítima desse golpe não é Dilma, nem Lula, nem o PT, mas a paulatina constituição de um novo arranjo político, pós-88, pós-Odebrecht, para o Brasil. Algo muito importante, que ainda está nos estágios iniciais, mas seria ceifado ainda em botão. Algo que se pode divisar vagamente nos novos partidos (Rede, talvez Raiz, até mesmo, se bobear, esses partidos liberais que tentam se registrar) e no vigor de movimentos sociais autônomos como o das escolas. Tudo isso é muito recente e está em grande risco.

São esses que deveriam estar gritando contra um golpe, e não o PT.

Post-scriptum – Tantos Fantasmas

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Comecei o texto falando do golpe como o fantasma de um cadáver insepulto; mas logo me dei conta de que está longe de ser o único dos nossos fantasmas. É, certamente, o que mais atua nas nossas refregas políticas, sobretudo quando chegam ao ponto em que chegaram. Mas existem outros, dos quais, é bom lembrar, a própria ditadura é herdeira.

Por sinal, eu poderia dizer que os fantasmas são uma entidade dinástica, que vai se renovando a cada geração, adaptando-se às condições de cada época e, principalmente, acumulando forças, saberes, poderes; estendendo o alcance de sua atuação; reforçando os nós entre os diferentes pontos de assombração.

Segue uma breve lista de fantasmas, os cadáveres insepultos em que tropeçam todas as nossas iniciativas emancipatórias ou modernizadoras, isto é, nossas boas intenções. O genocídio indígena da colonização, que se traduz em genocídio indígena da república. O rentismo/extrativismo da economia, que vai de Duarte Coelho a Marcelo Odebrecht, passando por Percival Farquhar e os Setúbal. O patrimonialismo estamental, que joga por terra a já normalmente ineficaz distinção entre estado e mercado.

E o principal de todos, claro, evidentemente, sem sombra de dúvida: a escravidão. Está aí Joaquim Nabuco, que não me deixa mentir, e cujo prognóstico de que “a escravidão permanecerá por muito tempo a característica nacional do Brasil” aparece tatuado em baixo-relevo na testa de cada secretário de Educação, Segurança Pública, Transportes ou Habitação deste país.

Sendo assim, o golpe é fractal, ou seja, tem múltiplas dimensões que se dobram umas sobre as outras. Também por esse motivo, mais uma vez, é estéril discutir se há golpe ou não há, porque cada gesto, de cada lado, traz consigo uma fração de desejo de golpe, que também é uma encarnação do conflito inescapável que caracteriza um país como o nosso. Um conflito que é bem mais que luta de classes, porque envolve condições de vida e de ocupação do território transversais em relação à classe: envolvem raça, ascendência, sobrenome.

A ditadura, esse nosso fantasma mais recente, não foi derrubada, como se sabe. Caiu quando quis, vendo que tinha feito besteira na economia e percebendo que o apoio internacional esmaecia. Os militares garantiram o perdão para si próprios e ainda não vi nenhuma declaração oficial das Forças Armadas se retratando por lançar o país nas trevas por tanto tempo. Uma ditadura que, depois de golpear a esquerda, golpeou também a direita democrática (tão pálida no Brasil) e até a direita pouco democrática, como logo percebeu o pobre diabo do Lacerda.

Se hoje temos uma Constituição minimamente humanista, nós a devemos ao momento histórico único da redemocratização, não a algum espírito nacional ou coisa que o valha. Mesmo assim, a Constituinte foi marcada pelos péssimos augúrios do Centrão, germe do nosso pemedebismo, como apontado por Marcos Nobre, e termo que reaparece na nossa política pela via das tentativas do governo de se salvar. Triste sina.

Ataques ao progressismo da Carta esperavam apenas por um governo fraco e um sistema político esfrangalhado para se desvelar em toda sua força. É fácil de prever, como fiz acima, que a grande ofensiva virá com o governo do PMDB: Temer, Cunha, Renan, e nem quero pensar em quais sócios menores… São gente que não tem escrúpulos quando se trata de repartir o território e as forças produtivas.

Infelizmente, porém, a realidade é que a atual paralisia é muito mais favorável aos retrocessos. Com um Executivo em constante xeque e os movimentos sociais com a cabeça fixa no golpe, o Pântano, o Centrão, o exército de Cunha têm curso livre para agir, chantagear, extorquir. Para dar seus golpes constantes, institucionais, legais. Sim, enquanto uns desejam, temem e devaneiam com os golpes, outros os desferem.

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Fonte: Viana Diego https://vianadiego.wordpress.com/2016/03/31/golpes-e-desejos/

O que de fato divide os brasileiros (não é o impeachment)

O que de fato divide os brasileiros (não é o impeachment)

 “A defesa do impeachment se dá na mesma proporção em todas as classes sociais. Mas as razões de cada grupo para pedi-lo são diametralmente opostas” disse Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisas Data Popular

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Faz parte da retórica polarizada que tomou conta do debate político brasileiro contrapor  a vontade das elites à das classes populares em relação ao governo. Segundo essa lógica, só os ricos seriam a favor do impeachment, e os pobres, contra. Na prática, porém, não é assim que funciona. As pesquisas feitas pelo Datafolha nas manifestações pró e anti-governo mostram que até havia diferenças entre os dois grupos. Entre os pró-impeachment, 37% ganhavam mais do que 10 salários mínimos; entre os apoiadores de Dilma, 24% tinham a mesma renda. Nos protestos contra o governo, 12% eram empresários. Nos pró-Dilma, 15% eram funcionários públicos. Tanto numa como noutra manifestação, porém, perto de 80% dos manifestantes tinha ensino superior, cerca de 30% tinha carteira registrada, e mais da metade ganhava mais do que 5 salários mínimos. Do que se concluiu que, de um lado e de outro, quem estava na rua era parte significativa da elite. Poucos se deram ao trabalho de perguntar o que pensam da crise os que estão na base da pirâmide e não saíram de casa nem para tentar derrubar o governo, nem para apoiá-lo.

Esse é o trabalho do instituto de pesquisas Data Popular, que se especializou em compreender o que se passa na cabeça dos brasileiros com renda familiar abaixo de 3 500 reais por mês – as chamadas classes C, D e E. O Data Popular descobriu que os mais pobres não foram às manifestações porque, primeiro, as consideram “coisa de rico”. Depois, porque são totalmente descrentes dos partidos e do sistema político e não acreditam que a queda de Dilma Rousseff vá trazer mudanças radicais no panorama econômico e social. Quando se aprofunda a compreensão sobre o que pensa essa parcela da população, emerge o fator que realmente separa ricos de pobres. E não é o impeachment.

“A defesa do impeachment se dá na mesma proporção em todas as classes sociais. Mas as razões de cada grupo para pedi-lo são diametralmente opostas”, explica Renato Meirelles, presidente do instituto. “Os brasileiros estão bem menos divididos quanto ao impeachment do que sobre o que deve ser o futuro do país.” Segundo ele, a classe C está mais indignada com o encolhimento de benefícios como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Prouni e o Pronatec do que propriamente com a corrupção. “Para eles, a Dilma tem de sair porque não cumpriu os compromissos de campanha e não conseguiu ampliar esses benefícios.” Esse público, portanto, defende o Estado eficiente, mas provedor – que Meirelles chama de “estado vigoroso” –, enquanto nos estratos de maior renda ocorre justamente o oposto. “Os 20% mais ricos, em geral, querem um estado enxuto.” É aí que está o fosso ideológico que realmente importa, e é com esse tema que o país terá de lidar assim que o impasse do impeachment for resolvido. Como o Estado brasileiro está quebrado e o ajuste será inevitável, o embate fatalmente será traumático.

Na interpretação do presidente do Data Popular, o único fator capaz de atrair para os atos pró-impeachment o engajamento dos mais pobres seria um projeto ou um líder que representasse a promessa de melhoria no pós-Dilma. Mas não há sinal de algo do tipo no horizonte.  Em janeiro, o Data Popular perguntou a 3 500 pessoas de todas as classes sociais se conseguiriam dizer o nome de uma pessoa capaz de tirar o país da crise – 89% disseram que não seriam capazes.  Entre os 11% que apontaram algum nome, a maioria citou papa Francisco. Esses e outros dados que Meirelles apurou lhe dão a convicção de que o próximo presidente eleito no Brasil será alguém que nunca se candidatou.

Fonte: Revista Piauí

Por favor, onde posso me informar sobre a crise?

Por favor, onde posso me informar sobre a crise?

A crise política funcionou como agravante de uma situação que as pessoas já vinham sentindo quando entravam em alguma rede social e percebiam a avalanche de novos dados

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Esta é a pergunta que mais tenho escutado nos últimos dias durante conversas pela internet e em debates públicos ou de botequim. Impressiona a quantidade de brasileiros confusos e desorientados diante de uma batalha informativa que aumenta de intensidade a cada dia e cujo desfecho não é possível vislumbrar. É o drama vivido por pessoas que não vestiram nenhuma camiseta partidária e que sofrem as consequências de um turbilhão de versões e contra- versões difundidas freneticamente por uma imprensa que perdeu o senso de isenção.

Para tentar dar uma resposta aos milhares de leitores perplexos é necessário primeiro entender por que as pessoas estão vivendo este tipo de preocupação hoje . A desorientação informativa tem duas causas principais: uma estrutural, a mudança nos hábitos, comportamentos e valores informativos provocada pela internet, redes sociais, blogs e outros sistemas que dão às pessoas o poder de publicar suas opiniões e informações; e uma causa conjuntural, provocada pela crise político/partidária que estamos vivendo no Brasil e que gerou uma polarização ideológica nos veículos de comunicação do país.

A crise política funcionou como agravante de uma situação que as pessoas já vinham sentindo quando entravam em alguma rede social e percebiam a avalanche de novos dados, fatos e eventos que desafiam a capacidade de compreensão e contextualização, ou seja, de transformá-los em informações capazes de orientar nossos comportamentos.

O tsunami noticioso

A guerra de versões e contra-versões já existia em crises anteriores, como o golpe de 1964 e o impeachment de Collor, mas os protagonistas da guerra informativa se resumiam a uns poucos jornais, uma dúzia de emissoras de rádio e não mais de três redes de televisão. Agora há quase 100 milhões de brasileiros com acesso à rede social Facebook, onde se informam e opinam sobre os fatos de atualidade. Cerca de 25 milhões dos internautas tupiniquins visitam diariamente blogs noticiosos, um número muito maior do que a soma de todos os leitores de todos os jornais e revistas publicados no país. O resultado inevitável é uma mega cacofonia informativa.

A busca de resposta para a pergunta do título implica num mergulho em um dos mais complexos dilemas da nova era informativa que estamos vivendo. As pessoas estão procurando uma referência, uma espécie de oráculo informativo no qual possam confiar integralmente. Mas a dura realidade é que este oráculo não existe, o que nos leva a ser contaminados pela sensação de que vivemos no meio de um caos informativo. As pessoas procuram certezas mas só encontram dúvidas.

Fomos, em grande parte, educados na tradição cristã de que há uma verdade absoluta. Os antigos acreditavam que ela emanava de divindades. Hoje, a cultura ocidental tende a transferir a certeza informativa para empresas, como jornais, e instituições como os tribunais, juízes e cortes supremas. No entanto, depois da revolução nas tecnologias de informação provocada pela internet, até esta certeza começou a ser posta em dúvida graças à divulgação massiva de dados, fatos, eventos e processos antes ocultos sob o manto do sigilo e da omissão noticiosa.

A ilusão da verdade absoluta

O certo é que perdemos o conforto de depositar em alguém ou em alguma instituição a tarefa de nos dizer o que é certo ou errado, justo ou injusto, necessário ou supérfluo. E na atual conjuntura de crise nacional, não temos nem um jornal plenamente confiável e nem uma televisão acima de qualquer suspeita. Não podemos nem mais acreditar no que dizem governantes, políticos, magistrados, pesquisadores e líderes religiosos. Suas declarações e ações respondem a interesses ou estratégias partidárias e nos faltam elementos para identificá-los e compreendê-los.

As pessoas comuns sentem os efeitos da insegurança informativa de forma diferente. Quem vestiu a camiseta partidária tem menos preocupações porque de certa forma transferiu suas dúvidas para uma instituição ou liderança. O que o partido ou dirigente partidário decidirem, é o que vale e é verdadeiro. Já os que não militam em organizações políticas e decidiram pensar pela própria cabeça estão mergulhados na incerteza, que é angustiante e que motiva a pergunta do início deste artigo.

Para respondê-la é necessário primeiro admitir que não podemos nos informar lendo apenas um jornal, uma revista ou assistindo apenas a um telejornal ou só os blogs com os quais concordamos politicamente. A diversidade de fontes é hoje mais importante do que nunca por causa da avalanche de informações publicadas diariamente em todos os veículos de comunicação, tanto os impressos e audiovisuais, como os da internet. É o que dizem os pesquisadores científicos, talvez aqueles que mais dependem de informação confiável e exata para poder desempenhar seu trabalho.

Evidentemente são pouquíssimas as pessoas que dispõem de tempo para ler diariamente vários jornais, revistas, assistir diferentes telejornais e passar várias horas na internet navegando por sites noticiosos. Mas o pouco que cada um sabe pode se transformar num belo acervo informativo quando compartilhado em grupos ou comunidades sociais. É o que está acontecendo em países onde a avalanche informativa é mais intensa, como os Estados Unidos.

Apanhadas no meio do fogo cruzado da batalha informativa as pessoas buscam nas conversas e debates com vizinhos, colegas ou amigos a forma de compensar a angústia por não terem condições de entender o que está acontecendo. Os que já praticam esta modalidade de captação, processamento e difusão de notícias sabem que é inviável chegar a certezas absolutas. Mas pelo menos a angústia diminui.

A produção colaborativa de informações não é mais um jargão exclusivamente jornalístico pois está sendo adotado também por grupos de cidadãos que já sentem na carne a necessidade de mudar comportamentos e valores na hora de se informar. Estamos sendo obrigados a reaprender a ler uma notícia porque suas causas e consequências passam a ser mais importantes do que o fato, dado ou evento noticiado . Também estamos sendo forçados a trocar nossos valores individualistas pela colaboração. Para nos informar visando formar opiniões pessoais, precisamos agora mais do que nunca conversar com outras pessoas e ouvir delas os dados e informações de que não dispomos.

Talvez esta não seja a resposta que muitos esperavam, mas é a melhor que se pode dar no contexto atual.

Fonte: Observatório da Imprensa

E se o problema também estiver no lado do público?

E se o problema também estiver no lado do público?

Quem é de fato o leitor contemporâneo? E será mesmo que o cliente sempre tem razão? Com a proposta de “nem canonizar o leitor e nem isentar a imprensa de erro”, o jornalista Leonardo Rodrigues oferece outra abordagem para a crise da mídia.

A imprensa e os meios de comunicação vivem dias difíceis. Em época de quebra de paradigmas, a classe assiste a uma tendência de demissões de colegas, fechamento de jornais, revistas e rádios, ao aumento da desconfiança em detrimento da credibilidade e, principalmente, à falta de rumo.

Os tempos são árduos, não apenas para entender, mas explicar, ou ainda propor direções que possam reverter o quadro. Análises se multiplicam quase na mesma velocidade que problemas. Porém, há um certo ponto de partida velado, uma linha de raciocínio no inconsciente dos comunicadores: a canonização do leitor. Pode ser algo herdado de um pensamento comercial, em que o mote é “o cliente sempre tem razão”. Mas, a verdade é que o
esforço em buscar um horizonte ensolarado para a mídia parte sempre da mesma premissa.
E se o problema estiver na demanda? Afirmar pode ser precipitado, mas descartar também pode ser um erro. Fique à vontade em discordar, mas, por favor, não me condene a um extremo: canoniza-se o leitor ou isenta-se a imprensa de erros. Nenhum, nem outro. A ideia é observar por outro prisma.

Não foram apenas as ferramentas e estruturas dos veículos de comunicação que mudaram. Não se trata apenas de uma escala de evolução traduzida em um infográfico que apresenta pinturas rupestres, escritas em carvão, papiro, máquina de escrever, até ao smartphone. Claro, os meios mudaram, mas o processo base da comunicação (emissor e receptor), não. Lógico que há ruídos e outros elementos, mas a base é a mesma.

O receptor é diferente. Perfil, mentalidade, forma de processar a informação, bagagem de conhecimento já são outros. O que era singular, se pluralizou. Se antes destacava-se quem acumulava conhecimento, hoje, é quem seleciona e foca no que entende ser pertinente.

A queda na busca por informação pelos canais tradicionais potencializa a criação de novos meios, que em “tentativa e erro” comprovam sua eficácia. Mas há algum indício que possa traçar o perfil do leitor contemporâneo?

Em 2014, a pesquisa “Argumentação, Livro Didático e Discurso Jornalístico, Vozes Que se Cruzam na Disputa pelo Dizer e Silenciar” atestou que alunos brasileiros não sabem argumentar. A dificuldade desta geração seria em expor ideias, sustentar pontos de vista próprios em redações e criar teses que se tornam tarefas árduas para os estudantes do Ensino Médio.

A pesquisa serviu como tese de mestrado para a pedagoga Noemi Lemes na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Ela analisou livros didáticos e redações produzidas por alunos do terceiro ano do Ensino Médio de escolas públicas. Foi constatado que a dificuldade está, em grande parte, ligada ao modo como os materiais de apoio abordam a argumentação, usando quase exclusivamente como exemplos produções da imprensa.
“Quase sempre é apresentado um único texto jornalístico sobre determinado assunto, expressando um ponto de vista que os alunos tendem a reproduzir”, explica. A conclusão não condena a imprensa exclusivamente, mas destaca sua influência. Esse novo leitor não pode ser considerado apenas fruto de experiências e más escolhas da mídia, como um Frankenstein.

Antes, o problema também passa pela Educação. Na pesquisa, especialistas apontaram que a ausência, nas escolas, de embasamento teórico mais profundo como um dos responsáveis por esse processo de causa e efeito. Segundo a autora, Noemi sugere mesclar ciência, filosofia e literatura como um caminho mais consistente na formação de educandos (e consequentemente de novos leitores).

Outro trabalho acadêmico, concluído em 2012, indica que mais da metade dos universitários são analfabetos funcionais. Segundo a pesquisa da Universidade Católica de Brasília, mais de 50% dos cerca de 800 estudantes avaliados sofrem com o analfabetismo funcional. Não conseguem compreender o que leem.

Universitários de seis cursos diferentes em quatro faculdades foram avaliados. A pesquisa analisou modo de estudar, o tempo de dedicação, características socioculturais e formação. A conclusão é que muitos universitários entram na faculdade sem ter o hábito de estudo, aprenderam o conteúdo de forma superficial, costumam decorar ao invés de entender e muitos são analfabetos funcionais.

Novos produtos de qualidade no mercado de mídia não dependem apenas do desenvolvimento de tecnologias. Passam também por uma reforma educacional com o objetivo de erradicar a ignorância. Assim, quem sabe, a imprensa possa ser cobrada por trabalhos com profundidade, e não apenas porque leitores possam estar insatisfeitos por estarem inchados com informações de redes sociais.

***

Fonte: texto de Leonardo Rodrigues, jornalista e chargista. Observatório da Imprensa, 27/02/2016, edição 891. http://observatoriodaimprensa.com.br/crise-na-imprensa/e-se-o-problema-tambem-estiver-no-lado-do-publico/

10 erros imperdoáveis ao gerenciar uma crise

10 erros imperdoáveis ao gerenciar uma crise

No último dia 5 de fevereiro, a jovem Júia Velo publicou um texto no Facebook em que acusava o bar Quitandinha, em São Paulo, de ter sido conivente com o assédio que ela e uma amiga teriam sofrido no estabelecimento, na noite anterior. A declaração, que já chegou a 140.000 compartilhamentos, rapidamente fez a página do local na rede social de Mark Zuckerberg virar alvo de protestos. No dia seguinte, pressionada, a empresa fez sua primeira declaração oficial, que, em vez de melhorar as coisas, provocou ainda mais críticas e agravou o problema. A partir daí, foram mais cinco publicações tentando se explicar, uma mais desastrosa do que a outra em termos de repercussão.

“Transformaram barulho em crise”, afirma Camila Porto, coach de marketing digital e autora do livro “Facebook Marketing: Como Gerar Negócios na Maior Rede Social do Mundo”. De acordo com a especialista, o que antes era uma reclamação de uma cliente virou algo muito maior porque, de cara, a empresa não soube lidar com a situação de maneira amistosa. “É preciso entender que o Quitandinha é uma marca, enquanto a cliente insatisfeita é uma pessoa. Não dá para lidar com o caso de qualquer forma”, afirma João José Forni, consultor de comunicação e professor de pós-graduação em comunicação pública.

Erros na hora de gerenciar uma crise são mais comuns do que se imagina, especialmente, em pequenas empresas, que muitas vezes não contam com ajuda profissional. “Um problema mal gerido pode virar uma bola de neve”, afirma Camila.

Veja 10 erros que devem ser evitados a qualquer custo na hora de gerenciar uma crise:

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1 – Dar a primeira resposta de qualquer forma

A primeira resposta é sempre a mais importante, especialmente, em tempos de internet e redes sociais, em que tudo é reproduzido e compartilhado. “Sempre dê uma resposta rápida e neutra”, aconselha Camila. Desta forma, a empresa mostra aos clientes e interessados que está ciente do problema. “Quando é publicado no Facebook, não há mais controle. A atitude tomada nos primeiros minutos define o resto das estratégias e como as pessoas vão encarar a polêmica”, explica Forni.

De acordo com o professor, o caso do Quitandinha piorou muito após a “desastrosa” primeira resposta, em que o bar diz estranhar o relato. “Quando você tem uma marca e alguém faz uma acusação, você não entra na briga, você preserva a sua imagem, a sua reputação”, continua Fonir. “Todo o problema – e até a história de uma empresa – pode mudar a partir da reação inicial.”

 

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2 – Agir com emoção

Não se administra nada pela emoção. Como uma empresa, todas as atitudes têm de ser tomadas de forma racional e planejada. “Não adianta ficar com raiva do cliente”, argumenta Forni. Ao dar respostas mais acaloradas, tudo o que a empresa faz é aumentar o debate e, consequentemente, os riscos de afetar sua imagem.

De acordo com Camila, este erro é mais comum em empresas menores. “O dono às vezes leva para o lado pessoal porque seu nome está diretamente envolvido.” Esta confusão pode fazer com que o responsável cometa o erro de responder de forma pessoal algo que deveria ser encarado como uma questão corporativa.

 

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3 – Não pedir desculpas

“Pedir desculpas não é humilhação para ninguém. Pelo contrário, é algo muito bacana”, afirma o professor. Não se desculpar sobre o possível erro passa a mensagem de que a empresa não está aberta ao diálogo. “É preciso pedir desculpas, pelo menos, pela experiência negativa do cliente”, completa Camila. “Quando assume que errou, você se mostra disponível.” Isso faz com que aumente o número de interessados em ouvir a sua mensagem.

 

 

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4 – Terceirizar responsabilidades

“A primeira reação do bar foi dizer: ‘Aqui nunca aconteceu isso’. Isso é colocar a culpa em terceiros”, explica Camila. Forni cita o exemplo da mineradora Vale no caso do desastre ambiental em Mariana (MG). “Assim que aconteceu a tragédia, uma nota no site da empresa transferia todas as responsabilidades para a Samarco. Parecia que ela queria tirar o corpo fora”, diz o professor. Esta é uma imagem que você certamente não vai querer ter da sua companhia.

 

 

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5 – Entrar na briga

Pior do que não pedir desculpas é confrontar o consumidor publicamente. “Nem sempre o cliente tem razão, mas a opinião dele é importante”, afirma Camila. Na última segunda-feira (15), o bar publicou em vídeo de oito minutos em que alterna imagens de câmeras internas e a acusação da jovem na Facebook enquanto questiona os fatos. “É lamentável, pode até dar a entender que o conteúdo foi editado a favor da empresa”, afirma Forni. “O certo era ter chamado a cliente e conversado em um canal privado”, completa Camila.

A especialista lembra de um caso parecido, ocorrido em Curitiba. Um cliente foi às redes sociais reclamar do serviço de um restaurante. “Normal, todos estão suscetíveis a isso.” O dono do estabelecimento decidiu, então, questioná-lo publicamente. O caso acabou ganhando proporções muito maiores e o proprietário teve muito mais respostas a dar. Em vez de brigar com o cliente, procure expor suas qualidades e esforços para resolver a questão.

 

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6 – Demorar a tomar uma atitude

No dia 14 de fevereiro, dez dias e algumas postagens depois da acusação, o bar mudou sua imagem de capa do Facebook para a frase: “O Quitandinha é contra o assédio e toda forma de agressão!”. No entanto, de acordo com Forni, “o estrago já estava feito”. Como já foi dito, o tempo é um fator importante. “Quando eu trabalhava no Banco do Brasil, algum tempo atrás, tinha uma, duas semanas para elaborar a resposta, agora não é mais assim.” Quanto mais você demora para tomar uma atitude, menos as pessoas irão acreditar na veracidade dela.

 

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7 – Ser arrogante

É preciso ter humildade. “Seja uma multinacional, seja o bar mais importante do país: nenhuma empresa pode se apoiar na soberba”, afirma o professor. “Não basta ter tradição e clientes fiéis.”

Forni cita o caso da rede norte-americana Wendy’s. Há dez anos, uma mulher afirmou ter encontrado um dedo humano em uma sopa servida na loja. “A empresa, a princípio, pediu desculpas e disse que tomaria as atitudes cabíveis. Na semana seguinte, perdeu US$ 2 milhões em faturamento, mas manteve a posição de reiterar suas medidas higiênicas.” Meses depois, descobriu-se que a cliente e seu marido tinham forjado a situação reclamada. “Eles foram presos e a companhia saiu fortalecida do episódio. Por isso, ainda que você não saiba o que aconteceu, assuma a responsabilidade de, pelo menos, apurar o caso.”

 

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8 – Ameaçar quem acusa com um processo

“Há o tempo da opinião pública e o tempo do processo jurídico: a primeira é imediata, e o segundo, com toda a papelada, pode demorar meses. Nenhuma marca tem esse tempo”, explica Forni.

Diferentemente do que fez a rede Wendy’s, já em sua primeira resposta no Facebook, o Quitandinha afirmou que tudo seria encaminhado ao departamento jurídico “para tomar as devidas providências e mostrar a verdade dos fatos, esses que terão que ser provados, caso contrário, será movido um processo por difamação e calúnia”. O consultor considera este um erro grande, já que, em vez de indicar que a empresa está aberta ao diálogo, colocou-a na defensiva. “Se a história é verdadeira ou não, cabe à Justiça. O estabelecimento tem de preservar sua imagem.”

 

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9 – Ignorar a força das redes sociais

De acordo com Camila, as mídias sociais, em especial o Facebook, aumentaram a possibilidade de voz dos consumidores. “Os murais das empresas viraram uma plataforma de debate.” Ao ignorar a força dos compartilhamentos, o problema pode ficar incontrolável. “É o efeito manada, muitas pessoas vão passar para a frente sem nem sequer entender a história inteira. É inútil querer brigar contra isso”, afirma o professor.

Mais uma vez, é preciso tomar cuidado para dar, de forma rápida, a resposta mais neutra possível, e não fingir que o problema não existe.

 

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10 – Não recorrer à ajuda profissional

Por mais que você tenha um pequeno negócio, como um bar ou uma loja, e não precise de uma assessoria de comunicação diariamente, é indicado que recorra a uma ajuda profissional em casos como este. Alguém contratado, com olhar mais apurado e sem envolvimento emocional, pode ajudar a tomar decisões técnicas e compatíveis com um perfil corporativo.

 

 

 

Fonte: Forbes

A democracia não cabe no orçamento?

A democracia não cabe no orçamento?

Crise econômica e política. Nunca se falou tanto no noticiário no ano de 2015. Nem sempre contrapontos e visões distintas foram inseridos no fluxo de informações e opiniões. No que diz respeito à comunicação com a sociedade, “a criação de um clima de crise fiscal e econômica ganhou a batalha”, observa o economista Eduardo Fagnani (Unicamp).

No download (acima), na contramão do noticiário dominante, um grupo de especialistas critica o ajuste recessivo pelo potencial de criar novo ciclo de desigualdades. Enfrentando e recusando as teses governamentais e de setores da oposição, a “Revista Política Social e Desenvolvimento” traz o tema: “A democracia não cabe no orçamento”?.

 “É de ajuste social que esse país precisa”, escreve com veemência Lucia Cortes da Silva, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, no artigo “Em busca de uma solução democrática para o ajuste social necessário”.

A descontrução do “mito da gastança e erro da política fiscal” é o foco central dos economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Sérgio Wulff Gobetti e Rodrigo Orair, no artigo “Fatos e versões sobre política fiscal”.

Por fim, o economista Eduardo Fagani ressalta, em “O capital contra a cidadania”, que “sempre esteve em jogo o fato de que as elites jamais aceitaram que o movimento social capturasse uma parcela do orçamento do Governo Federal (cerca de 10% do PIB), a maior parte concentrada na Previdência Social (8% do PIB)”.

Nesses tempos bicudos, vale a leitura.

Revista Política Social e Desenvolvimento – Ano 3 – dezembro de 2015