Quais as implicações da ferramenta que permite trocar rostos em vídeos

Quais as implicações da ferramenta que permite trocar rostos em vídeos

Proliferação de ‘deepfakes’, vídeos falsos gerados por algoritmo, traz à tona questões de consentimento e autenticidade da imagem digital

 

Quando o termo “pós-verdade” foi eleito a palavra do ano pelo dicionário Oxford em 2016, o principal foco da discussão era proliferação de notícias falsas e a desvalorização dos fatos no debate político, que estariam perdendo espaço para boatos.

O universo das fakes news vem ganhando uma nova dimensão em 2018: vídeos falsos tem atingido, recentemente, enorme popularidade em tópicos da rede social Reddit. Dados do Google Trends mostram picos em busca por esse conteúdo em meados de dezembro de 2017 e no fim de janeiro e início de fevereiro em 2018.

Chamados de “deepfakes“, os vídeos em questão são gerados pela aplicação de uma tecnologia semelhante ao “face swap” (troca de rostos, em tradução livre) utilizado no Instagram e em outras redes.

O algoritmo tem sido usado para sobrepor rostos de personalidades femininas, como os da atrizes Emma Watson, Gal Gadot e Natalie Portman, ao de pessoas em vídeos pornográficos.  O resultado, como define uma transmissão da rádio pública americana NPR, podem ser vídeos falsos altamente realistas.

“O que acontece com questão de consentimento quando vídeos como esses proliferam na internet? E quais as implicações para a integridade de qualquer vídeo na era digital?”, questiona uma reportagem publicada em 31 de janeiro pelo site Vox.

 

Como começou

A “mania” dos deepfakes foi reportada pelo primeiro portal de tecnologia da Vice, o Motherboard, em uma reportagem publicada em dezembro de 2017.

“Pornô falso com celebridades, em que imagens são ‘photoshopadas‘ para parecer que pessoas famosas estão posando nuas, é uma categoria de pornografia que já tem anos de idade e uma base de fãs fervorosa”, escreveu a editora Samantha Gole em um primeiro texto sobre o assunto, que se desdobraria em vários outros. “Este [os deepfakes] são o mais novo avanço desse gênero”.

De fato, segundo a reportagem da Vox, o tópico CelebFakes, dedicado ao compartilhamento desse tipo de imagem, existe desde 2011 no Reddit, onde conta com mais de 50 mil seguidores.

A “evolução” teria vindo de um dos usuários dessa comunidade. No fim de setembro de 2017, um usuário chamado “deepfakes” postou uma série de vídeos em um tópico que pedia imagens alteradas da atriz de “Game of Thrones” Maisie Williams. A ferramenta nova surpreendeu outros usuários e acabou gerando um tópico especializado nesse tipo de material, batizado de deepfakes.

A pedidos, ele compartilhou a programação de scripts usada para a sobreposição de rostos no vídeo. Com o tempo, outros programadores do tópico foram aprimorando o algoritmo para criar trocas cada vez mais convincentes.

 

Como funciona

Baseado em aprendizado de máquina, o algoritmo é “treinado” pelo processamento de centenas de fotos do rosto de uma pessoa.

É por isso que atores e atrizes conhecidos são alvos fáceis: qualquer pesquisa online fornece um banco de imagens volumoso o suficiente para abastecer o algoritmo.

Conforme essa tecnologia se torna mais avançada e acessível, no entanto, rostos menos conhecidos podem se tornar vítimas dos vídeos falsos, segundo a NPR.

Desde que se tenha uma quantidade suficiente de fotos, os deepfakes podem facilmente ser feitos a partir do perfil de qualquer pessoa no Facebook ou Instagram, disse a editora do Motherboard, Samantha Cole, à emissora.

Não é mais preciso te conhecimento de programação para gerar deepfakes. Aplicativos já estão “democratizando” essa tecnologia.

 

Consequências

O título da reportagem da Vox se refere aos deepfakes como um “prenúncio de distopia”.

“Esse novo tipo de pornô falso mostra que estamos prestes a viver em um mundo no qual é trivialmente fácil fabricar vídeos críveis de pessoas fazendo e dizendo coisas que elas nunca fizeram ou disseram, escreveu Cole no Motherboard.

Em entrevista à NPR, Cole diz que celebridades atingidas por esse tipo de prática podem processar por apropriação indevida de sua imagem. Pessoas comuns, porém, teriam menos recursos para lidar com isso, uma vez que, segundo ela, a tecnologia tem andado mais rápido que a lei.

Para além do enquadramento legal da criação desse tipo de vídeo, expurgá-lo da rede depois de compartilhado é extremamente difícil. É possível solicitar que as imagens sejam retiradas de plataformas mainstream, como Giphy e mesmo o Pornhub, e consegui-lo com certa rapidez.

Mas sites mais obscuros não têm nenhum tipo de regulação para combater a prática de regulação para combater a prática de revenge porn (pornografia de vingança, em português), a divulgação sem consentimento de imagens íntimas.

“Embora a gente não tenha uma lei específica sobre revenge porn, [no Brasil] esses casos poderiam ser enquadrados no código penal como injúria ou difamação”, disse Natália Neris, coordenadora da área Desigualdades e Identidades do InternetLab, em entrevista ao Nexo. “Também se poderia mobilizar o código civil, entrando com algum pedido de indenização por danos morais.”

A preocupação maior de especialistas e outros, porém, é que os vídeos com face swap se disseminem como uma nova forma de violência sexual virtual contra mulheres.

Com selfies armazenadas voluntariamente em nuvens como o Google Photos, bases de dados dos rostos de muita gente estão sendo criadas e expandidas cotidianamente. Entre 2015 e 2016, 24 bilhões de selfies foram salvas na plataforma, segundo o Google.

“Não é difícil de imaginar um programador amador usando seu próprio logaritmo para criar uma ‘sex tape’ de alguém que ele queira assediar”, projetava Samantha Cole em dezembro.

Em uma nova reportagem publicada no fim de janeiro, Cole já tratava dessa forma de assédio como realidade. Ela monitorou tópicos com vídeos pornográficos falsos envolvendo conhecidas, amigas, ex-namoradas e colegas de classe.

Em entrevista a Cole em dezembro, a atriz pornográfica Grace Evangeline levantou que a questão ética principal em torno dos deepfakes está no consentimento. “Criar cenas de sexo falsas de celebridades tira o consentimento dessas pessoas. É errado.”

 

Fonte: Nexo.

Resposta ao Estadão: em defesa da EBC e da comunicação pública

Resposta ao Estadão: em defesa da EBC e da comunicação pública

Em editorial publicado no último dia 10 de janeiro, o jornal Estado de S. Paulo disse querer discutir o futuro da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) – gestora dos veículos públicos TV Brasil, Rádios Nacional e MEC e Agência Brasil – tendo como foco o “interesse público”. Esse texto foi enviado no dia 12 como resposta e propondo uma ampliação do debate sobre o assunto no jornal. Mas após questionamentos diários da publicação, somente nesta terça (16) o Estadão retornou negando a publicação.

A “boa intenção” inicial do jornal paulista apenas utilizou de simplórios argumentos para o ataque ao governo de Lula que foi de quem partiu a iniciativa de criação do sistema público de comunicação previsto na Constituição Federal de 1988.

O Estadão tenta de todas as formas associar a criação da empresa pública a uma estratégia do então presidente Lula de atacar a grande imprensa tupiniquim. O jornal ignora que desde o processo constituinte, entidades da sociedade civil e representações de jornalistas e radialistas lutam pela constituição de uma comunicação social independente de interesses do mercado e dos governos de plantão. E esse movimento da sociedade que inclusive alavancou a criação da EBC em 2007, com apoio de diversos segmentos culturais e sociais em fóruns abertos e públicos.

Para justiça histórica, entre 2007 e 2014, só governo comandado pelo PT destinou cerca de 50% de mais recursos para o Grupo Globo do que para EBC (R$3,8 bilhões para Globo x R$2,5 bilhões para EBC). Se comparado a todos os outros veículos de mídia, os investimentos na EBC foram insignificantes “como concorrente da imprensa comercial”.

Os Mesquitas ignoram no editorial publicado os ataques cometidos pelo governo de Michel Temer à EBC, com a destruição do Conselho Curador da EBC, órgão que zelava pela autonomia da empresa pública, através de Medida Provisória, levando a asfixia financeira que a comunicação pública federal vive hoje. Quase 50% dos recursos de investimento da empresa pública foram contingenciados por Temer em 2017. Mesmo tendo ao menos R$ 2 bilhões previstos em lei para EBC sendo alvo de disputa judicial e outros R$ 1,5 bilhões contingenciados pelo governo.

Temer e seus asseclas, incluindo Larte Rimoli, atual presidente da estatal e aliado de primeira hora de Aécio Neves e Eduardo Cunha e investigado por racismo, diariamente buscam destruir o que restou de público na EBC, com perseguição aos jornalistas e radialistas que buscam diariamente cumprir a missão definida em lei para a EBC e total descompromisso em manter a estrutura da empresa.

O jornal reforça a visão que a EBC se resume a TV Brasil, que ainda cumpre um pequeno papel complementar frente ao monopólio privado que existe no sistema de TV do país. Omite inclusive que o próprio Estadão utiliza do próprio conteúdo da Agência Brasil, que é replicado por todos os veículos do país, a partir do seu material gratuito e de qualidade. Esquece que na atual gestão de Rimoli a histórica Rádio Nacional da Amazônia ficou quase um ano fora do ar e hoje chega a região mais isolada do país através de remendos técnicos.

Como afirmado pelo Estadão, a população brasileira sofre pela não existência de um sistema público forte e consolidado, ainda vivendo à mercê do coronelismo eletrônico que controla grande parte da mídia nacional, incluindo o próprio jornal da família Mesquita.

Mesmo sem recursos e impedida de cumprir sua missão pública por Temer, a EBC ainda sobrevive de forma relevante para seus milhões de ouvintes, telespectadores e internautas. O que ela precisa é seus recursos previstos em lei seja justamente destinados a informação pública. Além de fortalecer os instrumentos de participação social, como a reinstalação de seu conselho curador, ainda mais empoderado, garantindo que não ocorra nenhum desvio de sua função pública.

 

Texto: Gésio Passos.
Fonte: Jornal GGN.

Sete golpes contra a democracia nas comunicações em 2017

Sete golpes contra a democracia nas comunicações em 2017
Como a crise política e a nova linha do governo impactaram o exercício da liberdade de expressão e as políticas públicas de comunicação no Brasil

O aprofundamento da crise no Brasil, a partir da dificuldade de sustentação do governo ilegítimo de Michel Temer, somado às orientações políticas que vieram do Planalto, impactaram seriamente o direito à comunicação e o exercício da liberdade de expressão no País em 2017.

Práticas como o uso político das concessões de radiodifusão e a privatização das telecomunicações se intensificaram, ao mesmo tempo em que políticas públicas de comunicação foram desmontadas e abriu-se espaço para a intervenção estatal na gestão da Internet no Brasil.

Confira abaixo sete episódios em que políticos – seja no Congresso ou no governo federal – golpearam ainda mais a democracia nas comunicações do Brasil.

Desmonte da EBC e da comunicação pública

Depois da medida provisória que mudou a lei da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), extinguiu seu Conselho Curador e o mandato para presidente da empresa, a pressão governamental sobre a linha editorial dos veículos da EBC ganhou intensidade, com ataques crescentes à sua autonomia editorial.

Em 2017, a cobertura dos veículos públicos passou a ser fortemente orientada pelo oficialismo, ao passo que as críticas ao governo foram censuradas. Além disso, equipes foram alteradas para retirar profissionais que não aceitavam se submeter às imposições e novos programas foram cancelados.

Os repasses de recursos para as emissoras que compõem a Rede Nacional de TVs Públicas deixaram de acontecer, debilitando a diversidade na produção e veiculação de conteúdos.

No final de novembro, o Conselho de Administração (Consad) aprovou a retirada do conceito de “comunicação pública” do plano estratégico da EBC, documento que orienta objetivos e ações da empresa. Em sua versão anterior, a meta era “ser referência em Comunicação Pública”. Agora, é “ser uma empresa referência em comunicação”. Recentemente, as atividades da TV Brasil (pública) e da NBR (canal estatal do governo federal) foram integradas.

 

Crescentes violações à liberdade de expressão

No último ano, vozes divergentes foram sistematicamente silenciadas no Brasil. A campanha Calar Jamais!, coordenada pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, registrou 70 casos emblemáticos de cerceamento à liberdade de expressão em 2017, analisados no relatório anual da campanha.

O conjunto das violações mapeadas comprova que práticas que já ocorriam no Brasil – como violência contra comunicadores e repressão às rádios comunitárias –, encontraram um ambiente propício para se multiplicar após a chegada de Michel Temer ao poder.

E que a censura nas redes, nas escolas e nas ruas cresceu fortemente com o aumento da repressão aos protestos contra as medidas adotadas pelo governo e o Congresso.

O ano de 2017 foi marcado assim por casos como o do jovem Edvaldo Alves, morto por umtiro de bala de borracha enquanto protestava no interior de Pernambuco; ou do estudante universitário Mateus Ferreira da Silva, que teve traumatismo craniano após ser atingido com um golpe de cacetete na cabeça durante manifestação em Goiânia.

O relatório também traz o registro da invasão da Escola Florestan Fernandes, do MST, pela polícia; da condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães; e do flerte de Temer com a suspensão dos direitos constitucionais, por meio do decreto presidencial de 24 de maio passado, que declarou Estado de Defesa e autorizou a ação das Forças Armadas para garantir a “ordem” no país.

 

Intervenção governamental no Comitê Gestor da Internet

No início de agosto de 2017, representantes do terceiro setor, da academia e até mesmo do mercado foram surpreendidos com a divulgação, pelo governo federal, de uma consulta pública para mudar a composição e as atribuições do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

O assunto não havia sido sequer mencionado dentro do Comitê, contrariando flagrantemente seu caráter multissetorial, pelo qual é reconhecido internacionalmente.

A posição autocrática assumida pelo governo e conduzida pela gestão do ministro GilbertoKassab rompeu inclusive com o compromisso assumido em âmbito internacional pelo Brasil de garantir a participação multissetorial em todos os processos, etapas e esferas de deliberação acerca da internet.

Após forte mobilização social dentro e fora do Brasil (leia nota da Coalizão Direitos na Rede), o governo foi obrigado a recuar e transferir a condução da etapa final da consulta pública para o próprio CGI.

 

Marco regulatório da radiodifusão ainda pior

A dupla Temer e Kassab também conseguiu piorar o que já era ruim em termos de democracia nas comunicações. Em março de 2017, também fruto de uma medida provisória, foi publicada uma lei altera as regras para a exploração do serviço de radiodifusão no país.

Medidas como anistia aos prazos perdidos para renovação das outorgas e liberação de aprovação prévia do Executivo para a alteração no quadro societário das concessionárias favoreceram significativamente o empresariado.

Agora não é nenhum exagero afirmar que os donos de rádio e televisão no Brasil estão ainda mais livres para fazer o que bem entender com este bem que, vale lembrar, é público.

 

 

Favorecimento a políticos donos da mídia

Em 2017, o uso das outorgas de radiodifusão como moeda de troca política voltou à baila. Em meio à crise, Michel Temer acelerou a tramitação de outorgas apresentadas por parlamentares da base governista em busca de apoio. A denúncia foi feita pelo jornal El País.

Com o controle de rádios e TVs, políticos se tornam atores decisivos na cena política e garantem sua perpetuação nos cargos. São exemplos desta prática, que viola flagrantemente a Constituição brasileira, os atuais ministros Ricardo Barros, Helder Barbalho e o líder do governo no Senado, Romero Jucá.

 

Empresários nas vagas da sociedade civil no Conselho de Comunicação Social do Congresso

A lei 8389/1991, que instituiu o Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão consultivo do Congresso Nacional para leis que tratam deste tema, determina que o órgão tenha uma composição tripartite, formada por representantes de empresas de rádio, televisão e imprensa escrita, de categorias profissionais da comunicação e da sociedade civil.

Historicamente, entretanto, as vagas da sociedade civil são ocupadas a bel prazer dos congressistas.

Em 2017, tomaram posse, nas vagas de titularidade e suplência destinadas à sociedade civil, quatro empresários das comunicações: Fábio Andrade, diretor da America Móvel, indicado pelo próprio presidente do Senado, Eunício Oliveira; Ranieri Bertolli, presidente da Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão; Luiz Carlos Gryzinski, diretor da Associação Brasileira de TV por Assinatura UHF (ABTVU); e Patrícia Blanco, representante do instituto empresarial Palavra Aberta, indicada pelo Conar, o Conselho de Autorregulamentação Publicitária, formado apenas por agências privadas.

Atualmente, o CCS é o único espaço institucional de caráter nacional com assentos para a sociedade civil.

 

Privatização do satélite geoestacionário

Depois de gastar mais de R$ 2 bilhões com a construção de um satélite que deveria garantir o acesso à internet em áreas desconectadas do país, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações decidiu que privatizaria o equipamento às vésperas de seu lançamento.

Isso só não aconteceu porque nenhuma empresas compareceu ao leilão realizado, depois de três adiamentos, em novembro passado. O fracasso da tentativa de privatização mostrou, mais uma vez, que a lógica do mercado de telecomunicações privilegia o atendimento apenas a áreas com alto poder de atração comercial, não havendo interesse na oferta em outros territórios.

Por isso, uma política pública que de fato universalize o acesso à internet em todos os cantos do país depende de recursos e da gestão pública. No final do ano, o ministro Kassab anunciou que a Telebrás vai operar o satélite, que está no espaço desde maio.

Fonte: Carta Capital.

Exclusivo: investigação revela exército de perfis falsos usados para influenciar eleições no Brasil

Exclusivo: investigação revela exército de perfis falsos usados para influenciar eleições no Brasil

São sete da manhã e um rapaz de 18 anos liga o computador em sua casa em Vitória, no Espírito Santo, e dá início à sua rotina de trabalho. Atualiza o status de um dos perfis que mantém no Facebook: “Alguém tem um filme para recomendar?”, pergunta. Abre outro perfil na mesma rede. “Só queria dormir a tarde inteira”, escreve. Um terceiro perfil: “Estou com muita fome”. Ele intercala esses textos com outros em que apoia políticos brasileiros.

Esses perfis não tinham sua foto ou nome verdadeiros, assim como os outros 17 que ele disse controlar no Facebook e no Twitter em troca de R$ 1,2 mil por mês. Eram, segundo afirma, perfis falsos com fotos roubadas, nomes e cotidianos inventados. O jovem relatou à BBC Brasil que esses perfis foram usados ativamente para influenciar o debate político durante as eleições de 2014.

As evidências reunidas por uma investigação da BBC Brasil ao longo de três meses sugerem que uma espécie de exército virtual de fakes foi usado por uma empresa com base no Rio de Janeiro para manipular a opinião pública, principalmente, no pleito de 2014.

A estratégia de manipulação eleitoral e da opinião pública nas redes sociais seria similar à usada por russos nas eleições americanas, e já existiria no Brasil ao menos desde 2012. A reportagem identificou também um caso recente, ativo até novembro de 2017, de suposto uso da estratégia para beneficiar uma deputada federal do Rio.

A reportagem entrevistou quatro pessoas que dizem ser ex-funcionários da empresa, reuniu vasto material com o histórico da atividade online de mais de 100 supostos fakes e identificou 13 políticos que teriam se beneficiado da atividade. Não há evidências de que os políticos soubessem que perfis falsos estavam sendo usados.

Com ajuda de especialistas, a BBC Brasil identificou como os perfis se interligavam e seus padrões típicos de comportamento. Seriam o que pesquisadores começam a identificar agora como ciborgues, uma evolução dos já conhecidos robôs ou bots, uma mistura entre pessoas reais e “máquinas” com rastros de atividade mais difíceis de serem detectados por computador devido ao comportamento mais parecido com o de humanos.

Parte desses perfis já vinha sendo pesquisada pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, coordenado pelo pesquisador Fábio Malini.

“Os ciborgues ou personas geram cortinas de fumaça, orientando discussões para determinados temas, atacando adversários políticos e criando rumores, com clima de ‘já ganhou’ ou ‘já perdeu'”, afirma ele. Exploram o chamado “comportamento de manada”.

“Ou vencíamos pelo volume, já que a nossa quantidade de posts era muito maior do que o público em geral conseguia contra-argumentar, ou conseguíamos estimular pessoas reais, militâncias, a comprarem nossa briga. Criávamos uma noção de maioria”, diz um dos ex-funcionários entrevistados.

Esta reportagem é a primeira da série Democracia Ciborgue, em que a BBC Brasil mergulha no universo dos fakes mercenários, que teriam sido usados por pelo menos uma empresa, mas que podem ser apenas a ponta do iceberg de um fenômeno que não preocupa apenas o Brasil, mas também o mundo.

Segundo Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), a suspeita de que esse seria um serviço oferecido normalmente para candidatos e grupos políticos “faz pensar que a prática deva já estar bem disseminada nesse ambiente político polarizado e que vai ser bastante explorada nas eleições de 2018, que, ao que tudo indica, serão ainda mais polarizadas que as últimas de 2014”.

Philip Howard, professor do Instituto de Internet da Oxford, vê os ciborgues como “um perigo para a democracia”. “Democracias funcionam bem quando há informação correta circulando nas redes sociais”, afirma, colocando os fakes ao lado do problema da disseminação das fake news, ou seja, notícias falsas.

Imagem mostra homem sendo manipulado por mão robóticaRobôs estariam tentando manipular opinião pública nas redes sociais no Brasil desde 2012 (Direito de imagem: GETTY IMAGES)

Exército fake

Em 2012, segundo os entrevistados pela BBC Brasil, o empresário carioca Eduardo Trevisan, proprietário da Facemedia, registrada como Face Comunicação On Line Ltda, teria começado a mobilizar um exército de perfis falsos, contratando até 40 pessoas espalhadas pelo Brasil que administrariam as contas para, sobretudo, atuar em campanhas políticas.

Inicialmente, a BBC Brasil entrou em contato com Trevisan por telefone. Ele negou que sua empresa crie perfis falsos. “A gente nunca criou perfil falso. Não é esse nosso trabalho. Nós fazemos monitoramento e rastreamento de redes sociais”, afirmou, pedindo que a reportagem enviasse perguntas por email.

“Os serviços em campanhas eleitorais prestados pela Facemedia estão descritos e registrados pelo TSE, de forma transparente. Por questões éticas e contratuais, a Facemedia não repassa informações de clientes privados”, respondeu, posteriormente, por email (leia resposta completa na parte final desta reportagem).

Trevisan, cujo perfil pessoal no Twitter carrega a descrição “Brasil, Pátria do Drible”, tem quase um milhão de seguidores. Ele ganhou projeção com sua página Lei Seca RJ, criada em 2009. Seguida por 1,2 milhão de usuários, ela alerta motoristas para locais de blitze no Rio.

Um ex-funcionário disse ter sido contratado justamente achando que trabalharia administrando o Twitter do Lei Seca RJ.

“Era um trabalho bem sigiloso. Não sabia que trabalharia com perfis falsos”, diz.

Quando descobriu, conta, passou a esconder de amigos e familiares o que fazia. Hoje, afirma, tem medo de falar, porque trabalhou “para gente muito importante” e teria assinado um contrato de sigilo com a empresa.

Políticos

Os depoimentos dos entrevistados e os temas dos tuítes e publicações no Facebook levam aos nomes de 13 políticos que teriam sido beneficiados pelo serviço, entre eles os senadores Aécio Neves (PSDB-MG) e Renan Calheiros (PMDB-AL) e o atual presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE).

A atuação era variada. Para Aécio, perfis supostamente falsos publicaram, por exemplo, mensagens elogiosas ao candidato durante debate com Dilma Rousseff (PT) na campanha de 2014: “Aécio é o mais bem preparado”. No caso de Renan, criaram uma hashtag para defendê-lo durante protestos em 2013 que pediam o impeachment do então presidente do Senado: #MexeuComRenanMexeuComigo. Foi apoiada por usuários como “Patrick Santino”, que usa a imagem de um ator grego no perfil. Já sobre Eunício, divulgaram voto durante as eleições: “Vou com 15. Melhores propostas”.

Não há evidências de que os políticos soubessem que o uso de perfis falsos fazia parte de um serviço de consultoria em redes sociais (veja ao final desta reportagem a resposta completa de cada um).

Foto do ator e cantor grego Sakis Rouvas

Foto do ator e cantor grego Sakis Rouvas, usada para ilustrar perfil falso (Foto: Reprodução/Instagram)

Monitorados por Skype

Os funcionários, segundo os relatos, ficavam em diferentes Estados do país, trabalhando de casa e monitorados por Skype. Quando se levantava para ir ao banheiro, conta um deles, era preciso explicar sua ausência pelo Skype a um coordenador.

Jovens e na maioria das vezes sem curso superior, eles contam que eram chamados na empresa de “ativadores”. Recebiam de profissionais mais graduados uma “ficha técnica” e perfis prontos do que chamavam de “personas”. Continham foto, nome e história de cada um – de onde era, se era casado, se tinha filhos e quais eram seus gostos, hobbies e profissão.

Eles teriam de “ativar” o perfil, alimentando e dando prosseguimento à narrativa criada, mesclando publicações sobre sua rotina com postagens apoiando políticos.

Segundo as diferentes entrevistas, um controlador de perfis falsos recebia por volta de R$ 800 mensais quando começava a trabalhar na empresa. Nas eleições de 2014, o salário teria subido para até R$ 2 mil.

Fotos eram retiradas de bancos de imagens, roubadas de sites de notícias e de perfis existentes. A BBC Brasil identificou, por meio de pesquisa em ferramenta de busca, a origem de várias dessas fotos. Uma delas pertencia a uma jovem vítima de assassinato cuja foto havia sido publicada em um veículo de imprensa local. Algumas imagens eram manipuladas digitalmente, o que dificulta o rastreamento de sua origem.

A empresa, segundo os entrevistados, fornecia chips de celular para autenticar perfis em redes sociais.

A parte “robô”, ou semiautomatizada, não era sofisticada. Os funcionários contam e fica claro nas postagens que eram usadas plataformas que possibilitam a administração de vários perfis ao mesmo tempo, como o Hootsuite (que cobra R$ 258 mensais para que três usuários operem 20 perfis em redes sociais ao mesmo tempo).

Agendavam publicações que falavam sobre a rotina do personagem e outras mais genéricas, como “bom dia”, “vou almoçar”, “boa noite”, “estou cansado”, “dia exaustivo”, entre outras postagens semelhantes, para dar a impressão de que se tratavam de perfis reais.

Captura de tela de perfil identificado como falso no Twitter

Perfil usa foto de mulher que apareceu no noticiário; ela escreve sobre seu cotidiano e comenta sobre político Paulo Hartung (Foto: Reprodução/Twitter)

Alguns “ativadores” passavam o dia fazendo isso, relatam. Outros se dedicavam a programar publicações para a semana inteira e ficavam de olho para eventuais interações que tinham de fazer, como responder a mensagens de perfis reais.

Amigos reais

Perfis falsos criam “reputação” e parecem ser legítimos adicionando pessoas aleatórias com o objetivo de colecionar amigos reais.

Pessoas reais chegam a dar parabéns a fakes em aniversários mesmo sem conhecê-los e fazem comentários elogiosos a fotos de perfil, ajudando a criar a sensação de que são verdadeiros. É desta forma que, inadvertidamente, usuários reais contribuem para a criação de “reputação”.

A reportagem detectou que os perfis identificados como fakes também interagem entre si – encontrou até um “casal” de perfis falsos.

Uma ex-funcionária ouvida pela BBC Brasil afirma que, na época, não sabia que trabalhava administrando perfis falsos. Segundo ela, quando trabalhou na empresa, de 2012 a 2014, tinha acesso a perfis no Facebook de pessoas que eram “apoiadores” de candidatos, como se eles tivessem cedido o acesso. Ela conta que seu trabalho era monitorar o que era publicado sobre candidatos e fazer comentários que os apoiassem por meio dos perfis que controlava.

“Eu já desconfiei que não eram de pessoas reais, mas não sei se eram. Eu não tinha muita malícia na época. Como eu só tinha acesso a publicar determinados conteúdos, eu não verificava muito os perfis.”

Outro ex-funcionário define o trabalho, do qual chega a ter até um pouco de orgulho: “Você é só uma pessoa mascarada atrás de um perfil. A resposta é forte, o retorno é bom. Você sente que realmente faz diferença na campanha”.

Quando um fake era “desmascarado” por outros usuários ou desativados pelas plataformas, logo havia outro para substituí-lo, que vinha de um grande banco de perfis falsos criado e mantido pela empresa, também de acordo com os entrevistados.

Muitos dos perfis reunidos pela BBC Brasil foram abandonados. Cerca de um quinto dos identificados no Twitter publicaram mensagens pela última vez entre os dias 24 e 27 de outubro de 2014. O segundo turno das eleições daquele ano aconteceu no dia 26 de outubro.

Um dos ex-funcionários entrevistados diz que os perfis identificados como falsos pela BBC Brasil representam apenas uma pequena parcela do fenômeno, já que a empresa teria criado “milhares” de perfis como estes. Ele diz também que havia empresas concorrentes fazendo o mesmo no Brasil.

Um tipo de atuação comum, segundo os entrevistados, era deixar comentários em sites de notícias e também votar em enquetes, como as do site do Senado, tomando até o cuidado de deixar a opinião oposta ultrapassar um pouco antes de vencê-la, para que “tudo parecesse muito orgânico e natural”, nas palavras de um ex-funcionário. “Às vezes, dez pessoas ficavam votando em determinada opção durante oito horas do dia.”

Como identificar um fake?

Para identificar os perfis supostamente falsos, com a ajuda de especialistas, a reportagem levou em consideração elementos como: o uso de fotos comprovadamente falsas, modificadas ou roubadas; a publicação de mensagens a partir da mesma ferramenta externa às redes sociais; o padrão de mensagens que simulam rotina, com repetição de palavras; a participação ativa nas redes durante debates e “tuitaços”; atividade apenas durante o horário “útil” do dia; as recorrentes mensagens de apoio ou de agressão a candidatos específicos e, por fim, vários casos de datas coincidentes de criação, ativação e desativação dos perfis.

Captura de tela de perfil falso no Facebook

Perfis usavam fotos roubadas para escrever a favor de candidatos (Foto: Reprodução/Facebook)

Malini, o acadêmico do Espírito Santo cujo grupo que coordena já pesquisava parte dos supostos fakes identificados pela BBC Brasil, elaborou o que especialistas chamam de “grafo”, um desenho gerado por computador que espelha o histórico da interação e atividade dos perfis no Twitter. Isso inclui os retuítes, menções a outros usuários e comentários em tuítes feitos pelos usuários com características falsas.

O resultado mostra os perfis com os quais estabeleceram o maior número de interações, gerando uma espécie de “nuvem”.

Nela, aparecem os políticos mencionados pelos ex-funcionários como clientes da empresa, a página Lei Seca RJ e, no centro, Eduardo Trevisan, “inflacionado” pela atividade dos supostos fakes. “Ele é uma figura central, que recebe menções e retuítes de grande parte dos usuários analisados”, afirma Malini. “Essa alta centralidade salta aos olhos e aponta quem deve ser investigado”, acrescenta.

Pagamentos

Por meio da análise de pagamentos legais disponíveis ao público em prestações de contas, a BBC Brasil conseguiu mostrar a ligação da Facemedia de Trevisan com três políticos e um partido, o PSDB. A empresa recebeu também, neste caso, segundo dados de um relatório disponível no site da Câmara, transferência de uma agência de propaganda e marketing. No total, os pagamentos feitos pelas cinco partes somam R$ 1,2 milhão. Veja em detalhes abaixo, e um resumo da resposta de cada um:

– A empresa de Trevisan recebeu R$ 360 mil do Comitê Nacional do PSDB para a campanha presidencial em 2014 pela “prestação de serviços de marketing e comunicação digital”, segundo consta da prestação de contas do partido. O PSDB disse que a empresa foi contratada para prestação de serviços de melhoria e monitoramento de movimento e tendências nas redes sociais.

– A Facemedia também recebeu R$ 200 mil de Renan Filho (PMDB) em 2014, então candidato ao governo de Alagoas, segundo a prestação de contas. A assessoria do político, que venceu a eleição, disse que a empresa foi contratada para prestação de serviços de monitoramento e análise digital das redes sociais durante a campanha e acompanhamento do interesse do eleitor. “Em nenhuma hipótese houve contratação ou realização de pagamento para a criação de perfis falsos ou divulgações online por estes em favor da campanha.”

– Recebeu também R$ 30 mil do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Vital do Rêgo Filho (PMDB), então candidato ao governo da Paraíba, de acordo com os dados públicos. Sua assessoria afirmou que o candidato “utilizou serviços de mídias sociais para divulgação regular de sua campanha, desconhecendo qualquer criação de perfis falsos por parte da empresa contratada”.

– Os mais recentes pagamentos encontrados pela reportagem vieram da cota parlamentar do gabinete da deputada federal Laura Carneiro (PMDB-RJ). A empresa de Trevisan recebeu R$ 14 mil por mês por “divulgação da atividade parlamentar por meio da diagramação, manutenção e alimentação das suas mídias sociais (Instagram, Facebook, Twitter)” de fevereiro a setembro deste ano, totalizando R$ 112 mil. As datas coincidem com o período de atividade de um grupo de perfis supostamente falsos identificados pela BBC Brasil atuando na página da deputada. A assessoria dela disse que “os serviços prestados eram de monitoramento e de divulgação do mandato parlamentar nas mídias sociais. A deputada não tem qualquer conhecimento sobre o uso antiético de perfis falsos em qualquer prestação de serviços realizados por essa empresa”.

– Entre março de 2014 e julho de 2014, a Facemedia recebeu R$ 504 mil da agência PVR Propaganda e Marketing Ltda, de Paulo Vasconcelos, marqueteiro da campanha de Aécio à Presidência. O pagamento da PVR foi descrito em um relatório produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeira (Coaf) em julho deste ano. Não é possível determinar no registro do pagamento quais dos clientes da PVR teriam se beneficiado dos serviços da Facemedia. A agência tinha entre seus clientes o PSDB e a J&F, controladora da JBS. A JBS foi identificada como tema em diferentes tuítes, entre os reunidos pela BBC Brasil, e também citada por um ex-funcionário como cliente da Facemedia. A J&F não quis comentar. A PVR disse que contratou a Facemedia “para prestação de serviços de monitoramento e análise do ambiente político”. A empresa nega que tenha feito algum pagamento para divulgação da candidatura de Aécio Neves.

Outros políticos

Um ex-funcionário de Trevisan cita uma longa lista com outros políticos que também teriam contratado o serviço. Todos eles foram citados em algum momento pelos perfis falsos identificados pela BBC Brasil. São eles: o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), Eduardo Braga (PMDB-AM) e Ricardo Ferraço (PSDB-ES), o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB), o ex-prefeito de Vila Velha (ES) Rodney Miranda (DEM), o secretário municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação do Rio de Janeiro, Índio da Costa (PSD), o ex-senador Gim Argello (DF) e o ex-deputado estadual Felipe Peixoto (PSB-RJ).

Eles negaram ter conhecimento sobre qualquer uso de perfis falsos nesse contexto. Não há nenhum indício de que os citados acima sabiam da existência e do uso de fakes nas suas redes sociais como parte de um serviço para favorecê-los.

Wallim Vasconcelos, que foi candidato à presidência do Flamengo, também é citado pelo ex-funcionário e também foi tema de tuítes de perfis considerados falsos. Ele encaminhou à BBC Brasil a resposta de sua assessoria à época das eleições. Disseram que a Facemedia fazia apenas “monitoramento” das redes.

O único citado com quem a reportagem não conseguiu contato foi Gim Argello, hoje preso da operação Lava Jato. Seu advogado, Marcelo Bessa, disse que não tem procuração para responder sobre esse assunto. (leia a íntegra da resposta de todos os citados no final do texto)

Captura de tela de perfil falso no Twitter

Perfil falso que apoia Paulo Hartung no Twitter usa foto de banco de imagens (Imagem: Twitter/Reprodução)

Responsabilidade

Perfis falsos foram usados para tentar influenciar as eleições americanas no ano passado e representam uma crescente preocupação no mundo ao lado das notícias falsas, facilmente compartilhadas nas redes, e também do papel da propaganda direcionada nas redes sociais, mecanismo que teria sido usado por russos nas eleições dos EUA. O Facebook declarou ter desativado 470 contas e páginas “provavelmente operadas da Rússia”, que publicavam conteúdo que visava causar maior divisão nacional em tópicos como direitos LGBT e questões raciais e de imigração.

O reflexo desta tendência no Brasil levou especialistas ouvidos pela BBC Brasil a reforçar um apelo por ação mais rigorosa tanto do Twitter quanto do Facebook.

Para Pablo Ortellado, professor da USP, deve haver maior transparência e regulação nas plataformas como o Facebook, que deve começar a agir “como se fosse um Estado, já que virou a nova esfera pública” onde acontecem discussões e interações entre as pessoas. Ou seja, para ele, a plataforma deve começar a se autorregular, se não quiser ser regulada pelos Estados, um cenário também não livre de polêmicas.

O Twitter informa que “a falsa identidade é uma violação” de suas regras. “As contas do Twitter que representem outra pessoa de maneira confusa ou enganosa poderão ser permanentemente suspensas de acordo com a Política para Falsa Identidade do Twitter. Se a atividade automatizada de uma conta violar as Regras do Twitter ou as Regras de Automação, o Twitter pode tomar medidas em relação à conta, incluindo a suspensão da conta.”

Já o Facebook informa que suas políticas “não permitem perfis falsos”. “Estamos o tempo todo aperfeiçoando nossos sistemas para detectar e remover essas contas e todo o conteúdo relacionado a elas. Estamos eliminando contas falsas em todo o mundo e cooperando com autoridades eleitorais sobre temas relacionados à segurança online, e esperamos tomar medidas também no Brasil antes das eleições de 2018.”

A empresa também afirma que não pode comentar os perfis citados na reportagem porque não teve acesso a eles antes da publicação deste texto. “Entretanto, vale ressaltar que durante as eleições de 2014 mais de 90 milhões de pessoas no Brasil usaram a plataforma para debater temas relevantes para elas e engajar com seus candidatos.”

Roteiro

O padrão de criação de uma conta falsa no Twitter e no Facebook, segundo os entrevistados, seguia um roteiro: durante um ou dois meses, determinado perfil apenas tuitava sobre sua rotina, publicando tuítes muito parecidos para “martelar” ou “fixar” seu cotidiano por meio das publicações agendadas, com características e hobbies que são muito claros: há a mãe que gosta de assistir a séries e faz pilates, a universitária que fala sobre seus estudos, o síndico de prédio que gosta de futebol.

De repente, uma aglomeração de tuítes a favor de determinado político interrompe esse padrão – e aí entram de fato seres humanos, assistindo aos debates na televisão e fazendo comentários ou promovendo “tuitaços” a favor de seu candidato.

Um dos tuitaços de que participaram os usuários fakes foi para que o perfil Lei Seca RJ fosse nomeado ao prêmio Shorty, que reconhece pessoas e organizações que produzam bom conteúdo nas redes sociais.

Em alguns casos, o histórico revela “reciclagem” de perfis, apoiando diferentes candidatos ao longo do tempo. Em 5 de outubro de 2014, “Fernanda Lucci”, que usa no perfil uma foto de Petra Mattar, cantora e filha do ator Maurício Mattar, escreve ter dado seu voto para Renan Filho (PMDB), então candidato ao governo de Alagoas.

Captura de tela de perfil falso no Twitter

Perfil falso conta ter votado em Renan Filho (Imagem: Twitter/Reprodução)

Já no dia 24 de outubro, escreve: “Dia 26 quero #Eunicio15 para mudar CE”, em referência ao senador Eunício Oliveira (PMDB), que na época concorria ao governo do Ceará.

Captura de tela de perfil falso no Twitter

Perfil falso diz apoiar o senador Eunício Oliveira (Imagem: Twitter/Reprodução)

Dois meses antes, ela elogiava Paulo Hartung (PMDB), então candidato ao governo do Espírito Santo, por sua performance em um debate, sempre incluindo também uma hashtag em referência a esses políticos.

Captura de tela de perfil falso no Twitter

‘Fernanda Lucci’ apoia Hartung (Imagem: Twitter/Reprodução)

Atividade recente

Parte dos perfis identificados como falsos estavam ativos até novembro deste ano, interagindo, curtindo e comentando em publicações da deputada federal Laura Carneiro (PMDB-RJ), como fazem os perfis de “Marcos Vieira” e “Breno Marson”, que tagueiam perfis de pessoas com maior proeminência no Twitter para tentar aumentar o alcance da publicação.

A assessoria de imprensa da deputada diz não ter “conhecimento sobre o uso antiético de perfis falsos em qualquer prestação de serviços realizados por essa empresa”.

Captura de tela de perfil identificado como falso no Twitter

Perfis marcam Twitter de famosos em publicação de deputada no Twitter  (Imagem: Twitter/Reprodução)

Uma publicação sobre vacinação antirrábica na página do Facebook da parlamentar, do dia 26 de setembro deste ano, tem nove comentários. Cinco deles foram feitos por perfis identificados como ciborgues, com poucos minutos de diferença.

“Romulo Borges” comenta que a iniciativa da deputada é “Super importante!!!”. Ele tem 71 amigos e começou a publicar no Facebook, em março deste ano, textos como “esperando a hora de chegar em casa e comer sobra de pizza” e “segunda-feira chuvosa e fria”, sempre da plataforma Hootsuite.

“Borges” também tem um perfil no Twitter, com a mesma foto e mesmo nome. Foi criado em 2010 e ficou ativo entre julho e outubro de 2014, quando tuitava sobre sua rotina (“bom dia”, “trabalho pesado”, “fome”, “boa noite” são expressões recorrentes).

Na época, chegou a tuitar sobre um debate entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio, criticando a performance de Dilma. Encerrou suas atividades no fim de outubro daquele ano e só voltou em março de 2017. Hoje em dia, curte no Twitter quase todas as publicações de Laura Carneiro. Uma pesquisa feita pela BBC Brasil revela que sua foto, na realidade, pertence a outra pessoa.

Ator grego

Também fora de campanha, mas em 2013, Renan Calheiros (PMDB-AL) teria contratado a empresa para cuidar de sua imagem, segundo um dos entrevistados.

Naquele ano, quando manifestações pelo Brasil pediam o impeachment do então presidente do Senado, os perfis supostamente falsos criaram a hashtag #MexeuComRenanMexeuComigo, defendendo o político nas redes e criando a falsa ilusão de que ele era apoiado por aquele grupo de pessoas.

O perfil falso abaixo, de “Patrick Santino”, entrou em uma briga com outro usuário (que já não está mais ativo) usando a hashtag para defender o senador, num tuíte replicado 777 vezes. Sua foto de perfil pertence ao ator e cantor grego Sakis Rouvas.

Captura de tela de perfil falso no Twitter

Perfil falso escreve mensagem a favor do senador Renan Calheiros (Imagem: Twitter/Reprodução)

Pressão por projeto de lei

Ao menos oito perfis falsos identificados pela BBC Brasil fizeram postagens positivas em relação à Friboi, da JBS. Segundo um dos entrevistados pela reportagem, a empresa contratou os serviços da agência para “botar pressão” pela aprovação de um projeto de lei que exigisse de todos abatedouros no Brasil um selo mais rígido – favorecendo o frigorífico, que teria a capacidade de tê-lo. A J&F Investimentos, holding que controla a JBS, não quis comentar.

“Letícia Priori” está no Twitter e no Facebook, onde já escreveu sobre Aécio Neves (PSDB), Renan Filho (PMDB) e Eunício Oliveira (PMDB). Quando não fala sobre políticos, escreve a respeito das sobrinhas e do chefe. E, numa manhã de quarta-feira, recomenda a seus seguidores uma receita da Friboi, acompanhada de sua hashtag. A foto de “Letícia” pertence a uma mulher morta. A BBC Brasil tentou entrar em contato, sem sucesso, com a família da jovem real, assassinada de forma brutal no Rio de Janeiro.

Captura de tela de perfil identificado como falso no Twitter

Perfil que usa foto de mulher morta elogia Friboi (Imagem: Twitter/Reprodução)

Ataque a inimigos

Os perfis, segundo os entrevistados, também participavam de grupos políticos no Facebook. A BBC Brasil identificou um grupo contra Renato Casagrande (PSB), então candidato ao governo do Espírito Santo, criado por “Deborah Mendes”, que usa foto de perfil retirada de um banco de imagens e é um dos perfis que seriam ligados à Facemedia. A atividade da página mostra que ela adicionou um funcionário da Facemedia ao grupo.

Casagrande disputava as eleições com o atual governador Paulo Hartung (PMDB), defendido pelos perfis falsos.

Captura de tela de grupo criado por perfil falso no Facebook

Grupo criado por perfil falso no Facebook tem participação de coordenador da Facemedia  (Imagem: Facebook/Reprodução)

Ao menos uma dezena dos membros do grupo são fakes. Outra parte é composta por pessoas verdadeiras, que foram expostas às postagens no grupo, visualizando notícias e comentários publicados por eles, sempre contra o candidato. Quando um perfil publicava uma notícia, imediatamente outros comentavam abaixo dela, dando “força” à publicação.

‘Esse tal de Twitter’

Em 2009, Trevisan foi convidado para o programa matinal de Ana Maria Braga na TV Globo para falar sobre “esse tal de Twitter”, nas palavras dela. Apresentou-se como “consultor de marketing”, que trabalhava “monitorando marcas e produtos” nas redes sociais e disse ter recebido treinamento dos “papas de Twitter” da campanha do então presidente americano Barack Obama. Em seu Instagram, Trevisan posta imagens com logos do Facebook e do Twitter agradecendo sua existência.

Foi entrevistado várias vezes para reportagens sobre a página Lei Seca RJ, sempre dizendo que ela fora criada com o intuito de melhorar a vida de quem não havia bebido e perdia tempo nas filas das blitze no Rio – e não por quem bebe acima do limite, dirige e quer escapar da lei.

Em 2010, Trevisan foi homenageado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro“por seu relevante serviço voluntário prestado em prol dos atingidos pelas fortes chuvas do mês de abril” – a autora da proposta foi a então vereadora Clarissa Garotinho. Na época, a página Lei Seca RJ orientou seguidores publicando informações sobre as enchentes.

Implicações legais

Apenas criar um perfil falso sem a intenção de enganar os outros, ou seja, de modo transparente, não é ilegal e “se aproxima ao conceito do pseudônimo, de criar uma identidade nova”, diz a advogada Patrícia Peck, especialista em direito digital. “Onde começa a ter problema? Quando o pseudônimo existir com a finalidade de enganar outros, entrando no crime da falsa identidade.”

A criação de perfis expostos nessa reportagem, segundo ela, se encaixaria no crime de falsa identidade, já que interagiram com outras pessoas sem deixar claro que eram falsos. A pena é detenção de três meses a um ano ou multa.

Os perfis falsos que usaram imagens de pessoas reais cometeram o ilícito civil do uso não autorizado de imagem. As pessoas reais, donas das fotos, podem pedir indenização. Também podem alegar na Justiça que houve crime contra a honra, por difamação – “quando você fala como se fosse outra pessoa, pode construir uma imagem diferente da dela e ferir sua imagem e reputação”, diz Peck. A pena é de três meses a um ano de detenção e multa.

A criação de personagens nas redes sociais também pode ser enquadrada no crime de falsidade ideológica, na visão de Peck, para quem as páginas são uma espécie de documento, cuja falsificação é pré-requisito para esse tipo de crime. A pena é reclusão de um a três anos e multa.

E, por fim, caso seja provado que houve alguma espécie de ganho com a criação dos perfis falsos, é possível que seja enquadrada no crime de estelionato. A pena é reclusão de um a cinco anos e multa.

A transgressão é menos clara no campo político, mas foi em parte endereçada na reforma eleitoral aprovada em outubro. E o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) se prepara para divulgar até dezembro um conjunto de novas regras de comportamento online para partidos e candidatos.

nova legislação proíbe “a veiculação de conteúdos de cunho eleitoral” por meio de “cadastro de usuário de aplicação de internet com a intenção de falsear identidade”.

Mas isso durante o período eleitoral – já passaram os prazos para quaisquer reclamações referentes às eleições de 2012 e 2014.

O que dizem os citados na reportagem

Eduardo Trevisan

“A Facemedia é uma empresa de comunicação digital consolidada no mercado há dez anos. Nesse período, prestamos serviços para mais de uma centena de clientes. Nossa empresa é especializada em planejamento estratégico de marketing digital, criação e manutenção de sites e perfis, monitoramento de redes e bigdata, especializada em diversas técnicas de marketing como SEO, SEM, copywriting, branding, design thinking, relacionamento com influenciadores digitais entre outros. Além de atender a ampla carteira de clientes privados, a Facemedia utiliza seu know-how de mobilização digital em causas sociais. Em 2011, por exemplo, a Facemedia foi agraciada pelo The New York Times com o ‘Oscar do Twitter’, pela ajuda humanitária aos desabrigados da tragédia das chuvas que atingiram a Região Serrana no Rio de Janeiro. Na ocasião, centenas de pessoas em situação de risco foram ajudadas por meio dos canais digitais da empresa, com mais de 5 milhões de pessoas conectadas. As conexões entre os perfis são estabelecidas por critérios das próprias redes sociais, inexistindo o conceito de ‘vinculação’, sugerido na pergunta. Os serviços em campanhas eleitorais prestados pela Facemedia estão descritos e registrados pelo TSE, de forma transparente. Por questões éticas e contratuais, a Facemedia não repassa informações de clientes privados.”

PSDB

“A empresa Face Comunicação On Line Ltda. foi contratada no primeiro turno das eleições de 2014 para prestação de serviços à eleição presidencial, que consistiu em monitoramento e análises de movimentos e tendências em Redes Sociais. O PSDB desconhece o suposto uso de perfis falsos por referida empresa e registra que jamais fez uso dessa forma de divulgação de mensagens em redes sociais ou qualquer outro ambiente.”

Aécio Neves (PSDB)

Por meio de sua assessoria, o senador diz não conhecer a empresa em questão.

Renan Filho (PMDB)

“A empresa em questão prestou à campanha do atual governador Renan Filho, mediante contrato e objetivo expressamente delineados, os serviços de monitoramento e análise digital, fornecendo à campanha informações capazes de projetar/avaliar a densidade eleitoral das candidaturas através do nível de interesse apresentado pelo eleitor, conforme suas preferências manifestadas na rede social. A despesa em questão consta da prestação de contas do então candidato e foi devidamente aprovada pelo TRE/AL. Em nenhuma hipótese houve contratação ou realização de pagamento para a criação de perfis falsos ou divulgações online por estes em favor da campanha.”

Vital do Rêgo Filho (PMDB)

“A coordenação da campanha de Vital do Rêgo para o governo da Paraíba, em 2014, contratou serviços de mídias sociais para divulgação regular de sua campanha, desconhecendo qualquer criação de perfis falsos por parte da empresa contratada. Todas as despesas da campanha constam da prestação de contas, devidamente aprovada pelo TSE. A coordenação da campanha afirma ainda o seu inteiro repúdio a esse tipo de prática.”

PVR Propaganda e Marketing Ltda

“A empresa só reconhece pagamentos feitos no primeiro semestre de 2014. A PVR pagou R$ 504 mil à empresa Face Media por serviços de monitoramento e análise do cenário político em internet e redes sociais. A PVR não pagou pela divulgação da candidatura de Aécio Neves nem de produtos da JBS. O contrato da PVR com a J&F não prevê isso e não existe outra prestação de serviços à J&F que não seja o contratado. Não existe nenhuma solicitação de contratação deste tipo de serviço pela PVR durante os quatro meses em que durou o contrato com a Face Media.” Também ressaltou que o Coaf não encontrou nenhuma irregularidade em suas movimentações.

J&F

Não quis comentar.

Laura Carneiro (PMDB)

“O gabinete da deputada Laura Carneiro informa que contratou os serviços da Face Comunicação On Line Ltda em fevereiro de 2017, conforme prestação de contas no Portal da Transparência da Câmara dos Deputados. A empresa foi contratada pelo histórico de trabalhos no Brasil e no exterior, e por seu bom conceito no mercado. Os serviços eram de monitoramento e de divulgação do mandato parlamentar nas mídias sociais. A assessoria da deputada não tem qualquer conhecimento sobre o uso antiético de perfis falsos em qualquer prestação de serviços realizados por essa empresa.”

Eunício Oliveira (PMDB)

“O senador Eunício Oliveira desconhece e em nenhum momento autorizou o uso de perfis falsos em suas campanhas eleitorais. O senador lamenta o uso e a disseminação de perfis e notícias falsos em qualquer tipo de comunicação.”

Renan Calheiros (PMDB)

“Renan Calheiros afirma que jamais contratou esse tipo de serviço. Em 2013, o senador sequer participava efetivamente das redes sociais, o que aconteceu apenas a partir do final do ano passado. Uma das grandes preocupações do senador atualmente é com o alcance orgânico das publicações e com as reações de perfis verdadeiros, que realmente representem o pensamento da sociedade. Nos últimos meses, o parlamentar tem feito discursos defendendo a fiscalização dos conteúdos postados por fakes em redes sociais. Renan, inclusive, tem sido vítima constante de ataques, especialmente quando faz críticas aos excessos cometidos por integrantes do Ministério Público ou defende a proibição do comércio de armas. Como forma de resguardar o processo democrático nas eleições que se aproximam, o senador acredita que é preciso criar ferramentas para fiscalizar e punir a disseminação de mentiras e ódio nas redes sociais.”

Eduardo Braga (PMDB)

O senador informou que não contratou nem ouviu falar da empresa Facemedia.

Ricardo Ferraço (PSDB)

“No curto período de maio a dezembro de 2012, a empresa Face Comunicação Online Ltda. prestou serviços de assessoria de comunicação digital ao meu gabinete, com o objetivo de estruturar o uso de mídias sociais. Os serviços contratados eram de diagnóstico, monitoramento de redes e consultoria de conteúdo de postagens. Jamais foi contratada, solicitada ou autorizada qualquer estratégia de comunicação que não fosse legal e ética. De mesmo modo, nunca orientei ou tive informação de que tal empresa se valia de algum expediente que não os legais e éticos, muito menos com a utilização de perfis fakes na internet. Obviamente, estou surpreso.”

Gim Argello

A reportagem não conseguiu contato com a assessoria de Gim Argello, hoje preso da Lava Jato. Seu advogado disse que não poderia responder sobre o tema.

Paulo Hartung (PMDB)

“Por meio da assessoria, o governador Paulo Hartung declarou que repudia o uso de qualquer tipo de mecanismo que utilize influência criminosa da tecnologia no processo eleitoral e no dia a dia das pessoas. De acordo com a assessoria, na última eleição, o governador utilizou uma equipe enxuta de comunicação, que foi responsável pelo atendimento à imprensa e mídias sociais. Acreditamos que as redes viabilizam um canal direto com a população que participou com questionamentos, contribuições e reflexões. O governador rechaça qualquer informação sobre uso de perfis fakes na campanha no último pleito eleitoral ao Poder Executivo Estadual.”

Rodney Miranda (DEM)

“Por meio de sua assessoria de imprensa, Rodney Miranda esclareceu que desconhece a atuação da empresa mencionada e ratificou que o trabalho nas redes sociais foi, à época, desenvolvido por apoiadores do então candidato.”

Índio da Costa (PSD)

“O deputado federal licenciado e atual secretário municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação esclarece que não contratou os serviços citados e por isso nada tem a dizer sobre o assunto.”

Felipe Peixoto (PSB)

“Reafirmamos que nossas campanhas sempre foram pautadas pela ética e transparência e repudiamos qualquer utilização de mecanismos fora desses princípios em nossas atuações.”

Assessoria que prestou serviços a Wallim Vasconcelos na época da eleição

“O uso da Facemedia em campanha foi para monitoramento e reação nas redes. Pelo tempo curto de campanha, optamos por receber relatórios sobre performance nas redes sociais. Fechamos um valor simbólico, já que nossa campanha foi toda feita através de voluntários, e apoiadores. Recebíamos relatórios de aceitação da chapa nas redes. Um termômetro que apontava pontos positivos e negativos das chapas (tanto a nossa quanto dos concorrentes), dos candidatos e seus apoiadores. O trabalho deles era somente monitorar, captar dados, compilar relatórios para que tivéssemos como trabalhar nossa estratégia de atuação. Eles nunca usaram nossas redes de campanha nem acesso a dados nossos. Na reta final de campanha, surgiram nas redes perfis fakes, em grande quantidade, e ao questionarmos sobre este surgimento, se estava associado à agência, recebemos a resposta formal por eles, que não se utilizam desta estratégia. Na ocasião passamos a denunciar os perfis, que era a única forma de combater a atuação, uma vez que não tínhamos como saber sua origem.”

Fonte: BBC.

Anúncios sexistas banidos

Modelo extremamente magra no anúncio da Gucci foi banido na Grã-Bretanha por promover padrão não-saudável de beleza.

Por enquanto é só na Grã-Bretanha, mas quem sabe a novidade se espalha mundo afora. Os anúncios que perpetuam estereótipos de gênero ou tentarem burlar as novas regras podem ser banidos. O anúncio oficial foi feito hoje (18/7) pelo chefe da Autoridade de Padrões de Publicidade(ASA) da Grã-Bretanha, Guy Parker.  O Comitê de Prática de Publicidade trará novos padrões de publicidade para reprimir as peças que caracterizam os papéis estereotipados de gênero ou padrões de imagem e comportamento não-saudáveis devem entrar em vigor em 2018.

Guy Parker disse que os anúncios que caracterizam papéis ou características de gênero estereotipados têm um impacto nocivo, particularmente nas crianças. As novas regras vão afetar as propagandas sexistas, as que exibem a mulher como única responsável pela limpeza ou homens tentando e não realizando tarefas de cuidar dos filhos ou domésticas simples. Além das que sugerem que uma atividade específica é inadequada para meninos porque está associada a meninas ou vice-versa. E, claro, as que promovem padrões de beleza não saudáveis como a campanha acima, com uma modelo extremamente magra, da Gucci.
“Os retratos que reforçam visões desatualizadas e estereotipadas sobre os papéis de gênero e podem ter um impacto prejudicial em toda a sociedade”, disse o executivo-chefe da ASA, Guy Parker, ao jornal The Guardian. “Embora a publicidade seja apenas um fator em um debate mais amplo, padrões de publicidade mais duros podem desempenhar um papel importante na luta contra as desigualdades em benefício dos indivíduos, da economia e da sociedade como um todo”.

A necessidade de regras mais rígidas é justificada por uma extensa pesquisafeita pela ASA sobre a influência dos estereótipos na vida da população – Representações, Percepções e Danos. As propostas da ASA, delineadas em um relatório realizado com a empresa de pesquisa GfK, fazem parte de um esforço para abordar a forma como as mulheres são retratadas em anúncios.

A ideia é fortalecer a prevenção a campanhas que tragam mensagens sobre como o “corpo envergonha” as mulheres jovens. Como a controversa campanha “Beach body ready” da Protein World, que não foi banida apesar de uma petição com 70.000 assinaturas alegando que a representação de um modelo de biquínis em um anúncio para um produto com perda de peso é socialmente irresponsável.

De acordo com o estudo, representações como essa podem limitar a forma como as pessoas se vêem, como as outras as vêem, e as decisões de vida que tomam. O relatório apresentado pela agência identificou seis tipos diferentes de estereótipos de gênero na publicidade, incluindo “ocupações ou posições” e “atributos ou comportamentos” associados a um gênero específico, além de campanhas que possivelmente debochem de pessoas que não pareçam ou se comportem de maneira “não estereotipada”. A sexualização e a objetivação também foram identificadas como tipos de estereótipos de gênero.

O endurecimento das regras contra a publicidade, segundo afirmou o diretor da ASA, visa proteger especialmente as crianças pequenas de  estereótipos nocivos, pois eles são mais propensos a internalizar as mensagens que vêem, o que, por sua vez, pode limitar seu desenvolvimento.

Entre, os anúncios que tiveram reclamações junto à ASA no ano passado incluíram uma campanha do gigante da roupa, Gap, com uma imagem de um menino pré-escolar, rotulado como “o pequeno estudante”, vestindo uma camiseta com o rosto de Albert Einstein, ao lado de uma menina com orelhas de gatos e rotulada como “borboleta social”.

Ella Smillie, o autor principal da pesquisa, explicou que, embora não existam problemas endêmicos na publicidade, os consumidores não gostam de ver a falta de diversidade na publicidade nem estereótipos com o potencial de limitar as expectativas. Ela explica que o papel do ASA não é dizer às marcas o que elas deveriam fazer, mas dar-lhes exemplos tangíveis do que deveriam evitar. “Desafiar os estereótipos de gênero pode levar à criação de publicidade criativa brilhante”, acrescentou. Confira abaixo a entrevista dela:

Tendência

A preocupação do departamento regulador britânico, mostra uma tendência mundial. No mês passado, a UN Women lançou uma “Unstereotype Alliance” global para banir os estereótipos de gênero na publicidade. Os adeptos incluem empresas como Unilever, Google e Facebook.

O movimento segue um importante projeto de pesquisa de J Walter Thompson New York e The Geena Davies Institute in the Media, que analisou 2.000 anúncios e descobriu que as mulheres em publicidade são “sem humor, mudo e na cozinha”. Segundo a pesquisa,  48 % das mulheres na propaganda são mostradas na cozinha.

Com informações da Reuters, The Guardian e Campaign Live UK.

Fonte: Comunica que muda

Fora de lugar

Fora de lugar

É assustador. Mas existe tanto lixo no mar que parte dele já se mimetizou ao meio ambiente. Os anúncios perturbadores fazem um alerta sobre a quantidade de plástico nos Oceanos. A campanha é da ONG de proteção marinha Swiss OceanCare, criada pela agência Spinas Civil Voices.

Segundo um estudo divulgado no início de 2016 pelo Fórum Econômico Mundial, se o consumo de plástico continuar a crescer no ritmo atual, os oceanos do planeta terão mais plástico do que peixes, em peso, no ano 2050. Com o tempo, o plástico se quebra em pequenos pedaços chamados de microplásticos, mas isso não significa que ele desapareça. Ele demora para se biodegradar ou se depositar no fundo dos oceanos, e pedaços flutuantes do material se acumulam na superfície da água.

De acordo com o pesquisador Markus Eriksen, que realizou 24 expedições para obter dados sobre esse plástico através de coletas do material e registro de concentrações na superfície, há no mínimo 5,25 trilhões de partículas de plástico flutuante que, juntas, pesam 269 mil toneladas. Os resultados foram publicados em 2014 na Plos One, um jornal de divulgação científica de acesso público.

Uma das formações mais famosas de plástico flutuante é a Grande Porção de Lixo do Pacífico, uma aglomeração que se forma entre a altura do Havaí e da Califórnia e se estende até a costa do Japão. Dando um zoom no mapa é possível observar como os pontos brancos têm uma distância pequena entre si, especialmente no centro da porção de lixo. Seu núcleo mais denso, onde se concentra mais material, tem 1.000.000 km². Confira um mapa interativo sobre o lixo nos oceanos aqui.

No Brasil

O lixo que está no mar representa um grande risco à vida dos animais marinhos. De acordo com dados do Instituto Argonauta, em São Paulo, 1.200 tartarugas marinhas morreram desde janeiro de 2016 e, destas, cerca de 25% por causa da ingestão de lixo marinho.

Hugo Gallo, presidente do Instituto Argonauta, diz que 99% das manchas de lixo nos oceanos é formada por plástico descartado pelos humanos, que causam mortes, como a de uma tartaruga marinha que ingeriu bexigas, em junho deste ano, no litoral norte de São Paulo.

O biólogo João Alberto dos Santos faz um alerta, lembrando que o lixo marinho chama a atenção quando se divulga morte de animais grandes, como as tartarugas marinhas. Ele ressalta que a poluição das águas, por produtos cosméticos como pasta de dentes ou esfoliantes que contêm microplásticos, também matam seres menores, como crustáceos, afetando toda a cadeia natural do mar.

No litoral de São Paulo, o Instituto Argonauta orienta para que as pessoas, ao encontrarem animais feridos ou mortos na praia, entrem em contato com institutos de monitoramento da vida marinha da região. No caso do litoral norte de São Paulo o número é 0800 6423341. Com informações do Nexo Jornal e EBC.

 

Fonte: Comunica que Muda

Entenda como o governo falhou em informar sobre a reforma da Previdência

Entenda como o governo falhou em informar sobre a reforma da Previdência

Há 1 ano, maioria defendia adoção de idade mínima. 4 pontos ajudam a explicar erros na comunicação

A comunicação do governo federal sobre a reforma da Previdência Social falhou miseravelmente. Em maio de 2016, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) encomendou uma pesquisa ao Ibope, que revelou que 85% dos entrevistados discordavam de pagar mais impostos para manter as regras atuais de aposentadoria. Na mesma pesquisa, 65% concordavam com o estabelecimento de uma idade mínima para a aposentadoria. Já em maio deste ano, pesquisa do Datafolha revelou que 72% dos brasileiros eram contrários à mesma reforma.

O que mudou tanto de um ano para o outro? Quatro pontos importantes ajudam a explicar por que a comunicação da reforma falhou.

Em 1º lugar, ao contrário do que possa parecer, o resultado da pesquisa do ano passado sugere fortemente que, como é comum em se tratando de temas complexos, a maioria da população não tinha opinião formada sobre o assunto. E isso é compreensível: temas abstratos, que não fazem parte do dia a dia e cujos efeitos acontecem em um longo horizonte temporal, não integram o finito repertório de preocupações diárias que acompanha o cidadão comum. Para qualquer assunto complexo fora desse repertório, pode-se esperar, grosso modo, uma distribuição de opiniões em torno de uma curva normal, como ilustrado na figura abaixo: uma minoria bem informada a favor, uma minoria beneficiada pelo sistema que é contra, e uma massa enorme de pessoas sem opinião formada.

Em 2º lugar, a pressão de quem é contrário a mudanças em um sistema social complexo é, via de regra, bem mais forte do que a de quem é favorável (por isso a seta vermelha maior acima). Mudanças geram perdas. É um ensinamento básico da economia comportamental que a sensibilidade humana é mais forte em se tratando de possíveis perdas em relação ao status quo. Ganhar R$ 1.000 gera emoções menos intensas do que perder a mesma quantia. Mais ainda, as evidências sugerem que a ameaça de perdas é um excelente motor para propagar narrativas carregadas nas tintas em defesa do status quo. Um erro frequente por parte de governos (talvez o mais comum) na comunicação desse tipo de mudança é ignorar o fato de que todo sistema vai reagir às tentativas de alteração. No caso da Previdência, assim que a proposta de reforma alcançou o Congresso Nacional e houve tempo para que o sistema fizesse sua esperada mágica, a figura acima se transformou em algo como essa a seguir, manifestada na pesquisa do Datafolha.

Para contribuir com a oposição às mudanças, aqueles que seriam (serão) prejudicados no curto prazo por uma eventual reforma têm um argumento relevante: por que apenas nós temos de pagar o pato? Um dos julgamentos automáticos que o ser humano faz o tempo todo é o de justiça (distributiva, no caso). Em um país em que o Legislativo e o Judiciário têm gastos enormes em proporção ao PIB e em que vigora a percepção de roubalheira no meio político, é compreensível a resistência de quem será atingido pela reforma. Como ouvi recentemente de um aposentado: se a crise fiscal é tão grave, por que não está todo o mundo cortando na carne?

O 3º ponto que ajuda a explicar por que o governo federal falhou em sua comunicação está relacionado com o desenho das mensagens. Estudos mostram que o entendimento da mensagem e o consequente posicionamento da opinião dependem essencialmente do enquadramento (framing) adotado. A forma como um assunto é abordada muda radicalmente o apoio recebido. Nos EUA, o Frameworks Institute tem sido pioneiro na abordagem da comunicação de temas complexos e ideologicamente carregados. O que eles fazem? Desenham possíveis abordagens com base em valores humanos e as testam cientificamente. No Brasil, por outro lado, geralmente a comunicação é aquela baseada no que eu chamo de paradigma de jogar milho aos pombos: distribua-se a informação ao público e espere que ele “entenda” o ponto e mude seu comportamento ou visão sobre o assunto. O fato de a comunicação ser bonitinha (isto é, feita por agências de publicidade) e ser repetida à exaustão não muda nada. Tudo se passa como se o mais importante fosse apresentar informações e esclarecer as dúvidas da população, agindo como o sol que leva embora a neblina da manhã. Essa abordagem ignora as evidências de que o valor adequado, ativando as emoções adequadas, pode mudar as percepções das pessoas sobre temas complexos, facilitando as mudanças sociais.

Em 4º lugar, a abordagem da reforma da Previdência parece ter falhado em atender os requisitos que o pesquisador Edward Maibach, da George Mason University (EUA), tem mostrado como fundamentais na comunicação de cientistas sobre temas complexos. Esses requisitos são: as mensagens precisam ser simples – a ponto de conseguirem ser reproduzidas fielmente pelos membros dos públicos de interesse – e repetidas por uma variedade de fontes que o público perceba como confiáveis. Da mesma forma, recomenda-se que a comunicação seja desenhada de baixo para cima, usando o ponto de vista dos públicos que se pretende atingir.

O Brasil caminha para um estrangulamento fiscal, especialmente se não conseguir enfrentar a reforma da Previdência a tempo. O problema é, no fundo, um conflito entre gerações. É o mesmo problema, diga-se, por trás da (desesperadora) tíbia ação diante das mudanças climáticas. Deixamos de agir hoje para jogar a conta para as gerações futuras. O curioso é que pouca gente considera um cenário descrito pelo pesquisador Jørgen Randers, um dos grandes estudiosos dos efeitos das mudanças climáticas, em seu recente livro “2052”: e se a geração de jovens de hoje se recusar a assumir essa conta? (e aqui ele fala da Previdência e não do clima!).

Infelizmente, é muito comum que sejam necessárias crises fortes para romper a inércia individual e a miopia dos sistemas políticos. O Brasil não vai aprovar uma reforma previdenciária efetiva (e muito menos outras reformas importantes e também complexas, como a tributária) sem que a percepção de crise seja escandalosamente real e adequadamente comunicada.

Fonte: Poder 360

ABCPública repudia veto de Temer à Comunicação Pública

ABCPública repudia veto de Temer à Comunicação Pública

A Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública) lamenta os oito vetos do Presidente Michel Temer à lei que reestrutura a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Com os vetos, o Poder Executivo desprezou os esforços do Poder Legislativo para aperfeiçoar a Medida Provisória enviada ao Congresso e fazer a empresa mais permeável aos anseios da sociedade, como deve ser uma instituição de caráter público e como é a prática em países de democracia mais consolidada.

As mudanças feitas pelo Congresso foram inspiradas nos modelos europeu e asiático de Comunicação Pública, que levaram países como Grã-Bretanha, Alemanha, Canadá e Japão a serem referência na produção audiovisual, tanto jornalística como de entretenimento. Ao vetar o trecho que atribuía ao Conselho Editorial – substituto do extinto Conselho Curador –, o dever de “deliberar sobre alterações na linha editorial da programação veiculada pela empresa”, o governo esvazia a importância do órgão. Pelos vetos, o Conselho perde ainda o instrumento de convocação de audiências públicas e de consultas à população. Vai contra princípios republicanos o veto à aprovação, pelo Senado, do nome indicado para a Presidência da EBC. Na mesma linha, o fim da limitação do mandato do presidente inspira preocupação.

Por isso, a ABCPública conclama deputados e senadores a se empenharem pela derrubada dos oito vetos, tão logo eles sejam remetidos ao Congresso. É exatamente para aprimorar textos gestados em gabinetes que as medidas provisórias são submetidas ao Poder Legislativo, arena de embates públicos e um Poder muito mais permeável ao diálogo com a sociedade que o Poder Executivo.

A gente quer inteiro. E não pela metade

A gente quer inteiro. E não pela metade
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A comunicação pública é uma realidade em muitos países do mundo [1]. Sabe a BBC? Significa British Broadcasting Communications (nada mais que a Emissora Britânica de Comunicações). Por aqui não deveria ser diferente quando a Radiobras passou a se chamar Empresa Brasileira de Comunicações.
Em teste, emissoras públicas são concessões tanto quanto as particulares só que como não tem rabo preso com anunciantes podem e devem tratar de temas necessários para a população que as privadas não teriam condições de debater sob pena de perder anunciantes. Mais do que isso: as emissoras públicas, sejam federais ou estaduais, têm que “por o dedo na ferida” e oferecer integralmente as programações oficiais, como é o caso da NBR.
No dia 9 de Janeiro de 2017, o ministro da justiça Alexandre de Moraes concedeu uma entrevista coletiva sobre a “crise penitenciária”. Consegui assistir apenas alguns trechos na GloboNews, que logo cortou para passar outra matéria (e não há nada de errado disso, é o modelo de negócios deles). Só que fiquei curiosa: o que mais ele disse?
O controle remoto é uma benção! Passei para a NBR pois queria continuar vendo a coletiva. O que ia ao ar era a entrevista de Leonor Pach sobre obesidade. Outra tentativa: TV Justiça, mas o programa era Direito & Literatura. TV Cultura, TV Brasil: nenhuma delas exibia a coletiva do ministro ao vivo.
A mim cabia apenas o “direito” de assistir a edição de uma emissora que pago.
Pensei que era o que os millennials chamam de velha e fui procurar outros meios de comunicação. No site do Ministério da Justiça haviam duas notas à imprensa. Na agenda do ministro, nenhum compromisso (se coletiva de imprensa não é compromisso não sei o que se é).
“Talvez a geração do Mark tenha razão e a informação esteja no Facebook”, cogitei. Havia um compartilhamento de um post do Ministério da Saúde sobre chikungunya na página oficial do Ministério de Justiça e Cidadania. Há também um post sobre a retrospectiva da Secretaria Nacional da Política Sobre Drogas (SENAD) e outro compartilhamento, desta vez do Ministério da Integração Nacional para evitar o desperdício de água. No dia 4 de Janeiro há uma postagem com a retrospectiva do Departamento Penitenciário Nacional. Notas sobre o caos penitenciário de 2017? Nenhuma.
Tudo bem, quem sabe um passarinho me conta alguma coisa? Finalmente, alguns tuiters sobre o tema na conta oficial do Ministério da Justiça e Cidadania! Ali encontrei 23 postagens sobre a “crise penitenciária”. Aqui vale um importante adendo: nesta rede social, cada postagem pode ter no máximo 140 caracteres.
E, antes que me perguntem: o canal da TV Justiça no YouTube transmitia a entrevista da cabeleireira Tânia Luiza (não me perguntem porquê).
Mortos em Manaus, em Roraima, a divulgação de um PDF de 62 páginas intitulado “Plano Nacional de Segurança Pública” apenas com tópicos e sem detalhamentos de como implantar as ações, enfim, em meio ao caos o Ministério da Justiça prefere divulgar metade (um terço? Um quarto) das informações do que a sociedade brasileira merece saber por inteiro.
São muitas perguntas sem respostas e uma coletiva que deveria ser transmitida na íntegra. Por que o silêncio? A sonegação de informações pode parecer, em um primeiro momento, um case de comunicação mal feito. Mas consegue ser pior: O Ministério da Justiça e Cidadania viola um direito humano que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos [2]:
Artigo 19º: “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.”
Esta “seletividade” ao ser observada mais atentamente consegue-se tornar ainda mais estranha para compreender: por que, em pleno domingo, a TV Câmara transmitiu ao vivo a votação dos deputados federais para o impeachment de Dilma Rousseff e neste caso, com tantos meios, o que existe é a falta de informação?
Em seu artigo, “Instrumentos de participação pública como auxílio à participação política dos cidadãos- Avaliação das políticas públicas de cidadania do portal eletrônico do governo da cidade de São Paulo”, Fabíola de Paula Liberato, Pós Graduanda do Mestrado em Comunicação do Programa de Pós Graduação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, deixa uma possibilidade raciocínio [3]:
“A comunicação tem como base o intercâmbio de informações, porém, o fato de haver informação sobre determinado tema político, por exemplo, não garante a eficácia da comunicação pública. A comunicação pública deve proporcionar condições de acesso e maior interação entre representantes e representados, a criação de espaços para discussões e exercício da cidadania possibilita a melhora da comunicação e a busca do entendimento, compreensão. Uma característica notável da informação desenvolvida pela comunicação pública é ter conteúdo que seja de interesse de todos”.
O Ministério da Justiça e Cidadania, bem como as outras pastas e a própria sociedade não estão interessados em saber o que houve nos presídios e muito menos o que acontecerá daqui para frente. A barbaridade ali praticada, a admissão de facções criminosas, a ineficácia do sistema: nada disso parece importar para ninguém. E os que se importam, como eu, literalmente não tem nada para ver.
Texto: Ivy Farias – jornalista e estudante de Direito da UMC Villa-Lobos/Lapa em São Paulo e uma das co-fundadoras do movimento Mais Mulheres no Direito.
Fonte: Jornal GGN

Comunicação pública do Rio Grande do Sul sofre desmonte

Comunicação pública do Rio Grande do Sul sofre desmonte

Na avalanche de completo desrespeito às instituições democráticas, a comunicação pública tem sofrido ataques que vão além da esfera federal

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Trabalhadores da TVE e a FM Cultura do Rio Grande do Sul em protesto contra o desmonte

No início desta semana, a comunicação pública brasileira sofreu mais um golpe com o anúncio da extinção da Fundação Piratini, que faz a gestão das duas emissoras públicas do Estado do Rio Grande do Sul – a TVE e a FM Cultura. A intenção foi apresentada na segunda-feira 21 pelo governador do Estado, Ivo Sartori (PMDB). Além da Piratini, outras oito fundações ligadas ao governo deixarão de existir. A justificativa seriam os altos custos com essa estrutura: 28 milhões de reais ao ano, segundo o governo.

Caso aprovada pela Assembleia Legislativa estadual, a medida resultará na demissão em massa de centenas de trabalhadores ligados à fundação, conforme já denunciou o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) – mais de 1,2 mil quando somados os servidores de todas as fundações que se pretende extinguir. Ainda de acordo com o FNDC, a TVE tem um público de mais de 6,5 milhões de pessoas e, com os investimentos que estavam previstos, deveria alcançar um total de 8 milhões de habitantes nos próximos anos.

Com décadas de atuação – a TVE foi inaugurada em 1974 e a FM Cultura em 1989 –, o futuro das emissoras ligadas à Fundação Piratini ainda é incerto. Após a repercussão negativa desta decisão, no entanto, o governo do Rio Grande do Sul reformulou o discurso, afirmando que as emissoras não serão extintas e sim terão suas estruturas “readequadas”, processo que será feito pela Secretaria de Comunicação daquele Estado.

O fato de ser uma Secretaria de Estado a se tornar responsável pela gestão da comunicação pública é elemento determinante para se prever que esta comunicação deixará de ser pública e se tornará governamental. Assim, é bem provável que o Rio Grande do Sul perca duas emissoras públicas e ganhe duas emissoras de governo, atentas exclusivamente à veiculação de conteúdos de interesse do Palácio Piratini.

A principal justificativa para o desmonte é o argumento técnico da “calamidade financeira”. É preciso questionar, afinal, por que a comunicação pública é sempre tida como o alvo fácil de “readequações” que, no fim das contas, esvaziam seu sentido público, transformando-as em correia de transmissão de ações de governos?

Este esvaziamento ficou evidente com a Medida Provisória 744/2016, produzida na esfera federal, que extinguiu o Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). O órgão, formado por diferentes atores indicados pela sociedade civil, visava garantir, embora nem sempre conseguisse, um dos pilares da comunicação pública, que é a gestão democrática com participação social.

Antes disso, o governo de Michel Temer (PMDB), ainda quando interino, já havia demonstrando seu total desprezo pela comunicação pública e pelas instituições democráticas, ao exonerar, em maio, o então diretor-presidente da EBC, Ricardo Pereira de Melo, cujo mandado deveria seguir até 2020 e só poderia ser interrompido por decisão do Conselho Curador. A ação, embora embargada naquele momento político, foi concretizada com a efetivação do governo golpista e com a MP 744/2016.

E mais, funcionários concursados perderam cargos de chefia e nomeados foram também exonerados. A desculpa que circulava nos bastidores era de que a EBC estava a serviço do Partido dos Trabalhadores (PT) e do governo Dilma. Uma gafe cometida recentemente pelo atual presidente no fim da entrevista que concedeu ao programa Roda Viva, ao agradecer pela “propaganda” da empresa, revela, afinal, de quem é a intenção de promover o aparelhamento da Empresa Brasil de Comunicação.

O ano de 2016 nos mostrou de forma muito contundente o quanto a mídia ainda tem poder para construir e destruir reputações e governos. A concentração dos meios de comunicação no País, somada às inúmeras violações ao direito à liberdade de expressão da população que são consequência desta concentração, enfatizam a necessidade de se mobilizar recursos e ações políticas para fortalecer a comunicação pública, implementando aquilo que prevê o artigo 223 da Constituição federal, que é a complementaridade do sistema de comunicação (público, estatal e privado).

Ora, as medidas em curso, tanto em âmbito federal quanto nas esferas estaduais apontam justamente na direção contrária, ao solaparem as poucas iniciativas concretas de comunicação pública desenvolvidas no País. Estes atos nos fazem retroceder décadas no debate sobre a importância deste tipo de comunicação, inclusive sob a perspectiva do carregamento do conteúdo independente produzido nas diversas regiões do Brasil.

Além da caça às bruxas feita na EBC, a ofensiva para minar o caráter público da empresa já se faz sentir na programação, que vem perdendo em pluralidade e diversidade. No caso do Rio Grande do Sul, vale perguntar, um órgão de propaganda governamental, será esse o futuro que se desenha para a TVE e a FM Cultura? Esperamos que não.

Escrito por: Mônica Mourão, jornalista que integra a Coordenação Executiva do Coletivo Intervozes

Fonte: Carta Capital

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